domingo, 27 de junho de 2021

Três poemas na revista Sepé

 


Estou com três poemas na edição mais recente da Sepé, editada pelo escritor Lucio Carvalho. Na imagem coube um só, mas no link tem mais dois.

Vale folhear digitalmente a revista e ler os demais autores. Conteúdo de primeira!

quarta-feira, 16 de junho de 2021

O Fator Humano

 


Você acha que não tem problema o presidente da república não ter implementado um plano nacional de prevenção à Covid-19? Ok. Você não vê nada demais em um presidente que troca quatro ministros da Saúde durante uma pandemia? Ok. Você não viu erro algum do presidente nas negociações e aquisições de vacinas para a população brasileira? Ok. Você não entende como um equívoco do presidente, no fim das contas um servidor público, fazer propaganda de remédio? Ok. Falando em ok, uma das explicações etimológicas do termo vêm do inglês 0 killed, que em português quer dizer zero morte. Em relação a pandemia, esse número é utopia. Ainda mais com uma gestão como a que estamos presenciando no Palácio do Planalto. Contudo, é possível que haja justificativas e argumentos plausíveis para defender os pontos citados acima. Não consigo imaginar nenhum. Mas é possível que haja, vá saber... Só não é ok assistir com indiferença esse palanque eleitoreiro que o presidente promove rotineiramente. Aglomeração pela aglomeração, como as chamadas “motociatas”. Isso é inadmissível, mesquinho, desumano. Uma postura gananciosa que coloca muitas vidas em risco. Sim, ainda há uma pandemia nas ruas! Estamos próximos das 500 mil mortes e longe de vacinar 70% da população com a segunda dose – índice considerado seguro para voltar à normalidade.

E se a morte que não comove mais, o que comove? Outro fator desumano do presidente é sua própria imagem nesses eventos – e, portanto, a mensagem que ele transmite. Vemos sempre a figura de alguém orgulhoso em não usar máscara. Logo quem deveria dar o exemplo.

O resultado é trágico. Um total desrespeito às normas e legislações sanitárias brasileiras e mundiais. Imagine se um cidadão ou empresário fizesse um evento com aglomeração e sem uso de máscara, exatamente como o presidente faz com frequência. Seria criminalizado por essa atitude, certamente.

O fato é que assistimos um líder que se mostra indiferente à realidade. A dor de milhares de pessoas que perderam parentes e amigos para a Covid-19 não diminui o afã do presidente em se perpetuar no poder. Os constantes palanques se justificam, porque representam uma pretensa demonstração de apoio para um pleito que se avizinha. Tudo é 2022. Uma campanha política escancarada. E vinda de um presidente que se elegeu com a bandeira de não ser político, de ser contrário a politicagem.

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Texto publicado originalmente no Jornal do Comércio, dia 14 de junho.

domingo, 6 de junho de 2021

Angústia - Conto de Tchekhov

Crepúsculo vespertino. Uma neve úmida, em grandes flocos, remoinha preguiçosa junto aos lampiões recém-acesos, cobrindo com uma camada fina e macia os telhados das casas, os dorsos dos cavalos, os ombros das pessoas, os chapéus. O cocheiro Yona Potapov está completamente branco, como um fantasma. Encolhido o mais que pode se encolher um corpo vivo, está sentado na boléia, sem se mover. Tem-se a impressão de que, mesmo que caísse sobre ele um montão de neve, não consideraria necessário sacudi-la… Seu rocim está igualmente branco e imóvel. Graças a sua imobilidade, à angulosidade das formas e à perpendicularidade de estaca de suas patas, parece mesmo, de perto, um cavalinho de pão-de-ló de um copeque. Seguramente, ele está imerso em meditação.

Não pode deixar de meditar quem foi arrancado do arado, da paisagem cinzenta e familiar, e atirado nessa voragem, repleta de luzes monstruosas, de um barulho incessante e de gente correndo…

Faz muito tempo que Yona e seu rocim não se mexem do lugar. Saíram de casa ainda antes do jantar, e, até agora, não apareceu trabalho. Mas, eis que a treva noturna desce sobre a cidade. A palidez das luzes dos lampiões cede lugar a cores vivas e a confusão das ruas torna-se mais barulhenta.

