sábado, 18 de agosto de 2018

Solidão - Conto de Juan José Morosoli


Domínguez recém chegara da lagoa com a ração do cavalo. Ia até lá colher as gramíneas de superfície e folhas de parietária dos troncos podres dos salgueiros, para dar ao seu velho cavalo, um animal sem dentes, já mui fraco e com olhos opacos de nuvens leitosas. Mas era também a única coisa viva que Domínguez tinha para ao menos ocupar-se de algo em sua vida. Depois de alimentar o cavalo, não tinha absolutamente nada para fazer. As ervas eram o único alimento que o pobre cavalo podia comer. Enfraquecia a olhos vistos e era certo que não sobreviveria ao inverno que estava começando.

Depois de dar de comer ao cavalo, Domínguez pegou a cadeira petiça, de assento de couro de vaca, e levou-a para perto da cerca de tunas. Sentou-se e começou a preparar o mate doce. Era o café da manhã.

Não tinha mais açúcar. Nos últimos dois dias seu café, seu almoço e sua janta era o mate doce sem açúcar. Ficou pensando se era o caso de procurar um sobrinho que morava do outro lado da cidade e pedir alguma coisa. Não tinha vontade de ir, pois o sobrinho, ao dar o pedaço de carne, gostava de dar também alguns conselhos. Parecia mentira, ele dizia, que Domínguez era tão velho e ainda não tinha aprendido a viver. E Domínguez tratava de “esquecer os cabelos brancos e sujeitas as mãos, para que não estalassem nas bochechas do ranhento”.

Não, não queria ir. Mas dois dias sem comer dobravam a crista de qualquer um. Talvez, pudesse pedir fiado no bolicho novo... Mas era capaz que o bolicheiro novo já tivesse sido alertado pelos bolicheiros velhos, com os quais Domínguez tinha várias contas penduradas. Não que fosse mau pagador. Os proventos da aposentadoria é que eram pequenos. E quando os recebia, esquecia-se das contas e ia ao centro fazer compras à vista. Além disso, nos primeiros dias de pagamento gostava de ver vinho, queijo e doce em sua mesa.

Foi então que ouviu o tambor e o clarim do circo. Um palhaço montado num elefante andava pelas ruas anunciando a função da noite. Domínguez lembrou-se de que o filho menor de Umpiérrez passara por ali com um saco de gatos – uma gata parida e seis gatinhos –, a caminho do circo.

- Que safadeza andas fazendo com esses bichos? – perguntara.
- Vou levar para o circo. Eles compram gatos, cachorros e cavalos para alimentar as feras.

Domínguez olho para o fundo do quintal, onde estava o cavalo velho. Que o animal estava nas últimas não havia dúvida.

“Terei de enterrá-lo”, pensou. “Tirá-lo daqui de arrasto... Pagar por esse serviço... A fiscalização sempre aparece nesses casos, o rancho está no limite urbano... Um cavalo morto é um senhor problema... Fora do limite urbano, morre e é comido pelos corvos... Mas”. E tornava a olhar o cavalo e cada vez o achava mais magro.

Levantou-se, com a erva do mate ainda sem molhar. Aproximou-se do animal. Sobre os olhos tinha dois buracos em que cabiam duas nozes. No focinho começava a desenvolver-se um eczema fino e supurante. De noite tossia como um homem. Às vezes nem as ervas comia. Pensando bem, matando-o fazia um favor, pois era evidente que estava morrendo em pé.

Mas uma coisa é morrer porque chegou a hora ou veio a ordem daquele que manda em tudo, outra é ser morto para virar comida de bicho de circo...

*

O cavalo se encosta nele. Sempre faz assim. E quando ele dá meia-volta e caminha na direção do rancho, o animal o segue, a cabeça tocando em seus ombros, empurrando-o carinhosamente.

É o que faz agora.

*

À tardinha saiu. Tinha resolvido tudo e a resolução era esta: ia ao bolicho pedir fiado. Se o homem fiasse, ótimo. Se não, ia ao circo. O que podia fazer?

