quarta-feira, 25 de março de 2026

Terra Arrasada

 


Eu acabei com os sonhos dos meus pais. Mais precisamente de minha mãe. Hoje, que sou pai, e já perdi um tanto de sonhos no caminho, compreendo o que se passou. Mas é assim que a vida é. Os filhos fazem isso com seus pais. Os filhos são uma terra arrasada. E, ao mesmo tempo, uma nova terra. Minha mãe acabou com os sonhos de minha vó. E minha vó lutou pelos seus sonhos. Trocou de marido. Trocou de casas. Trocou de vida. E foi lutando com os sonhos que lhe restavam. Até que eu nasci e ela descansou. Porque naquele menino existia uma razão e um motivo pra sonhar. Não seu sonho original. Mas o sonho inesperado e possível. A sua vida, afinal, era aquele garoto. Mesmo doente. Mesmo velha. Mesmo sozinha. Porém, um sentido havia naquilo tudo. Cuidar de algo tão frágil. Naquela terra arrasada, minha vó plantou uma flor. 

segunda-feira, 23 de março de 2026

Menino de Engenho - Trecho

 


À noite dormimos em cama de vara. A chuva pingava dentro de casa por não sei quantas goteiras. E o cheiro horrível dos chiqueiros de porcos pertinho da gente. Os outros retirantes ficaram na casa de farinha, pelo chão. Era tudo isto o que de melhor o pobre do velho Amâncio tinha para nos oferecer: esta sua desgraçada e fedorenta miséria de pária.

Depois chegou do engenho o mantimento que tínhamos esquecido com as pressas. E a minha tia Maria distribuiu com aquela gente toda a carne de sol e o arroz que nos trouxeram. Eles pareciam felizes de qualquer forma, muito submissos e muito contentes com o seu destino. A cheia tinha-lhes comido os roçados de mandioca, levando o quase nada que tinham. Mas não levantavam os braços para imprecar, não se revoltavam. Eram uns cordeiros.

— O que vale é a saúde e a proteção de Deus — diziam sempre.

Mas, coitados, com que saúde e com que Deus estavam eles contando!

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Trecho de Menino de Engenho, de José Lins do Rego (110ª edição, José Olympio Editora, 2018)