segunda-feira, 16 de julho de 2018

O Que É Ser Escritor Hoje - Um Relato de Wiley Cash


Abaixo, o relato do escritor norte-americano Wiley Cash sobre os desafios de viver de escrita. O texto foi postado originalmente no twitter do autor e traduzido para o português pelo jornalista André Barcinski, que o publicou na íntegra em seu blog.


Ontem à noite jantei e tomei cerveja com um bom amigo, que também é um escritor bem-sucedido, o tipo de escritor cuja carreira muitos de nós invejaríamos. Eu tenho pensando nele e nas coisas sobre as quais conversamos. Aqui vai:

Quando as pessoas descobrem que sou escritor, muitas vezes, ouço coisas como: "Eu adoraria escrever, mas não tenho tempo", ou "Deve ser incrível sentar na mesa o dia todo e escrever o seu livro".  Anos atrás, quando minha esposa e eu nos mudamos para o nosso bairro, uma vizinha me disse que, sempre que passava pela nossa casa enquanto passeava com seu cachorro, ela pensava em mim lá dentro, sentado na minha mesa, trabalhando em um romance. Ela disse isso melancolicamente, como se fosse a vida mais tranquila que ela pudesse imaginar. 

Nos últimos seis anos, publiquei três romances e um monte de contos e ensaios. Meu amigo com quem jantei publicou mais livros e ensaios que eu, e sua carreira tem sido um pouco mais longa, e ele vendeu mais livros. Mas quando nos encontramos, não falamos sobre nossos livros. Falamos sobre o trabalho. Falamos sobre seguro-saúde. Falamos sobre como o trabalho não-literário, as palestras, os workshops, os cursos que ministramos, limitarão nosso tempo livre na mesa, escrevendo. Falamos sobre as ligações que recebemos de pessoas de Hollywood e se devemos ou não acreditar quando elas nos pedem para trabalhar de graça na esperança de que alguém compre nossos projetos. Falamos de convites para palestras em bibliotecas, universidades e grupos cívicos. Quanto vão nos pagar?

Quanto podemos esperar ganhar? Quanto vale ficar longe de nossa família por mais um noite? Devemos incluir no valor o tempo de dirigir, esperar no aeroporto e pegar um avião? Devemos ser honestos sobre como uma hora de "trabalho" requer 36 horas de viagem e preparação?

Falamos sobre "blurbs" (frases elogiosas, geralmente de outros escritores, publicadas em capas e contracapas de livros para ajudar nas vendas), tanto as que pedimos, quanto as que somos solicitados a contribuir. Falamos sobre o mercado de livros e como nos sentimos sobre nossos agentes e editores. Falamos sobre a esperança de que o próximo livro seja o que nos ajude a chegar ao ponto em que finalmente não precisemos mais ter as conversas que ainda temos.

A maioria dos meus amigos são escritores, e muitos poucos pode se considerar "bem de vida". Todos correm atrás, ralam, tanto em seus trabalhos literários, quanto em suas vidas pessoais. Há apenas um punhado de escritores neste país que não tem empregos paralelos ao trabalho literário. Conheço dois ou três.

Concluindo:

O livro que chega na estante da livraria não é o produto da vida dedicada à escrita, mas, na maioria dos casos, o subproduto da vida dedicada à escrita. E essa vida, muitas vezes, é menos sobre escrever e mais sobre tentar manter a qualidade de vida da sua família.

Muitos empregos são difíceis, e muitas pessoas não ganham o salário que merecem. mas, na vida de escritor, pode acontecer de você trabalhar por anos em um projeto em que acredita, e ninguém publicar seu livro ou comprar seu roteiro, e você não receber um centavo. Então você dá aulas. Você trabalha como editor. Você escreve para revistas. Você viaja. Você dá palestras. Você passa semanas por ano longe da família. Você se preocupa com o seguro, com sua hipoteca e com as mensalidades das escolas de seus filhos.

E quando você coloca a cabeça no travesseiro, sua mente viaja para aquele lugar especial onde seu livro repousa brilhante em sua imaginação, e você adormece esperando e rezando para que seja o livro que finalmente vai recompensar o esforço da vida que escolheu.

Você pensa em sentar na mesa onde está escrevendo seu livro, olhando pela janela. Sua vizinha passa com o cachorro, e você espera que um dia ela esteja 100% correta em pensar: um escritor mora ali!