— Cocheiro, para a Víborgskaia! — ouve Yona. — Cocheiro! Estremece e vê, através das pestanas cobertas de neve, um militar de capote com capuz. — Para a Viborgskaia! — repete o militar. — Está dormindo? Para a Víborgskaia!

Em sinal de consentimento, Yona puxa as rédeas, e a neve cai em camadas de seus ombros e do dorso do cavalo… O militar senta-se no trenó. O cocheiro faz ruído com os lábios, estende o pescoço à feição de cisne, ergue-se um pouco e agita o chicote, mais por hábito que por necessidade. O cavalinho estica também o pescoço, entorta as pernas, que parecem estacas, e desloca-se com indecisão…

— Onde vai, demônio?! — ouve, logo depois, Yona exclamações partidas da massa escura de gente, que se desloca em ambos os sentidos. — Para onde te empurram os diabos? Mantenha-se à direita! — Não sabe dirigir! Olha a direita — zanga-se o militar.

O cocheiro de uma carruagem solta impropérios; um transeunte, que atravessou a rua correndo e chocou-se com o ombro contra a cara do rocim, lança um olhar rancoroso e sacode a neve da manga. Na boléia, Yona parece sentado sobre alfinetes e aponta com os cotovelos para os lados; seus olhos tontos perpassam pelas coisas, como se não compreendesse onde se encontra e o que está fazendo ali.

— Que gente canalha! — graceja o militar. — Eles se esforçam em chocar-se contra você ou cair embaixo do cavalo.

Combinaram isso. Yona volta-se para o passageiro e move os lábios… Sem dúvida, quer dizer algo, mas apenas uns sons vagos lhe saem da garganta.

— O quê? — pergunta o militar.

Yona torce a boca num sorriso, faz um esforço com a garganta e cicia:

— Pois é, meu senhor, assim é… perdi um filho esta semana. — Hum!… De que foi que morreu? Yona volta todo o corpo na direção do passageiro e diz: — Quem é que pode saber! Acho que foi de febre… Passou três dias no hospital e morreu… Deus quis. — Dá a volta, diabo! — ressoa nas trevas uma voz. — Não está mais enxergando, cachorro velho? É com os olhos que tem que olhar! — Anda, anda… — diz o passageiro. — Assim, não chegamos nem amanhã. Mais depressa!

O cocheiro estica novamente o pescoço, ergue-se um pouco e agita o chicote, com uma graciosidade pesada. Depois, torna a olhar algumas vezes para o passageiro, mas este fechou os olhos e parece pouco disposto a ouvir. Depois de deixá-lo na Víborgskaia, pára diante de uma taverna, encurva-se sobre a boléia e fica novamente imóvel… A neve molhada torna a pintá-lo de branco, juntamente com o rocim. Decorre uma hora… outra…

Três jovens passam pela calçada, fazendo muito barulho com as galochas e trocando impropérios: dois deles são altos e magros, o terceiro é pequeno e corcunda.

— Cocheiro, para a Ponte Politzéiski! — grita o corcunda, com voz surda. — Damos vinte copeques… os três! Yona sacode as rédeas e faz ruído com os lábios. Vinte copeques são um preço inadequado, mas, agora, pouco lhe importa o preço… Tanto faz seja um rublo ou cinco copeques, contanto que haja passageiros… Empurrando-se e soltando palavrões, os jovens acercam-se do trenó e sobem para os assentos, os três ao mesmo tempo. Começam a discutir a questão: dois deles irão sentados, e quem vai ficar de pé? Depois de uma longa troca de insultos, manhas e recriminações, chegam à conclusão de que o corcunda é quem deve ficar de pé, por ser o menor.

— Bem, faz o cavalo andar! — grita com voz trêmula o corcunda, ajeitando-se de pé e soprando no pescoço de Yona. — Dá nele! Que chapéu você tem, irmão! Não se encontra um pior em toda Petersburgo… — Hi-i… hi-i… — ri Yona. — Assim é… — Ora, você assim é, bate no cavalo! Vai andar desse jeito o tempo todo? Sim? E se eu te torcer o pescoço? — Estou com a cabeça estalando… — diz um dos moços compridos. — Ontem, em casa dos Dukmassov, eu e Vaska tornamos quatro garrafas de conhaque. Não compreendo para que mentir! — irrita-se o outro moço comprido. — Mente como um animal. — Que Deus me castigue, é verdade… — Tão verdade como um piolho tossindo. — Hi-i! — ri Yona entre dentes. — Que senhores alegres! — Irra, com todos os diabos!… — indigna-se o corcunda. — Você vai andar ou não, velha peste? É assim que se anda? Estala o chicote no cavalo! Eh, diabo! Eh! Dá nele!

