sexta-feira, 19 de junho de 2026

Fogo Morto - Trecho

 


O boleeiro vinha deixar as almofadas de seda para os joelhos da família do Santa Fé. O negro entrava na igreja com orgulho, com ufania. Ajoelhava-se no altar-mor, e depois de deixar no ladrilho as três almofadas, voltava para a porta de entrada, e de longe, como se quisesse mostrar que era negro, pobre negro de seu coronel Lula de Holanda, assistia à sua missa. Os senhores ficavam mais perto de Deus. Eles é que podiam ter aquele luxo, aquela intimidade de mais perto com o Todo-Poderoso, com o grande do céu. Seu Lula ouvia a missa inteira ajoelhado, batendo com os beiços, com o rosário entre as mãos. Parecia, com aquela barba quase branca, com aquele olhar baço, um frade da Penha à paisana. O povo achava tudo aquilo uma hipocrisia. Era ele o maior unha-de-fome da várzea, o senhor que só dormia bem quando tinha negro no tronco, que derramava sangue de negro nas pisas de arrancar couro, que vinha rezar daquele jeito, como um puro, um coração limpo, uma alma de santo. Na porta de lado da igreja ficava o cabriolé, que os moleques cercavam como se nunca o tivessem visto. Os cavalos já não eram aqueles dois belos cavalos ruços, que pareciam de história de Trancoso. A nova parelha do cabriolé não apresentava aquela beleza de antigamente. Eram dois pobres quartaus, que podiam ser bem duas bestas de carga. Em todo o caso teriam força bastante para arrastar a família do Santa Fé pelas estradas.

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Trecho de Fogo Morto, romance de José Lins do Rego