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Um Gato Que Se Chamava Rex



O melhor que pude com o que tinha. Esse é meu mantra e foi assim com o processo de criação de Um Gato Que Se Chamava Rex. Meu livro mais recente publicado pela Editora Moinhos. O curioso é que nunca pensei em escrever para o público infantil. Foi uma ideia inusitada, que surgiu no final de 2015, e apostei nela. O texto foi amadurecendo e ganhando pequenas alterações, porém, a essência foi mantida. Contar as aventuras de um gato que acredita ser um cachorro.

O resultado ficou muito acima do esperado Uma edição caprichada, papel de qualidade e belas ilustrações. O livro já está a venda no site da Moinhos.

Também tenho uns exemplares comigo e envio para os interessados via Correios. Nessa primeira leva, tem desconto.

Agora, com o trabalho concluído, quero muito bater perna por aí. Levar o Rex para escolas, ONGs, etc. Aos leitores, espero que gostem da história, que dedico a Núbia, minha mãe, e ao Murilo, meu filho.

SOBRE O LIVRO

Pode alguém sentir que nasceu dentro de um corpo errado?”. É o que pergunta e instiga o narrador de Um gato que se chamava Rex, a mais recente publicação da editora Moinhos. O livro infantil é de autoria de Lucas Barroso (Virose, 2013, e Um Silêncio Avassalador, 2016) e tem ilustrações são de Humberto Nunes.

A história conta as aventuras e desventuras de um gato que acredita ser cachorro e, por esse motivo, recebe o nome de Rex. Um livro que fala do respeito as diferenças, além de tratar do valor da amizade.

“As dificuldades de convívio mais fraterno e humano, nestes tempos em que o preconceito anda solto, tem-se aí uma oportunidade de, numa história infantil, partir para a reflexão sobre a aceitação do outro, respeitando suas singularidades”, diz a jornalista, escritora e professora Luiza Carravetta, que assina a contracapa da edição.

Um gato que se chamava Rex é o primeiro título infantil de Lucas Barroso. Segundo ele, a criação da obra surgiu a partir de outra ideia. “Quando era criança, me recordo de ouvir aqueles vinis coloridos, que contavam histórias infantis clássicas. Tinham muitas fábulas tradicionais. Acho que meu livro remete um pouco a essa memória afetiva. Mas o curioso é que a ideia inicial era um conto adulto, um diálogo de um gato com seu dono. Enquanto fazia o rascunho, surgiu essa fagulha e apareceu o Rex. O bichinho tomou conta e me levou para essa história que esta aí".

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Borges e o Futebol


Em época de Copa do Mundo sempre surge aquela pessoa que odeia e/ou menospreza o futebol. Nesse sentido, é interessante lembrar a figura de Borges. O canônico escritor argentino não tinha nenhum apreço pelo esporte bretão. Simplesmente, o desprezava como qualquer outra coisa que não correr atrás de uma bola em busca de um gol. Dele, há um sem número de frases anti-futebol, como as conhecidas:

"O futebol é popular porque a estupidez é popular".

"O futebol desperta as piores paixões".

“Onze jogadores contra outros onze correndo atrás de uma bola não são especialmente bonitos".

"O homem deixou de jogar xadrez e passou a jogar futebol. É um símbolo da degradação social". 

Segundo consta em biografias, sua preferência esportiva eram as rinhas de galos. O desdém ao futebol era tamanho que o autor de Ficções chegou realizar uma palestra no mesmo dia e horário da estreia da Argentina em 1978, ano que o país sediou a Copa. Enquanto a albiceleste enfrentava a Hungria (o placar acabou em 2x1 para os donos da casa), Borges dava uma palestra em Belgrano.

O evento dele não ficou para trás. O auditório estava lotado. Talvez, porque o assunto era um tanto peculiar: imortalidade.

Além disso, há um outro registro de Borges criticando o esporte mais popular do mundo. Em um conto, intitulado Esse Est Percipi (Ser É Ser Percebido, em latim), publicado em Crónicas de Bustos Domecq, o escritor descreveu assim o futebol.

Não existem escores nem jogadores nem jogos. Os estádios são prédios em estado de demolição, caindo aos pedaços. Hoje em dia tudo passa pela TV e pelo rádio. A falsa excitação dos locutores. Ora, nunca teve a desconfiança de que tudo é uma maracutaia? O último jogo que foi jogado na realidade nesta capital foi no dia 24 de junho de 1937. Desde aquele preciso momento, o futebol, da mesma forma que um amplo leque de esportes, é um gênero dramático, a cargo de um único homem em uma cabine ou de atores com camisetas perante o cinegrafista.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Três Barras


Um conhecido me contou com uma certa naturalidade que seu filho não foi aprovado em um concurso público porque desistiu na etapa do teste físico. Acontece.