Yona sente, atrás de si, o corpo agitado e a voz trêmula do corcunda. Ouve os insultos que lhe são dirigidos, vê gente, e o sentimento de solidão começa, pouco a pouco, a deixar-lhe o peito. O corcunda continua os impropérios e, por fim, engasga com um insulto rebuscado, descomunal, e desanda a tossir. Os moços compridos começam a falar de uma certa Nadiejda Pietrovna. Yona volta a cabeça para olhá-los. Aproveitando uma pausa curta, olha mais uma vez e balbucia:

— Esta semana… assim, perdi meu filho! — Todos vamos morrer. — suspira o corcunda, enxugando os lábios, após o acesso de tosse. — Bem, bate nele, bate nele! Minha gente, decididamente, não posso continuar andando assim! Esta corrida não acaba mais? — Você deve animá-lo um pouco… umas pancadas no pescoço! — Está ouvindo, velha peste? Vou te moer o pescoço de pancada! Não se pode fazer cerimônia com gente como você, senão é melhor andar a pé! Está ouvindo, Zmiéi Gorínitch? Ou você não se importa com o que a gente diz? E Yona ouve, mais que sente, os sons de uma pancada no pescoço. — Hi-i… — ri ele. — Senhores alegres… que Deus lhes dê saúde! — Cocheiro, você é casado? — pergunta um dos compridos.

Eu? Hi-i… que senhores alegres! Agora, só tenho uma mulher, a terra fria… Hi-ho-ho… O túmulo, quer dizer!… Meu filho morreu, e eu continuo vivo… Coisa esquisita, a morte errou de porta… Em vez de vir me buscar, foi procurar o filho… E Yona volta-se, para contar como lhe morreu o filho, mas, nesse momento, o corcunda solta um suspiro de alívio e declara que, graças a Deus, chegaram ao destino. Tendo recebido vinte copeques, Yona fica por muito tempo olhando os pândegos, que vão desaparecendo no escuro saguão. Está novamente só e, de novo, o silêncio desce sobre ele… A angústia que amainara por algum tempo torna a aparecer, inflando-lhe o peito com redobrada força. Os olhos de Yona correm, inquietos e sofredores, pela multidão que se agita de ambos os lados da rua: não haverá, entre esses milhares de pessoas, uma ao menos que possa ouvi-lo? Mas a multidão corre, sem reparar nele, nem na sua angústia… Uma angústia imensa, que não conhece fronteiras. Dá a impressão de que, se o peito de Yona estourasse e dele fluísse para fora aquela angústia, daria para inundar o mundo e, no entanto, não se pode vê-la. Conseguiu caber numa casca tão insignificante, que não se pode percebê-la mesmo de dia, com muita luz… Yona vê o zelador de uma casa, carregando um embrulho, e resolve travar conversa.

— Que horas são, meu caro? — pergunta. — Mais de nove… Por que você parou aqui? Passa!

Yona afasta-se alguns passos, torce o corpo e entrega-se à angústia… Considera já inútìl dirigir-se às pessoas. Mas, decorridos menos de cinco minutos, endireita-se, sacode a cabeça, como se houvesse sentido uma dor aguda e puxa as rédeas… Não pode mais.

“Para casa”, pensa, “para casa”.

E o cavalinho, como se tivesse compreendido seu pensamento, começa a trotar ligeiramente. Uma hora e meia depois, Yona está sentado junto ao fogão grande e sujo. Há gente roncando em cima do fogão, no chão e sobre os bancos. O ar é abafado, sufocante… Yona olha para os que dormem, coça a cabeça e lamenta haver voltado tão cedo para casa… “Não ganhei nem para a aveia”, pensa. “Daí essa angústia. Uma pessoa que conhece o ofício… que está bem alimentada e tem o cavalo bem nutrido também, está sempre calma…” Num dos cantos, levanta-se um jovem cocheiro, funga, sonolento, e arrasta-se para o balde de água.