-  Bueno – disse ao bolicheiro –, eu sou Domínguez, moro naquele rancho ali. Sou aposentado, mas neste mês ainda não recebi. Preciso gastar dois ou três pesos – e acrescentou, solene: - Se quer saber se cumpro meus compromissos, pergunte aos outros bolicheiros. Cuido mais do meu nome do que da minha roupa, e olhe que tenho fama de asseado.

Sorriu e esperou a resposta. Mas o outro também era malandro.

- Olhe, senhor Domínguez, eu sinto muito não poder fiar, pois o senhor é um homem direito e além disso é pensionista. Simpatizo muito com os aposentados. Mas tenho um capitalzinho de apenas cem pesos. Quando eu tiver mais capital, então sim.

Saiu do bolicho.

“Quando eu tiver dinheiro”, pensou, “desse não compro nada. Já se vê que é desconfiado número um”.

*

No meio daquele cheiro de pasto, urina e carne podre estava as jaulas. Ela ia por um corredor às escuras, entre as jaulas. Percebia movimentos, gemidos, roncos, mas não enxergava nada. Somente ao parar para falar com o homem notou oito ou dez pontos azuis, como botões de luz, que sem dúvida eram os olhos dos tigres e leões.

- Quero vender meu cavalo. É meio grande.
- Gordo?
- Não. Velho. Cavalo velho e gordo não há. Mas é um cavalo são.
- Oito pesos – disse o outro.
Domínguez perguntou:
- Me diga uma coisa: quanto vale um couro?
- Você veio aqui para vender um couro ou um cavalo?
- Um cavalo.
- Bueno... Se quiser pode trazer sem couro. Oito pesos. E tem que ser hoje, porque depois de amanhã vamos embora.
- Vocês vão buscar?
- Não, tem que trazer. E tem que ser hoje.

*

Trouxe. Vinham bem devagar. Quem os visse quase não perceberia que caminhavam. Iam pela escuridão como se fossem outras escuridões que caminhassem. O cavalo trazia a encostada em seus ombros, como empurrando-o, decerto para não perder-se... Domínguez sentia aquela cabeça em suas costas como uma dor que viesse do cavalo.

Entrou. Os bichos como que enlouqueceram. Sabiam que aquilo era comida.  Entregou-a ali no corredor cheio de odores ácidos e rugidos.

- Como é que matam – perguntou.
- Com aquilo.
O homem, com a lanterna, iluminou uma enorme marreta cheia de sangue e cabelos.
- Agora?
- Sim, antes da função. Os leões são velhos. Matamos o cavalo na frente, mas não damos de comer. Quando entram na arena parece leões jovens.

Deu-lhe os oito pesos. Domínguez saiu andando como um bêbado pelo corredor escuro.

*

Sentia-se doente, com náuseas. Entrou no primeiro bolicho que viu, tomou duas ou três canhas, e depois de passar no mercado voltou para casa.

Noite. Ouvia os ecos da banda. Depois os rugidos e aplausos e música outra vez. No céu a estrela de luzes do circo erguia-se como um barco ancorado.

Era muito tarde agora. Já não ouvia mais nada e tampouco via a estrela de luzes. A noite se esvaziara de repente, restando apenas ele, ao lado das tunas, esperando que amanhecesse, com o fogo apagado e um assado que não tinha comido. Não fumava, não pensava, não estava triste, não fazia nada senão estar na noite, até que se deu conta de que era uma tolice esperar o amanhecer. Não tinha nada para fazer. Já não precisava trazer ervinhas da lagoa. Nunca, nunca mais teria o que fazer. Nada, sempre o nada. E então começou a chorar.

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Juan José Morosoli (1899-1957) foi um reconhecido contista uruguaio. No Brasil, o conto Solidão foi publicado no livro A Longa Viagem de Prazer (LPM), com tradução de Sérgio Faraco.