O Tempo Já Não Importa na edição de outubro da revista Quatro Cinco Um. Uma das boas publicações brasileiras com foco na Literatura.
terça-feira, 20 de outubro de 2020
O Tempo Já Não Importa na Quatro Cinco Um
Fui Criado Pela TV
Fui criado pela TV. Essa é a real. Família pequena. Pessoal tinha que correr atrás. Escola de manhã. Primeiro grau, Ana Neri. Segundo grau, José Cândido de Godói. Requenta um rango no almoço. Tinha até pizza de 1.99. Vinha numa bandeja de isopor. Troço ruim. Depois, rua e TV. Liberdade impensável hoje.
Mas como disse. Fui criado pela TV. Cine Privé, lógico. Emanuelle, que Deus a tenha. Sempre viva aqui. E MTV. Uma Semp Toshiba branca 10 polegadas. Um inferno pra fazer pegar o UHF. Canal 24. Vira antena pra janela. Arrodeia o miolo do botão. Chuvisco. Tenta bombril. Tapa de leve em cima pra estabilizar a imagem. Também tinha aquela tv + rádio. Imagem preto e branca. UHF acoplado facilitava. Era foda de ver. Mas via.
Era música direto. Video clipe. O mundo tava ali. Que loucura! Lado B. Fúria Metal. Clássicos. Yo Rap. Etc etc. Outro tempo. Thunder fala disso aí. 30 anos de MTV. Nunca mais. Quem viu, viu. O relato dele começa eufórico. Vai ficando triste. Deprê. E termina assim.
Porque já era. O mundo adulto é esse monte de saudade reunida. De vez em quando, a gente lembra. Puta que pariu.
terça-feira, 13 de outubro de 2020
Toda vez que a tristeza me alcança o menino me dá a mão*
Com dois anos e meio, a pessoa começa a ter vontade própria. Hoje, meu filho escolheu a roupa, uma camiseta do Homem-Aranha, e pediu para ir pra praia. Mas praia não há em Porto Alegre.
- Pode ser ir pra rua? – perguntei.
- Rua!
E saímos. Já na primeira quadra, o mesmo mendigo de sempre. Sentado. Sentado não, escorado. Completamente bêbado. O guri breca e dá oi. O mendigo retribui e comenta que o tempo está bom para um passeio. Ambos dão risada e falam coisas meio incompreensíveis. Eu dou um leve empurrãozinho em meu filho, que entende o sinal e acena com um tchau para o mendigo.
- Tchau pra ti também, amiguinho! Pô, tu foi a primeira pessoa que me cumprimentou hoje.
São 13h30. O sol a pino. Duas quadras pra frente, meu filho pede colo. Quer voltar pra casa. Tem fome e quer um chocolate, porque com dois anos e meio a pessoa começa a ter vontade própria.
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*O título faz menção ao clássico Bola de meia, bola de gude
domingo, 27 de setembro de 2020
Flannery O’Connor – Sobre a Autora
Flannery O’Connor nasceu em Savannah, cidade do estado americano da Geórgia, em 25 de março de 1925. Criada no seio de uma família católica, não saiu de sua cidade natal até sua adolescência, quando perdeu o pai para o lúpus, mesma enfermidade que, em 3 de agosto de 1964, tiraria sua própria vida.
Tendo se formado em Ciências Sociais pelo Georgia State College for Women, onde atuou como editora de dois periódicos – uma revista dedicada à literatura e outra, às artes –, Flannery conseguiu, em 1946, vaga na célebre Oficina de Escrita Criativa da Universidade de Iowa. Neste mesmo ano, teve publicado seu primeiro trabalho: o conto “O gerânio”. No entanto, embora Flannery viesse a ser reconhecida como uma das principais contistas da literatura americana, seu primeiro livro foi um romance: Sangue sábio, de 1952. A ele seguiram-se o célebre Um homem bom é difícil de encontrar, coletânea de contos de 1955, e o romance O céu é dos violentos, de 1960. Em 1965, publicou-se ainda um volume póstumo de contos inéditos: Tudo o que sobe deve convergir. Também vieram a público, após o falecimento da autora, suas cartas, algumas de suas críticas literárias, outros texto em prosa e seu diário de orações.
Um dos expoentes do chamado “gótico sulista”, Flannery retrata em suas obras a decadência do Sul americano, as complexidades da relação entre homem e Deus e a aridez dos tempos modernos, bem como a tendência do homem à brutalidade e à perversidade num mundo necessitado da graça divina. No entanto, mescla a tudo isso certos traços grotescos e excêntricos, mas também dotados de um humor peculiar. Curiosamente, a mistura de elementos tão incomuns fez com que fosse conhecida por seu... realismo. Um realismo todo seu, é bem verdade.
Quando confinada a um leito de hospital, poucos dias antes de morrer de lúpus, Flannery ainda se dedicava a revisar e modificar seus originais. A cena serve como ótimo exemplo do quanto Flannery dava de si à literatura, e isso o leitor não deixará de percebê-lo nas páginas de suas obras.