— Ficou com sede? — pergunta Yona. — Com sede, sim! — Bem… Que lhe faça bom proveito… Pois é, irmão, e eu perdi um filho… Está ouvindo? Foi esta semana, no hospital… Que coisa!

Yona procura ver o efeito que causaram suas palavras, mas não vê nada. O jovem se cobriu até a cabeça e já está dormindo. O velho suspira e se coça… Assim como o jovem quis beber, assim ele quer falar. Vai fazer uma semana que lhe morreu o filho e ele ainda não conversou direito com alguém sobre aquilo… É preciso falar com método, lentamente… É preciso contar como o filho adoeceu, como padeceu, o que disse antes de morrer e como morreu… É preciso descrever o enterro e a ida ao hospital, para buscar a roupa do defunto. Na aldeia, ficou a filha Aníssia… É preciso falar sobre ela também… De quantas coisas mais poderia falar agora? O ouvinte deve soltar exclamações, suspirar, lamentar… E é ainda melhor falar com mulheres. São umas bobas, mas desandam a chorar depois de duas palavras.

“É bom ir ver o cavalo”, pensa Yona. “Sempre há tempo para dormir…”

Veste-se e vai para a cocheira, onde está seu cavalo. Yona pensa sobre a aveia, o feno, o tempo… Estando sozinho, não pode pensar no filho… Pode-se falar sobre ele com alguém, mas pensar nele sozinho, desenhar mentalmente sua imagem, dá um medo insuportável…

Está mastigando? — pergunta Yona ao cavalo, vendo seus olhos brilhantes. — Ora, mastiga, mastiga… Se não ganhamos para a aveia, vamos comer feno… Sim… Já estou velho para trabalhar de cocheiro… O filho é que devia trabalhar, não eu… Era um cocheiro de verdade… Só faltou viver mais…

Yona permanece algum tempo em silêncio e prossegue: — Assim é, irmão, minha egüinha… Não existe mais Kuzmá Iônitch… Foi-se para o outro mundo… Morreu assim, por nada… Agora, vamos dizer, você tem um potrinho, que é teu filho… E, de repente, vamos dizer, esse mesmo potrinho vai para o outro mundo… Dá pena, não é verdade?

O cavalinho vai mastigando, escuta e sopra na mão de seu amo… Yona anima-se e conta-lhe tudo...

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Conto publicado em 1886. A tradução é Boris Schnaidermann. 

terça-feira, 1 de junho de 2021

Olhar Pode


Era meio-dia. O velho pegou as sacolas com as compras e soltou essa pra caixa do mercadinho.

- Então, tá. Vou ver minhas novelas. Sassá Mutema, A Viagem e depois tem um jogo de vôlei feminino. 

- É isso aí, seu Arlindo – respondeu a caixa.

- Como são bonitas aquelas russas! 

- São é? Não se esqueça que o senhor é casado. 

- Sou, mas só vou olhar.


quarta-feira, 26 de maio de 2021

26 de maio

 

Uma noite daquelas. Fria. Internacional consegue a façanha de empatar em casa. Jogo murrinha. Não deu pra ver. Só pagando mais na televisão que já é paga. O velho radinho de guerra. Chega dar angústia na gente. Vai! Vai! E o time não vai... O guri apagou no sofá. Dormiu todo enviesado. Ferveu o dia todo e se entregou vendo desenho. Desliguei a TV. Ajeitei a areia dos gatos. Preenchi o pote de ração. Nem sinal dos bichos. Entocados. Frio. A mulher zanzando. Ajeita uma coisa no roupeiro. Recolhe um brinquedo do chão. Fala sozinha. No céu uma Lua. Dessas que só aparecem de tantos e tantos anos. Se eu vi? Mal vi. Não tava no meu dinheiro. Dei uma espiada e foi só. Humor ruim. Azedo. Nunca mais a tal Lua, dizem. A tal que se foda, vou te dizer. Puxei um João Antônio da estante. Zicartola e que tudo mais vá para o inferno! Assim mesmo. Esse é o título. Cabra que sabe dar nome pra livro! Lá pelas tantas, ele diz. “Essa coisada emotiva braba tem me batido mais aos domingos, se acordo pela manhã e me ponho preguinçando, fazendo hora sei lá pra quê, adiando sem propósito a ida à praia, um aborrecimento sem motivo aparente, quem sabe. Pra depois virar aborrecimento mesmo. Uma perda. Um homem não consegue se perdoar por deixar de ver o vôo das gaivotas. E por aí vai”. Continho de 1986. Tempos idos. Onde um homem tinha seu momento pra preguiçar. Não tinha aparelho apitando. Tela. Rola e rola tela. Letra miúda. Força as vistas. Fotos e mais fotos. E quantas fotos horríveis da tal Lua, meu Deus do céu! Peguei o guri. Acordou. “Coloca o desenho da caveira, papai”. “Xuuuu... Pronto, pronto... Vamos dormir, cara. É de noite”. Ele, então, se aninhou. Eu me acalmei. Coloquei o pequeno na cama. Cobri com uma manta. Coloquei uma segunda pra garantir. E saí pra ver a Lua outra vez.


