sábado, 17 de abril de 2021

A Hora de Doar as Ferramentas


Pela primeira vez na história moderna, ou desde que se tem notícia, temos mais mortes que nascimentos. A culpa é da pandemia. Não só dela, claro. A culpa é mais nossa. O homem fracassou faz um bom tempo. Não se sabe se essa triste estatística prosseguirá, pois a humanidade sempre pode surpreender. E como estamos presenciando, essa surpresa nem sempre é positiva. Ainda pode ser pior. 

Ninguém, pelo menos os que ainda estão em consciência plena, acreditam que o mundo sairá melhor dessa. As divisões e os extremismos, sob qualquer aspecto, se mostram indissolúveis. O distanciamento social, o real, o da diferença entre as pessoas, persistirá. 

No princípio da pandemia, ainda se cogitava a possibilidade de um mundo melhor, mais unido, pois somente assim seria possível combater de forma eficaz o coronavírus. Era um otimismo que tinha sentido de ser. Afinal, se tratava de uma postura lógica para garantir a sobrevivência de todos. Não foi o que ocorreu. Ficou comprovado, mais uma vez, que somos um desastre. E, agora, vivemos uma fase onde os agentes funerários trabalham mais que as parteiras. 

A morte, portanto, não nos comove mais. E se é assim, o que nos comoverá daqui em diante? Aparentemente, só nos falta uma guerra. Se é que ela já não está entre nós...

Vez por outra, lembramos que ainda existe afeto, amizade, amor e outras pieguices tão necessárias para deixar os dias e a vida mais leves e com algum sentido. O vizinho da frente morreu faz pouco de Covid19. Em um dia estava descendo do ônibus, atravessando a rua e indo para casa. No outro, não existia mais. Não é força de expressão. Foi tudo muito rápido. Disseram que não tinha leito. 

Seu parente, que mora junto e o nomearei aqui como Seu Gervásio para preservar seu nome real, conseguiu uma cama. Ficou internado um tempo e ganhou alta. 

Tão logo chegou, tocou o interfone do apartamento de meu pai. Meu velho, receoso, queria saber o que era, pois não tinha a intenção de conversar presencialmente, mesmo se tratando de uma possível boa notícia.

- Eu não peguei covid. Foi pneumonia. Desce, por favor! Preciso muito falar contigo. 

Convencido, meu pai foi atender o Seu Gervásio. Os velhos estavam na calçada.

- É o seguinte. Vou direto ao assunto. É verdade, eu não peguei covid, mas sei que vou morrer e é logo.

- Não fala bobagem, homem de Deus! 

- É certo. Mas não vem ao caso. Quero te doar todas as minhas ferramentas.

- Como assim?! Tu nunca empresta essas benditas ferramentas.

- De que me adianta ficar com elas? Eu não vou leva-las comigo. 

- E se eu morrer antes de ti?

- Tu não vai morrer. Tu nunca tem nada. E se alguém tem que ficar com elas, esse alguém é tu.

Queriam se abraçar, mas não sabiam como. Se despediram desajeitadamente. Dias depois, meu pai me contou a história e mostrou as ferramentas. Uma a uma.

- Olha essa polidora! Parece nova. Isso aqui é dos anos 80, certamente. Como ele cuidava bem delas! 

- Ele ainda está vivo, pai. Tu fala como se ele estivesse morto.

- Eu sei, eu sei... Como é triste ficar velho, meu filho. Mas tem uma coisa boa.

- Qual?

- Só se fica velho uma vez.


segunda-feira, 12 de abril de 2021

Taxação de Livros no Brasil - Um Relato

 Falo sobre minha relação com a Literatura na Folha de São Paulo. A pauta é a possível taxação dos livros, que pode dificultar ainda mais o acesso a leitura no Brasil.


Matéria completa no link.