Fazia muito tempo que ela não dava o cu. Tanto tempo, que nem lembrava a sensação e as consequências. Suas pregas ficaram doloridas e com ardência durante dias. Contudo, a sensação durante o ato – e após – foi ótima. Teve de passar a pomada para assaduras do seu netinho por uma semana. Mesmo assim, estava feliz. Sabia que deveria fugir das tentações. Também sabia que era impossível se manter longe delas. Seu filho estava no Presídio Central por isso. Vivia sem companheiros há um bom tempo pelo mesmo motivo. Tentações. O vasto mundo e seus descaminhos.
- Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne. Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne – declamou o pastor, empunhando a Bíblia Sagrada.
Foi o único trecho do culto o qual prestou atenção. Aquilo não fazia o menor sentido. Quanta bobagem, meu Deus! O que essa gente toda tem na cabeça? Não retornaria mais à Assembleia de Deus.
Voltou a usar seu consolo à noite. Depois que o netinho dormia, sua nora ia para o quarto e a casa se calava. Parecia programado. Ela sentia um calor e uma coceira. Buscava a peça no fundo do guarda-roupa. Introjetava aos poucos e ia agilizando os movimentos. Até que sentia uma onda preencher seu corpo e um tremor incontrolável. Pronto. O sono era melhor, mais pesado. Quando despertava, esquecia o que havia sonhado. Muito provável que teria sonhado com seu patrão. Aquele homem havia balançado suas estruturas.
Contou tudo o que se passava a amiga. Ouviu dela que era uma loucura, que estava vivendo em pecado e uma aventura adolescente. Transar com o chefe era uma insanidade. Que ficasse só no brinquedo sexual. Citou o ditado que onde se ganha o pão, não se come a carne. Comentou que isso poderia estragar a relação de trabalho e outras obviedades. Mas qual era o problema, afinal? Era adulta, pagava suas contas. Tinha seus problemas. E esses eram seus. Transar por transar não era um deles. E tampouco era seu. Era do seu patrão. O casado era ele.
- Se tu vê assim... – contemporizava a amiga.
E isso lhe dava ânimo para contar as peripécias sexuais que estava aprontando. Se refestelava na janela aberta, no chão, escorada na pia da cozinha, na cama do casal, na escada do prédio... Revirava o homem do avesso. Não era submissa. Enfiava os dedos nele. Fazia-o lamber onde quisesse. Se cuspiam na cara. Se ofendiam. Se tapeavam. Se alguém pudesse assistir as cenas, veria uma mulher atarracada, bunda grande, canelas grossas, mãos calejadas e ágeis, peitos pequenos e de bicos graúdos, braços roliços, cabelo duro e curto, língua inquieta, cintura elétrica, ventre macio. Ela era assim. E ele um completo desengonçado. Alto demais, magro demais, calvo, sempre com fome, mãos grandes e uma boca carnuda, que ficaria bonita em uma mulher. Quando eles se cansavam, conversavam sobre banalidades. Temas diversos. Seu filho preso, suas famílias, acontecimentos repercutidos no noticiário, seus respectivos trabalhos – ela fazia faxina em outros apartamentos e casas da região. Tinham uma boa relação.
- Se tu vê assim... – repetia a amiga.
- Por que tu diz isso? Estou fazendo algo de errado por acaso? Fala o que tu pensa de verdade – provocava a faxineira.
E a amiga retrucava. Citava a bíblia, Deus, pecado.
- E tu não peca? Nunca pecou? Tu é uma santa, por acaso?! Eu te conheço muito bem! – esbravejava.
E a conversa tomava um rumo estranho. Em respeito, a confidente se calava e afirmava que não estava julgando ninguém. Só dizia o que pensava sobre o caso, pois eram amigas. Arranjava uma desculpa para encerrar o assunto e até mais ver.
Foram anos de luxúria. Na última relação, ela montava sobre ele. Sentia tudo dentro de si. Estava preenchida. Decidiu aumentar a velocidade, esperando que ele se entregasse. Seu corpo parecia flutuar. Vivia um sonho. E enquanto sonhava, pressentiu o calor. Ele tentou tirar, queria colocar na sua boca. Ela o manteve ali. Controlava-o. O homem estava entregue.
- Te amo...
Foi um susto. Como acordar com um Sol na cara. Ela não tinha certeza se aquilo tinha saído da sua boca. Então, repetiu.
- Te amo.
Ele não respondeu. Apenas, saiu dela.
- Cuida para não pingar no lençol.
Falou como um chefe, que pede algo para uma funcionária. Deu as costas e foi ao banheiro. Era um chefe encerrando uma reunião. Ela no meio da cama, nua, perplexa, com o líquido escorrendo das coxas e molhando o lençol.
- Às vezes, eu penso que tu só me usa para fazer o que tua mulher não faz.
- E quem te disse que minha mulher não faz?
- Não sei... Eu só acho.
- Deixa de bobagem. Ninguém está usando ninguém. Ou é o contrário. Nós estamos usando um ao outro.
Ele estava certo. Havia um acordo tácito entre eles. Sempre houve. Ninguém tinha o que se queixar ou no que se prender. Por isso, decidiu – ali, naquela hora – abandonar a casa. Não seria um mero objeto de luxúria. Não era um consolo. O que ela era? Não sabia e nem queria mais saber. Ele que arranjasse uma outra faxineira e uma outra amante.
Mais uma vez, relatou tudo para a amiga e se desculpou pelas frases duras no período. Retomaria sua vida de jovem senhora. Tinha um neto, um filho preso e uma nora para cuidar. Preocupações e ocupações. Retornou aos cultos da Assembleia de Deus.
- Todo o pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que fornica peca contra o seu próprio corpo. Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos? – alertou o pastor.
E ela, atenta e forte, concordou com tudo. Deus estava certo.