quarta-feira, 19 de maio de 2021

"A literatura já existe em algum lugar dentro da gente" - Entrevista Para o Site Angústia Criadora


O que é literatura?

Creio que, na visão limitada do escritor, literatura seja escrever, escrever, escrever, escrever. Contudo, passando para o outro lado do balcão e vendo a literatura como leitor, que é melhor jeito de vê-la, é muito mais que a palavra escrita. A literatura, como qualquer expressão artística, não cabe em si, tampouco em definições.

O que é escrever ficção?

É uma maneira de matar o tempo e tentar passar a perna em Deus.

Vocação, talento, carma, destino…..o escritor é um predestinado a carregar adjetivos que tentam justificar o ofício?

Creio que sim, mas não gosto dessas definições, nem acredito nelas. Entretanto, entendo quem vê assim, porque o escritor, de modo geral, tem essa pretensão de registrar o seu tempo ou um naco da história.

Qual o melhor aliado do escritor?

A certeza da morte.

E qual o maior inimigo?

A vida.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Vivemos um período que fazer lista de compras do supermercado é um ato político. Escrever é só mais um desses tantos atos políticos que tem por aí.

Quais os aspectos que você leva em conta no momento que começa a escrever?

Geralmente, parto de uma ideia. Não sou de olhar a folha em branco e pensar que tenho que escrever algo. Isso até já aconteceu, mas é muito raro. Não gosto de forçar nada, não gosto de bater ponto com a Literatura, porque tenho receio que essa forçação de barra transpareça na minha escrita. Então, o principal aspecto é esse: ter uma ideia.

A literatura existe para entendermos o começo, o meio ou fim?

Acredito que uma das razões dela existir é exatamente porque não entendemos o começo, o meio e o fim. E não nos contentamos com isso.

Se escreve para buscar respostas ou para estimular as dúvidas?

Prefiro sempre as dúvidas, gosto de ir na direção daquilo que me assusta.

Criar é tatear no escuro das incertezas?

Por mais que alguns textos saiam num “jorro”, dando a entender que está tudo “certo”, o processo todo sempre é envolto de incertezas, seja de quem escreve ou lê.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

Separei um trecho de Chuva de Prata, de Antônio Fraga.

“Enquanto o verso não vem, namora um pensamento. Ei-lo: chuva de estrelas dá um ótimo título de livro. É. Está resolvido. Escreverá um livro.

E o editor? E a crítica?

Nada de editores. Os editores são uns piratas. Nem um exemplar para a crítica. A crítica é incompetente.

Mastiga as palavras piratas e, incompetente como um homem superior, como um gênio!

Começa a ser consagrado – na imaginação, por enquanto. Solicitam-lhe autógrafos, entrevistas – como os repórteres são cacetes! – e é confidente de ministros. Ministros? Ministros? Ministros nada! Vê lá se vai dar confiança a ministros. O ditador? Sim, confidente do ditador. Ali na batata!

Ensaia sorrisos hipócritas, protetores, compassivos.

– Seu Cândido, vou desligar a luz. Tá na hora.

É dona Maricota, a proprietária da pensão, sempre preocupada com o gasto de energia elétrica.

Coitada, ela não sabe quem hospeda, pensa. Olha mais uma vez o título, despe-se e deita-se, ferrando logo no sono.

E é assim que Cândido Gentil, último do seu nome, “publica” diariamente um livro.”

É possível recriar o silêncio com as palavras? Como?