O tal teste era composto por fazer três barras.

"Mas eram três séries de quanto?", perguntei.

"Não eram séries. Eram três barras", ele confirmou.

Ou seja, o rapaz só precisava deixar o corpo descer e erguê-lo com os próprios braços três vezes.

Nessa madrugada, embalei meu guri, o intrépido Murilo, que tem dois meses e 5kg, por três horas, até o sem vergonha dormir. Caminhei. Cantei. Me irritei. Busquei o número da adoção no Google. Me acalmei. E dormi lindamente com o pingo de gente.

Tudo para que ele fique numa boa e toque sua vidinha sem sobressaltos. E, pelo amor de Deus, não se mixe para três barras.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Descendo a Rua da Ladeira


Uma rápida pesquisa me indicou o caminho. Rua da Ladeira. Bati o ponto. Subi a Espírito Santo a pé. De sapatos é uma tarefa ainda mais árdua. Na Praça da Matriz respirei um pouco. Do alto, tudo parece mais bonito, mesmo não sendo. Mesmo com um forte cheiro de mijo ao lado da Catedral, esquina com a Duque de Caxias. 

Enquanto tomava um ar, um flanelinha me confundiu com um motorista. "Ficou bem guardado, patrão!". Desfiz o mal entendido. Cruzei a praça. Acessei a Rua da Ladeira com uma certa esperança. Um homem anão e sem braços se atravessou na calçada. Pediu umas moedas. Respondi mecanicamente que não tinha. O que era mentira, pois estava ali exatamente porque havia dinheiro em meu bolso. 

A bendita perdição dos sebos da Rua da Ladeira. Ia em busca de João Antônio. Casa de Loucos. 10 reais. Malhação do Judas Carioca. 10 reais. Ô, Copacabana! 12 reais. Malagueta, Perus e Bacanaço. 5 reais. Leão de Chácara. 13 reais. Relíquias. Pechinchas. Achados. Somados dão o preço de um bom buffet, quiça com um chopp com dois dedos de colarinho tirado na hora. 

Como pode? Um dos maiores escritores brasileiros. Alguém que descreveu e transcreveu nossa alma sem subterfúgios, sem tiques, exatamente como somos. Alguém que morreu só. E somente depois de 15 dias deram falta de seu corpo, já apodrecendo, em um apartamento. Então, sua obra vale um almoço. Não paga sequer um sushi em um shopping center. Não paga uma fútil iguaria gourmetizada do momento. 

Onde foi que a Literatura errou para valer tão pouco? Tomo o caminho de volta. O anão sem braços segue no mesmo lugar. Agora, encostado em uma mureta, ao lado do sebo Beco dos Livros. Dessa vez, não pede. Finge que não me vê. Eu também não teria nada. 

Em mãos, só uma sacola cheia de livros. Repleta de histórias de pobres homens e pobres cidades, que João Antônio escreveu como ninguém. 

segunda-feira, 11 de junho de 2018

O Futebol Sempre Nos Explica


Era final da década de 1990, início dos anos 2000. Me lembro de debater com amigos e colegas de universidade a postura apática da população brasileira em relação à política nacional de então. Depois da Era Collor, não tivemos movimentos significativos de povo ocupando as ruas Brasil afora. Uma coisa aqui, outra ali, porém nada de massa, de milhões bradando palavras de ordem.

O futebol, principalmente devido às seleções campeãs mundiais de 1994 e 2002, vivia seu melhor momento. Jogadores brasileiros fazendo sucesso no exterior. Uma sequência de craques sendo eleitos os melhores do mundo pela Fifa, como Romário, Rivaldo e Ronaldinho. Lembro muito bem. Pessoas andavam com bandeiras verde-amarelas nos carros. Pintavam suas casas. Usavam camisetas dos jogadores. E nós, os jovens politizados, dizíamos assim: “Ah, se o povo fosse tão apaixonado por política como é por futebol, o país certamente não estaria desse jeito”.

Porque para nós, é importante deixar bem claro, o país não ia bem. A gente vivia no subúrbio. Não tínhamos grana, nem perspectivas de empregos decentes (entenda-se: melhores que de nossos pais). Nós havíamos estudado em instituições públicas por toda a infância e adolescência, e na hora h, de acessar uma universidade, não tinha como passar no tal vestibular da Federal. O jeito era bancar uma particular, sabe-se lá como. Essa questão era (e ainda é, pois há um déficit muito grande nessa área) uma tremenda injustiça. “E cadê o povo para protestar?”, a gente dizia. Não havia ninguém.

