segunda-feira, 13 de abril de 2015

Tempo Dos Poetas Menores *

O tempo dos poetas menores está chegando _ anunciou o poeta sérvio Charles Simic no fim dos anos 1980. "Adeus Whitman, Dickinson, Frost. Bem-vindos vocês cuja fama nunca crescerá além da família próxima, e talvez um ou dois bons amigos reunidos depois do jantar para beber um jarro de vinho tinto". Encontro as encorajadoras propostas de Simic em um dos ensaios de "Arte da pequena reflexão", livro do poeta Fernando Paixão (Iluminuras) dedicado ao estudo do poema em prosa contemporâneo. Nascido em Belgrado mas radicado nos Estados Unidos, Simic é um poeta do movimento e da expansão. 

Nascido em Portugal e radicado em São Paulo, Paixão parte de outra de suas firmes declarações: "Minha aspiração é a de criar uma espécie de não gênero composto de ficção, autobiografia, ensaio, poesia e, claro, de anedota". O desafio de Simic me leva a pensar em tantos poetas que conheço que se sentem asfixiados por escrever apenas para meia dúzia de leitores, como se não escrevessem para ninguém. E a pensar, mais ainda, nos que não conheço. Sentem-se esquecidos, desprezados, ludibriados. São poetas que não se livram do sentimento de que não encontram um lugar para si _ de que sua poesia não é acolhida pela própria poesia. Pois eles deviam ler Simic. A respeito de seu desafio, comenta Fernando Paixão: "Longe da ideia habitual que se tem do poeta, como alguém iluminado e altivo, encontra-se o elogio do escritor encarnado em homem comum, envolvido no cotidiano e acometido por receios". Não há nada de novo, a rigor, na descoberta de Charles Simic. Todo poeta _ todo escritor _ é, antes de tudo, um homem comum. O difícil, muitas vezes, é aceitar isso.

São poetas corajosos que, mesmo oprimidos pelo desprezo dos editores, do mercado e da crítica, continuam a escrever e escrever, sem permitir que a indiferença alheia os perturbe e os cale. O lugar comum seria dizer que são "operários da poesia", mas prefiro não vê-los assim. A noção de "operário" (com todo o respeito que ela merece pela coragem que a define) conduz, muitas vezes, à imagem de um trabalho automático e impessoal _ e eu bem sei o quanto esses poetas se desviam, o quanto tremem e sofrem para escrever. Nenhum automatismo: pura entrega, ainda que sem resposta, sem interlocutores, sem os benefícios da consagração. Nenhuma máquina, ou linha de montagem, trabalhando em seu lugar. Nenhuma repetição: ao contrário, a insistência absoluta no novo, ainda que ele seja incompreendido e confundido com a miséria.

Distingue Fernando Paixão: "De um lado, as figuras da alta literatura que fazem parte do passado; de outro, o prosaísmo dos poetas do presente". Simic se despede, assim, dos grandes poetas da tradição. Dizendo melhor: toma distância, colocando-os em seu lugar. Eles, com sua "grandeza", não combinam (não cabem) na era contemporânea. Sim, nós os lemos, eles nos satisfazem e entusiasmam. Mas, quando olhamos para os lados, vemos apenas poetas infernizados, que se debatem e sofrem com o manejo de suas próprias palavras. No lugar da reverência, o senso crítico. No lugar da pompa, a entrega. Que péssimas ideias costumamos cultivar a respeito dos grandes poetas. Eles nos parecem sobre-humanos. Temos a sensação de que se erguem e levitam acima de nós. Acima, sobretudo, dos poetas do presente. No entanto, o quanto sofreram para escrever seus versos. O quanto tiveram que lidar com o menor, com o ínfimo, para chegar a ser quem são.

Afirma Simic uma nova atitude diante da poesia, que vá além daqueles elementos que, habitualmente, consideramos "poéticos". Uma poesia além da poesia. Uma poesia para os poetas simples, que se contentam apenas com o que têm e que aceitam ser quem são. (E todo poeta, mesmo o "grande", não necessita disso?) Um elemento importante para o poeta sérvio é o humor _ que, muitas vezes, confina a poesia no mundo do "menor". Disse, em uma entrevista publicada em Michigan no ano de 2001: "Eu não sei como definir o humor, mas me parece que uma definição próxima pode ser encontrada na poesia moderna; sobretudo quando mobiliza elementos de irracionalidade mais atitude". 

Muitos poetas menores se sentem prisioneiros do "irracional", isto é, de impulsos que, em vez de enobrecê-los, os diminuem. A relação que Simic propõe entre a irracionalidade e a atitude é, aqui, inspiradora. Não se deixar amordaçar pelos grande cânones. Não se intimidar diante dos protocolos da consagração. Simplesmente escrever, enfrentando corajosamente as palavras. Importante sua ênfase na "anedota" _ ou seja, em tudo aquilo que acontece à margem dos eventos importantes. Tudo o que parece menor. Esses poetas sofredores - que não publicam, que quase não são lidos, que se sentem tão sozinhos _ sofrem, na verdade, desse sentimento de insignificância.

Há, neles, porém, uma grande força. Em sua arte, de modo secreto mas insistente, a poesia resiste. São poetas que escrevem, diz Simic, "enquanto as crianças estão caindo de sono e reclamando do barulho que você faz enquanto procura nos armários seus velhos poemas, receoso de que sua mulher os tenha jogado fora". Tudo lhes é adverso. Nada os favorece. Só têm meia dúzia de amigos para ler seus poemas e ampará-los. Mas, apesar disso, continuam a escrever. Chegou mesmo a hora de observá-los melhor. Levá-los em conta. Considerar seu esforço. Ver sua poesia _ sem brilhos, sem holofotes, sem pompa _ como um saudável alimento.


* Texto de José Castello, originalmente publicado em O Globo, dia 24 de novembro de 2014