Creio que aí reside uma das respostas para “por que escrever?”. Como disse, o escritor é um sujeito pretensioso. Certamente, escreve também para isso, para recriar esse silêncio que, no fundo, é o silêncio de Deus. Como recriá-lo? Não faço ideia.

Você acredita que qualquer pessoa pode escrever uma história? Mas, então, o que vai fazer dela escritora, de fato?

Qualquer pessoa pode escrever uma história. Imagino que o meio ou mercado editorial, em eventos literários, dê carteiras assinadas ou crachás de escritores para confirmar quem é ou não é (risos). Mas a verdade é que não acredito em escritores de fato. Não acredito em nenhum artista de fato.

É preciso saber olhar o mundo com os olhos da ficção? O mundo fica melhor ou pior a partir dessa observação?

O ser humano sonha, delira, cria suas fabulações. Se for pra escolher melhor ou pior… Acho que isso, de modo geral, piora as coisas. Os bichos não tem nada dessas bobagens e eles compreendem muito mais o mundo que a gente.

Todo texto ficcional, mesmo os mais extensos, acaba sendo apenas um trecho ou fragmento da história geral? Digo, a ficção lança o seu olhar para as esquinas das situações, sendo praticamente impossível se ter uma noção do todo?

Quando li É Isto Um Homem?, de Primo Levi, senti todo o mal do Nazismo. O quanto o ser humano pode ser ruim e desprezível. Foi uma leitura que me impactou demais. Então, penso que a ficção pode, sim, nos dar essa impressão de todo, de História.

Nesse sentido, uma história nunca tem início, meio e fim?

Acho que acaba não tendo fim. Porque uma boa história (e a boa Literatura) fica na gente por muito tempo.

Você escolhe os seus temas ou é escolhido por eles?

Minha limitação acaba escolhendo. Pode parecer romântico a inspiração de tropeçar num verso, criar um personagem do nada, mas, no fundo, a literatura já existe em algum lugar dentro da gente.

É necessário buscar formas de expressão cada vez menos sujeitas ao cânone, desafiando a língua, tornando-a mais “suja”, para se aproximar cada vez mais da verossimilhança que a história pede? Ou seja, escrever cada vez “pior”, longe da superficialidade de escrever “certinho”, como disse Cortázar, talvez na tentativa de fugir da armadilha do estilo único?

Não tenho uma resposta para isso. Gosto de pensar que não tenho estilo. Aliás, gosto de pensar que não tenho nada, que sou um completo ignorante e estou apenas contando algo. Pensar em teorias literárias, estilos, autores, me atrasa a vida, me desanima completamente, porque tudo já foi feito.

Quando é que um escritor atinge a maturidade?

Quando ele não tem mais nada de relevante a dizer.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

O leitor sempre é cúmplice. No momento que ele leu a primeira frase, ele já é cúmplice. E isso, para ambos, nem sempre é bom. Quando se entendem, lógico, é melhor.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

O meu livro inesquecível é A Vida Como Ela É, de Nelson Rodrigues, que peguei na biblioteca da minha escola estadual, pavilhão de madeira, Ana Neri. Li bem jovem e me marcou. Então, levaria esse.

Qual a sua angústia criadora?

Teimosia. Imagino que ela se encaixe nessa aflição que motiva a criar algo.

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Entrevista publicada originalmente aqui. 

sábado, 8 de maio de 2021

Sorte no Jogo


No jornal policialesco da TV passava uma reportagem sobre bingos clandestinos. Máquinas recolhidas. Policiais de peito estufado. Repórter no local. 

A balconista da lancheria viu tudo e puxou assunto com o cliente.

- Isso tinha que legalizar. Qual o problema? Todo mundo joga! 

- É verdade - disse o homem velho, que tomava um café preto e espalitava os dentes.

- Mas jogatina legalizada só com o governo né?

- Bem isso.

- Tu já foi num bingo?

- Sim, já fui. 

- Na Assis Brasil tem um funcionando. Ali perto do Cristo. Às vezes fecham. Logo abre de novo. Dia desses, fui lá. Ganhei 17 reais. Fiz duas linhas só.

- Mas deixou quanto com eles pra ganhar isso?

- Uns 70 reais...

- Ah, pois é!

E ambos deram uma risada aberta. Faceiros.