quarta-feira, 21 de março de 2018

Amor


- Ai, ai! 
- O que houve?
- Tá me machucando.
- Machucando ruim ou machucando bom?
- Se você for mais devagar vai ser machucando bom.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Lembrando Charlie Hebdo

Fazer humor sem ofender ninguém. Ouvi essa.

Claro, quem disse teve a intenção de salientar que não quer rir das ditas minorias, porque não quer perpetuar preconceitos. Ou seja, era um humorista com boas intenções.

A pergunta é: resta o quê? Tirar sarro do que julgam status quo. Dar risada do esteticamente brega, do antiquado.  Alguns clichês recorrentes que vejo no chamado humor inteligente são a graça com os evangélicos, a igreja católica, a classe média, o cidadão de bem, a tv aberta...

Não existe humor vegano. Alguém vai se ofender com o riso dos outros.

sexta-feira, 9 de março de 2018

A Bigorna

A primeira coisa que notou de diferente foi que havia uma bigorna sobre uma mesa, posicionada em um canto, na sala de estar. Gostaria de saber o que seu pai malhava ali. Forjava facas? Ele adorava facas. Se fazia realmente isso, como esquentava os metais? No fogão ou no forno? De qualquer forma, o calor não seria suficiente. Qualquer ação que fosse feita naquela bigorna geraria um barulho insuportável aos vizinhos. Era improvável que fizesse algo. Ao mesmo tempo, não lhe parecia lógico e prático manter uma bigorna naquele ambiente. Poderia ser mais uma memorabilia. Quem sabe era de seu avô, que foi caminhoneiro? Caminhoneiros tem essa mania, de recolher tudo que encontram. Era uma hipótese, porque seu pai era muito apegado ao passado. Essa nostalgia resultava em longos silêncios de reflexão, assim como desencadeava constantes repetições de lembranças de atitudes heroicas e honrosas de sua infância e juventude. Entretanto, não era de se duvidar que o velho usasse a bigorna na sala. 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Professor Augusto

O nome dele era Augusto. Uma magnífica pessoa. Era professor no 2º grau. Escola Estadual José Cândido de Godói. Educação Artística ele lecionava.

Ensinava Cinema. Veja só. Apresentava em sala de aula, em fitas VHS e num televisor ínfimo, O Encouraço Potemkin, Gabinete do Doutor Caligari, Chaplin... Dava para todos alunos uma lista de filmes fundamentais para entender a sétima arte.

E quem se importava? Ninguém. Éramos um bando de animaizinhos selvagens. Só queríamos falar "presente" e sair. Ele achava uma graça danada da gente. "Quer jogar bola? Vai jogar bola, então. Tchau!". 

Um dia, diante do baixo quorum, cedeu. "Tá bom! Escolham um filme". A turma se eriçou. "Até que enfim vamos ver algo que preste!".

Eu sei o que vocês fizeram no verão passado.

Lançamento. "O senhor consegue alugar esse? Olha, que recém saiu, hein!". "Eu dou um jeito".

E deu. Colocou a fita. Aula lotada. Concentração total. 45 minutos depois de iniciar o filme, ouvimos um barulho estranho.

Era o professor Augusto. Sentado no fundão. A cabeça pendia pra trás. Dormia.

E roncava. Que figura!

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Imagens Correndo do Lado de Fora

Eu fico pensando. Se eu fosse caminhoneiro, como meu avô, ela seria uma boa companhia na estrada. Porque ela gosta de conversar e sabe o momento de ficar calada e admirar a paisagem. Ou a hora de só ficar refletindo mesmo, passando lixa nas unhas. Ou cantarolando algum refrão de Roberto Carlos.

É engraçado o jeito dela. Por isso, acho que ela ficaria bem na boleia, indo comigo pra qualquer lugar bem longe. Numa cidade dessas onde todos se conhecem e sabem dar informação de como chegar.

É claro que seria bom estar com ela a sós, nas paradas que o cansaço nos obriga a dar. Nisso eu também fico pensando.

Tenho certeza que no caminho inventaríamos tanta coisa... E quando voltassemos pra casa, já teríamos com o que nos ocupar, porque planejamos tudo na estrada.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Os Catatais


A garota no trem. A garota na neve. A garota que sabia demais. A garota Ferrante.

E a menina que roubava livros.

O catatau norueguês. O catatau japonês. E o catatau da garota americana.

100 milhões de páginas.

1o lugar no New York Times. "Surpreendente!"

Deu fila na Cultura e na Saraiva.

É megastore.

Mas tem o catatau. Qual?