terça-feira, 25 de agosto de 2020
O Caso Flordelis - Maior Que a Ficção
Flordelis tem quatro filhos biológicos e outros três adotados da "primeira geração" que faziam parte da "elite dos filhos". Estes tinham acesso a uma geladeira com tudo do melhor, enquanto os demais 40 e tantos dormiam em quartos coletivos e comiam pão seco, massa e salsicha. Anderson, o marido morto, era um dos primeiros adotados. Durante um tempo ele namorou uma filha biológica da Flordelis, então, ele era filho e genro ao mesmo tempo e, depois, se tornou marido, enquanto ela foi mãe, sogra e esposa da mesma pessoa. E da filha, ele foi irmão, namorado e, depois, padrasto. Fora isso, Flordelis costumava frequentar uma casa de swing, onde teria um quarto exclusivo para participar de surubas com a filha, ex do marido, o marido e o marido da filha. Tá confuso? Mas tem mais, segundo um dos filhos, quando adotado foi trancado em um quarto para se purificar, enquanto a mãe adotiva o visitava para domá-lo sexualmente, dias e dias de sexo. Depois de aceito, em um ritual secreto, o pastor Anderson, o assassinado, se apresentava pelado e fazia com que os iniciados cortassem a mão e, com sangue, escrevessem trechos dos Salmos. Mas não acabou ainda, não. Anderson pedia permissão para também fazer sexo com os recém adotados. Quando de visitas de pastores de outros países, o casal oferecia uma das filhas para o prazer sexual como bons anfitriões. Flordelis teria tentado matar o Anderson oito vezes, envenenando sua comida (ele é ruim de morrer, teria dito um a das filhas), por conta do controle financeiro da igreja que fundaram, que tem o sugestivo nome de Cidade do Fogo. Anderson estaria cortando regalias da elite dos filhos e, estes, em associação com Flordelis, arquitetaram seu assassinato com mais de trinta tiros, a maioria parte na região pélvica da vítima. Agora sim temos um roteiro para uma série de fanatismo, horror e violência, proibida para menores. Nem Pasolini conseguiria filmar isso daí.
Texto de Marcelo Benvenutti
domingo, 23 de agosto de 2020
Poema das Crianças*
O bebê de um ano e onze meses morto a pauladas pelo pai,
As dez crianças mortas pelo vigia que ateou fogo na creche,
O menino assassinado pela polícia dentro casa com setenta e um tiros disparados a esmo,
O garoto estrangulado pela mãe,
O garoto empalado pelo homem desconhecido,
A menina alvejada pela facção rival do pai,
A recém-nascida morta pela mãe, guardada em uma sacola plástica e descartada no container de lixo orgânico,
O garoto que vendia rapadura na rua, morto com a promessa de que teria todos doces comprados se fosse a casa do assassino,
O menino que recebeu a injeção letal a mando do pai,
O menino arrastado por sete quilômetros do lado de fora de um carro por assaltantes,
A menina atirada da janela do sexto andar pelo pai e a madrasta,
O bebê de duas semanas que foi esquartejado e teve partes do corpo comida por cães,
O menino assassinado com dois tiros no rosto antes do pedido de resgate,
O menino com síndrome de down morto com água fervente pela mãe,
A menina estuprada e que teve o corpo sem vida jogado no telhado pelo vizinho,
As duas crianças mortas em um ritual e que até hoje não foram identificadas,
O menino assassinado com uma facada no pescoço pelo pai que tinha ciúmes da mãe,
O pequeno sírio que morreu afogado fugindo guerra e foi encontrado de bruços na beira da praia,
O bebê de noves meses morto de fome e desidratação pela mãe que o deixou por sete dias em um carrinho e saiu de casa,
E o feto de cinco meses abortado de uma menina de 10 anos que era estuprada pelo tio
Não se tornaram pessoas más,
Porque a sociedade
Não os corrompeu.
terça-feira, 18 de agosto de 2020
Morte ao voto útil! - Crônica de Charb
Os períodos de eleições são particularmente propícios à caça aos idiotas. Não que o número deles aumente nessas épocas, eles simplesmente saem mais da toca. Basta conversar um pouco, e não vão conseguir deixar de dizer algo que os denuncie. Por exemplo: “É preciso optar pelo voto útil”. Ou: “Desta vez, vou votar útil”. Não resta dúvida: você tem pela frente um grandessíssimo idiota. Será que o individuo não percebe a imbecilidade que acaba de dizer? É pouco provável, devido à sua condição de idiota. O conceito de “voto útil” é totalmente antidemocrático e, em geral, o idiota é democrata. É o que os pesquisadores de idiotices chamam de “paradoxo do idiota”. Quando se supõe que existe um voto útil, se supõe, ao mesmo tempo, que existem votos inúteis. O idiota, então, está cagando para o pluralismo democrático, mesmo que se diga um grande democrata. O idiota que vota útil deseja que todos da sua família política votem pelo futuro vencedor. Na verdade, o idiota sabe antes de todo mundo quem será eleito, sendo então inútil votar pelos outros, os perdedores. O idiota é uma espécie de eugenista que gostaria de ver pessoas diferentes desaparecerem. Pessoas diferentes, quer dizer, a seu ver, pessoas inúteis à construção da sociedade com a qual ele sonha. Resumindo, o voto útil é uma fórmula nazista, totalitária, perigosa. Se nem todas as expressões democráticas são úteis em democracia, por que não suprimir algumas? Ao ficar repetindo que é preciso votar útil, o idiota está condenando a democracia à podridão. Quantos jovens e inexperiente eleitores não se deixaram enganar por essa espécie de slogan aparentemente sensato: “É preciso optar pelo voto útil”? Quantos cidadãos não votaram contra as próprias ideias, condicionado pela propaganda dos idiotas?
Você há de concordar, é preciso trancafiar o idiota que vota útil numa urna eleitoral e lançá-la de paraquedas num gulag norte-coreano. Amén.
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Charb (Stéphane Charbonier) foi diretor do semanário satírico Charlie Hebdo de 2009 a 2015. Ele foi uma das vítimas do atentado terrorista à sede da publicação. A crônica acima faz parte do livro Pequeno Tratado da Intolerância, publicado no Brasil em 2015 (editora Planeta).


