quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Tive Razão


Hoje, as crianças sabem quase tudo. O que elas não sabem, procuram na internet. Antes, quando eu era piá, não sabia coisa nenhuma. Tempos sem internet. Um exemplo. Quando eu tinha 12 anos, foi lançado o filme The Wonders - O Sonho Não Acabou, um grande sucesso na época. A música tema,That Thing You Do!, foi primeiro lugar nas paradas mundo afora.

Meu amigo Pedro, que também era criança em 1996, jurava que a história do filme, de um grupo musical de um sucesso só, era “baseada em fatos reais”. Ou seja, para ele a banda The Wonders realmente tinha existido. Já eu achava que não. Nunca tinha ouvido falar nela. Não havia nada parecido nas fitas cassete lá de casa.

E o que as crianças faziam antes da internet existir? Pesquisavam em dicionários, enciclopédias ou saiam por aí perguntando. Questionavam os pais, irmãos mais velhos, tios, avós, vizinhos... Enfim, a gente enchia o saco dos adultos, porque eles tinham a resposta certa para tudo. Quando meus pais não sabiam de algo, eles me diziam assim: “Pergunta pra tua professora, então”.

Até minha professora foi sabatinada sobre a existência ou não da tal The Wonders. Mas ela não via muito televisão, nem gostava de cinema. O resultado da pesquisa é que metade das pessoas consultadas por mim e Pedro dizia que a banda existiu. A outra, que não. Fomos atrás e nada de provas cabais, nenhum documento que atestasse e definisse quem estava certo. Chegamos a cogitar ligar para os Estados Unidos. Mas quanto em fichinhas telefônicas daria? Abortamos a missão, pois antigamente era assim. Nós tínhamos que conviver com discussões sem vencedores. Algo impensável para tempos de Google.

Recordei toda essa história porque, dia desses, estava ouvindo a Continental FM no carro, enquanto ia do trabalho para casa, e tocou That Thing You Do!. Era o momento, 23 anos depois, de pôr fim à dúvida. Joguei no Google e encontrei a resposta.

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Crônica publicada no Mínimo Multiplo

terça-feira, 27 de agosto de 2019

As Armadilhas de Pâmela


O brasileiro é impressionante. Num espaço de 3x3 o pessoal faz uma tabacaria, lan house e salão de beleza. "Corte + barba = 20 reais". Entrei e, como sempre, já puxei conversa. Falei que tenho máquina de cabelo em casa, mas ando sem tempo pra cortar.

- Tu sabia que sou um dos únicos afiadores de máquina de Porto Alegre? - falou o barbeiro.
- É? Eu nem sabia que elas tinham fio.
- Pois é. Elas tem sim.
- Tu vê! Vivendo e aprendendo.
- Essa aqui ó, eu mesmo afiei.

E acabou o assunto. O barbeiro se voltou para a moça do caixa.

- Como eu tava te falando Pâmela, isso é psicanálise.
- Aham.
- Semeia minhas palavras que tu vai entender.
- Tá bem.
- Na real, teu problema são as ratoeiras que tu coloca no caminho.
- Como assim?
- Olha pra mim, Pâmela!
- Tô olhando.
- Tu vai acabar virando uma presa das tuas próprias armadilhas.

O homem voltou ao trabalho, concentrado. Só se ouvia ali, naquele espaço apertado, o motorzinho da máquina afiada. Nada mais. Pelo espelho, vi o olhar da tal Pâmela se perder pela avenida Borges de Medeiros.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Entrevista para o Projeto Como Eu Escrevo




"Como eu escrevo" é um projeto onde vários autores comentam como é sua rotina de criação.

Depois de três livros publicados (um quarto em edição) já dá pra ter algumas manias e falar um pouco sobre como funcionam as coisas pra mim.