Ruim de carregar.

Uma senhora pediu ajuda pra levar até o táxi. Vendedor ganhou gorjeta.

Nas horas vagas ele é escritor.

"300 livros distribuídos tá bom. Se tu se esforçasse mais... Tu sabe".

Pai comentou com os vizinhos.

Quase mil exemplares já dá pra empinar o nariz. Dar entrevista na TV e ganhar um carteira de intelectual da associação dos escritores da Zona Norte.

Daí, é coluna de jornal. Opinião embasada. Polêmica.

E tomar o primeiro avião.

Com destino a: felicidade.

A felicidade.

Pra mim.

É você.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Uma Breve Teoria Sobre As Oficinas De Escrita Criativa


Vamos imaginar uma situação excêntrica e, sob todos os aspectos, indesejável: você se inscreve numa Oficina de Escrita Criativa e, no primeiro dia de aula, a professora — ela está quase nos 50, mas ainda se veste como uma adolescente — entra na classe e começa a falar sobre Roland Barthes ou a respeito de algum estruturalista russo. Você, aluno esforçado, vai tomando notas, sem entender direito o que está acontecendo, pois a professora é famosa, tem dezenas de livros publicados. Além disso, sua melhor amiga — por quem você tem certa caída — está sentada ao seu lado. Ela estuda Letras e, a cada afirmação da professora, sorri e move a cabeça de maneira afirmativa.

O tempo passa. A primeira hora parece interminável — você anotou tudo mas não entendeu nada. Quando você está mais perdido que cachorro em dia de mudança, a professora diz: “Bem… então, agora que vimos as 31 funções de Vladimir Propp, vocês podem escolher algumas e usá-las para escrever um texto breve, um conto que vamos discutir na próxima aula. Vamos fazer um intervalo e, depois do café, voltamos para ver a questão do ‘actante’ em Greimas”.

Meio perturbado, você levanta da carteira. Sua amiga já correu para o lado da professora. E assim que você se aproxima, nota que as duas conversam alegremente numa língua que só às vezes parece português. O mal-estar acende uma luz vermelha na sua cabeça — ou dispara uma sirene. Por um simples motivo: você sabe, ainda que de maneira intuitiva, que escritores não precisam de teorias.

Não me consta que, antes de escrever seus contos, Tchekhov tenha estudado teoria literária. Ou que Machado de Assis tenha, antes de começar a escrever, destrinçado a "Poética" de Aristóteles. Teorias literárias, sistemas e classificações servem, em primeiro lugar, a teóricos, acadêmicos e críticos.

É verdade que alguns escritores, depois de acumular experiência, escreveram ensaios teóricos — ou demonstraram, em sua correspondência, em seus diários, idéias precisas sobre o que pretendiam expressar ou atingir com seus textos. Basta pensar, por exemplo, nas cartas de Flaubert e Tchekhov — ou nos ensaios de Edgar Allan Poe e Julio Cortázar. Mas criar obedecendo antecipadamente a uma teoria jamais foi a preocupação primeira desses autores.

Os vanguardistas de certo modo fizeram isso: inventaram modelos e depois, acorrentados a seus manifestos, tiveram de seguir produzindo de acordo com o esquema. Submeteram seu impulso criador a uma coerência infantil e irresponsável. Poucos tiveram coragem de buscar novos caminhos.

Mas os grandes escritores obedecem, em primeiro lugar, a si próprios. E se buscam um modelo — e é bom que o façam —, procuram-no entre os seus iguais, quase sempre aqueles que consideram perfeitos.

Nada impede que o escritor estude, conheça teorias — e seja, inclusive, professor de teoria literária. O problema é colocar a carroça na frente dos bois. O erro está em apresentar aos jovens uma teoria, um modelo, e dizer que seguir esse sistema fará deles escritores. É o mesmo que enfiá-los numa camisa de força. Ou no estreito corredor de um matadouro.

A escrita deve ser livre. Livre, inclusive, para ir contra a estética do seu tempo. O escritor contemporâneo deve se sentir livre para escrever como Madame de La Fayette ou — vamos ainda mais longe — como Murasaki Shikibu. Deve ser livre para se inspirar nessas escritoras e, gradativamente, formar seu próprio estilo.

Ao escrever, por favor, esqueça as teorias estéticas. O escritor deve ser livre para bocejar diante de Barthes, para cair de sono depois de uma página de Propp, para jogar no lixo os tratados de semiótica.

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Texto de Rodrigo Gurgel (crítico literário da Folha de SP e Rascunho), publicado originalmente em seu perfil do Facebook.