Hoje, contudo, percebemos uma população realmente apaixonada por política. Tanto quanto as torcidas organizadas dos clubes brasileiros. Assistimos ou participamos de diversos grupos e protestos de vulto. Ruas bloqueadas e passeatas tem quase todo dia nas principais capitais. Sem contar nos milhões de 2013 e 2016. Os reflexos disso foram a derrubada de uma presidente, políticos presos, políticos presos e soltos logo depois, políticos corruptos ainda não julgados, políticos corruptos julgados e condenados, políticos com malas de dinheiro em apartamento, políticos, políticos... Uma forte indignação com os vícios de nossa classe política tomou corpo.

O Brasil, diferentemente do que pensavam aqueles moleques em 90/00, não melhorou com essa paixão pela política. Para muitos, tornou-se mais chato, mais intolerante, menos diverso. O horizonte é desanimador. Não há esperança e perspectiva de futuro melhor. Há, como sempre houve, um forte aparato de marketing governamental para criar um discurso positivo, com um olhar generoso dos intelectuais orgânicos de ocasião. Todavia, essa mensagem de fé esbarra inevitavelmente nos R$ 13 milhões de desempregados e nos R$ 52 milhões vivendo abaixo da linha da pobreza, ambos dados atuais do IBGE.

Existe uma diferença significativa nos dois períodos, que é a disseminação da internet. O surgimento das redes sociais fez proliferar uma enxurrada de discursos e narrativas para o que nos cerca. Algo que é salutar, a diversidade, pois oferece um vasto conteúdo para todos os gostos. Entretanto, esse livre acesso a informação acabou gerando uma dicotomia. Uma guerra de versões, que se demonstra insolúvel. Claro, você sabe do que estou falando: direita e esquerda. Até o momento, não surgiu ninguém, nenhuma figura pública ou política, realmente interessada em diluir esse maniqueísmo.

Nossa vida se tornou essa insanidade. Não há um jantar de família, um encontro de amigos, uma reunião de trabalho, uma sessão no cinema ou uma publicação qualquer no Facebook, Twitter, Instagram, em blogs ou portais de notícias que não descambe para o famigerado combate entre os dois lados. Um escancarado Fla-Flu ideológico.

E assim retornamos ao futebol. Ele sempre nos ajuda a entender o momento que vivemos.

Em entrevista ao programa Comtexto, do canal Arte1, o jornalista Juca Kfouri relembrou que em 1970, quando estava em vigência a ditadura militar brasileira, contra a qual ele chegou a atuar, alguns companheiros seus de guerrilha torceram contra a seleção de Tostão, Pelé, Rivelino e Jairzinho durante a Copa do Mundo do México. Para Kfouri, além de ser uma heresia contra a alta qualidade do escrete canarinho, essa era uma atitude de total incoerência, pois o futebol sempre explicou o país. “Quem não dá ao futebol a devida importância que ele tem fica sem entender o Brasil. Ser contra o futebol é ser contra aquilo que se tem de mais íntimo. É um fator de mobilização social, não de alienação”, disse.

De fato, o futebol é um bom parâmetro social. Tem o já citado e atualíssimo Fla-Flu, que, aplicado em um contexto sociocultural, é usado para representar um antagonismo obrigatório e irracional entre duas paixões. Assim como há o Complexo de Vira-Latas, termo cunhado por Nelson Rodrigues em um artigo no qual ele dizia que os brasileiros se sentiam inferiores aos estrangeiros em razão da falta de títulos mundiais. A máxima rodrigueana explicaria o recorrente pessimismo em relação a qualquer medida que, supostamente, não esteja em sintonia com o que há de melhor em outros países.

Seguindo nessa linha, podemos citar a derrota humilhante de 7x1 para a Alemanha, na semifinal da Copa do Mundo realizada aqui, em 2014. Esse momento, que, sem dúvida, se tornou uma marca, uma ferida em nossa moral esportiva, também serviu para compreender a nossa distância real para os países de primeiro mundo (ou seria mais um complexo de vira-lata?). O Brasil, diferente do que pensávamos, não decolou conforme a propaganda prometeu. Não éramos uma potência em desenvolvimento. Foi preciso um grande baque, para que a ficha caísse. Estamos falando de futebol, certo? Ou de tudo que culminou no Impeachment e na derrocada econômica?