Então, taí:

https://comoeuescrevo.com/lucas-barroso/

segunda-feira, 29 de julho de 2019

O Guri e a Mendiga


Fim de semana é de lei. Pego meu guri, o Murilo, coloco na motoca e vamos circular pelo bairro. Pegar Sol, ver coisas diferentes, bichos, árvores, gente. Quem cruza nossa caminhada dá um sorriso, puxa uma conversa. O gurizinho geralmente não dá atenção aos desconhecidos simpáticos. Prefere interagir com cachorros, folhas de árvores ou sacos plásticos.

Dessa vez, estávamos na avenida Protásio Alves e uma mendiga escalavrada, fedendo, fumando bituca nos parou. Por mera educação, parei também.

- Que lindinho! – ela disse.

Sorri sem jeito. A mulher não teve coragem de se aproximar ou tocá-lo. Murilo abanou, bateu palmas e falou algo em sua língua de pequeno selvagem. Tudo ao mesmo tempo.

A mendiga riu com sua boca em frangalhos e seguiu, caminhando de ré, olhando o guri e abanando de volta. Continuamos pela avenida e Murilo foi mais uns metros da mesma forma: se despedindo da mulher.

Eu pensei, "tadinho, ainda não sabe nada da vida". Mas, ao longo do caminho, tive a impressão que nós, os adultos, que sabemos cada vez menos.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Os Casais no Restaurante


Eu vejo alguns filmes e sinto saudade de quando eu era garçom. Os personagens ficam com suas DRs intermináveis, fazendo caretas tristes e repetindo os mesmos clichês - "você não me quer mais, é isso?" ou "a cada dia que passa, te reconheço menos" ou "a gente perdeu a intimidade" ou "não faz mais sentido seguirmos assim". Blá blá blá blá... Como telespectador simplesmente não posso fazer nada que mude o rumo da história, tenho que esperar a próxima cena ou dar stop e desistir.

Quando eu era garçom era diferente. O princípio da DR dos clientes era sempre extasiante pra mim, porque havia um gatilho. Era geralmente ciúme ou a fatídica conversa de fim da relação. Só que, como disse, a coisa ficava entediante. Então, eu me aproximava e intervinha.

- Como estão as coisas aqui, pessoal? Vai mais um chopp? Querem uma sugestão de sobremesa?

Era um baque. Eles perdiam o fio da meada. Existia um mundo ao redor deles. Alguns, pediam qualquer coisa para eu sair dali. Outros, caiam em si, respiravam fundo e pegavam o cardápio. Acabei com muitas DRs só na base do atendimento circunstancial.

Claro, tinha o outro lado da moeda. Os casais recentes com o fogo em brasa. Podia-se erguer todas as cadeiras sobre as mesas e eles seguiam lá, com seus risinhos, beijinhos melosos e picardias. Tudo isso às 1h. E garçom não pode ir embora enquanto tiver cliente no salão. Obviamente, eu ia lá e interrompia também.

- Querem mais alguma coisa aqui, gente? Um chopp? Mais uma sobremesa, quem sabe? Ah, só pra avisar que desligamos a chapa. Não temos mais como preparar nada.

- Tudo bem, campeão! Nem te estressa. Traz mais um chopp pra nós.

Nesse caso, me atravessar na conversa alheia era pior dos mundos, porque eles seguiam no restaurante. E isso significava que eu só ia pra casa madrugada adentro, esperando mais de uma hora na parada a porcaria do ônibus Corujão.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Ferrugem



Depois de três livros, não tenho mais aquela ânsia de concluir algo. Aquela energia em excesso ficou para trás. Ainda gosto da inspiração e não desperdiço lampejos. Sigo registrando tudo que me é novo, como um turista japonês com sua insuportável câmera fotográfica.

Mas esse click parece pouco e, hoje, me dou ao luxo de burilar cada palavra, de desgastar cada palavra. Todo dia uma vírgula, um versinho.

Eu coloco no papel. Eu espero. Faço um mate. O texto fica lá, exposto a maresia. A ferrugem tomando conta. Até que o conjunto todo, o tal livro, começa a ter sentido.