Aonde eu quero chegar com isso? Qual é minha tese, afinal? O trunfo do coletivo certamente é o principal caminho. Mas não há uma única resposta.

Albert Camus, que antes de ser Nobel de Literatura foi goleiro do Racing, da cidade de Argel, talhou uma bela frase sobre o esporte bretão. “Tudo o que eu conheço da moral dos homens eu devo ao futebol”. É, talvez estejamos falando disso o tempo todo.

...

P.S. Para quem gosta do assunto, sugiro assistir ao documentário Os Rebeldes do Futebol, de 2012, do cineasta francês Gilles Rof. O filme é protagonizado por Eric Cantona, que apresenta cinco atletas célebres por misturar a paixão pelo futebol com as causas sociais. Um deles é o brasileiro Sócrates.

Texto originalmente publicado no site Mínimo Múltiplo

sexta-feira, 8 de junho de 2018

O Que Vim Fazer em Saigon?, Por Anthony Bourdain

Anthony Bourdain se suicidou em um quarto de hotel na França 

Trecho da crônica A Ferida, publicada no livro Em busca do prato perfeito, um cozinheiro em viagem, de 2003. 

"Já estava acostumado aos amputados, às vitimas do agente laranja, aos famintos, pobres, garotos de rua de seis anos de idade que você encontra às três da madrugada gritando "Feliz ano novo! Olá! Bye-Bye!" em inglês, e depois aponta para suas bocas e faz "bum bum?". Estou ficando quase indiferente aos garotos famintos, sem pernas, sem braços, cobertos de cicatrizes, desesperançados, dormindo no chão, em triciclos, na beirada do rio. Mas não estava preparado para o homem sem camisa, com um corte de cabelo a la forma de pudim, que me detém na saída do mercado, estendendo a mão. No passado ele sofreu queimaduras e tornou-se uma figura humana quase irreconhecível, a pele transformada numa imensa cicatriz sob a coroa de cabelos pretos. Da cintura para cima (e sabe Deus até onde), a pele é uma cicatriz só; ele não tem lábios, nem nariz, nem sobrancelha. Suas orelhas são como betume, como se tivesse mergulhado e moldado num alto-forno, sendo retirado pouco antes de derreter por completo. Mexe seus dentes como uma abóbora de Halloween, mas não emite um único som através do que foi um dia, uma boca. Sinto um murro no estômago. Minha animação exuberante dos dias e horas anteriores desmorona. Fico paralisado, piscando e pensando na palavra napalm, que oprime cada batida do meu coração. De repente nada mais é divertido. Sinto vergonha. Como pude vir até esta cidade, até este país por razões tão fúteis, cheio de entusiasmo por algo tão...sem sentido, como sabores, texturas, culinária? A famíla daquele homem deve ter sido pulverizada, ele mesmo transformado num boneco desgraçado, como um modelo de cera de madame Tussaud, a pele escorrendo como vela pingando. O que estou fazendo aqui? Escrevendo um livro de merda? Sobre comida? Fazendo um programinha leve e inútil de tevê, um showzinho de bosta? A ficha caiu de uma vez e fiquei me desprezando, odiando o que faço e o fato de estar ali. Imobilizado, piscando nervosamente e suando frio, sinto que todo mundo na rua está me observando, que irradio culpa e desconforto, que qualquer passante vai associar os ferimentos daquele homem a mim e ao meu país. Dou uma espiada nos outros turistas ocidentais que vagueiam por ali com suas bermudas da Banana Republic e suas camisas pólo da Land´s End, suas confortáveis sandálias Weejun e Bierkenstock, e sinto um desejo irracional de assassiná-los. Parecem malignos, comedores de carniça. O Zippo com a inscrição pesa no meu bolso, deixou de ser engraçado, virou uma coisa tão pouco divertida quanto a cabeça encolhida de um amigo morto. Tudo o que comer terá gosto de cinzas daqui pra frente. Fodam-se os livros. Foda-se a televisão. Nem mesmo consigo dar algum dinheiro ao coitado. Tenho as mãos trêmulas, estou inutilizado, tomado pela paranoia, Volto correndo ao quarto refrigerado do New World Hotel, me enrosco na cama ainda desfeita, fico olhando para o teto com os olhos cheios de lágrimas, incapaz de digerir ou entender o que presenciei e impotente para fazer qualquer coisa a respeito. Não saio nem como nada pelas 24 horas seguintes. A equipe de tevê acha que estou tendo um colapso nervoso.
Saigon...Ainda em Saigon.

O que vim fazer no Vietnã?"