segunda-feira, 20 de julho de 2026

Dueto

 

Eu descia a avenida Borges de Medeiros e ela subia. Levava uma sacola de lixo nas costas. Vestia uns trapos. Cabelo raspado, com muitas falhas. Parecia louca. Daquele tipo de doida que ninguém tem tempo para ajudar ou cuidar. Ela cantarolava uma canção. Quando chegou bem perto de mim, estava no refrão.

"Meu filho, Deus que lhe proteja...".

"E onde quer que esteja, eu rezo por você", complementei.

Ela ficou surpresa e seguiu para o próximo verso. 

"Adoro ver você sorrindo..."

"Seu sorriso faz de tudo eu esquecer", encerrei.

Foi bonito de ver. Sorrimos, mas não trocamos palavras. Ela seguiu pela Borges de Medeiros, interpretando o que restava da música. Eu empaquei na calçada. Olhei ao redor. Esperava que alguém tivesse notado, mas ninguém deu a mínima para nosso dueto.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

O vendedor de redes


Era meio-dia. Ele entrou no Bar Fontana pisando firme e já foi logo dizendo assim.

- Confia em mim?
- Claro que não - respondeu o dono.

Mesmo com a negativa, o homem escolheu uma mesa e foi sentando. 

- Me vê um ala minuta. 
- 27 reais.
- Te pago amanhã.
- Então, amanhã tu vem.
- Não faz assim... Tu sabe que pago. 
- Sei..
- Pago sim. Hoje, tá ruim as vendas.
- Mas tu quer vender rede em Porto Alegre! E no inverno! E ainda queria que as vendas tivessem boas?!
- Tu sabe que vendo. E sabe que eu pago. Amanhã, sem falta.

O dono deu as costas. Comentou com outro cliente.

- Ele quer vender rede em julho. Tá cinco graus na rua...

O cliente sorriu sem jeito. Não sabia se concordava ou não.

- Neide! Faz um ala minuta de carne - gritou o proprietário do Fontana. 
- E com ovo bem passado, Neide! - complementou o vendedor de redes.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Deixa esse fascismo


Deixe esse Fascismo 

E vem dançar comigo


Você é tão politizada

Não tem tempo pra nada


Estuda Ciências Socias na Federal

E não tem namorada


Faz de conta que estamos em guerra

Ou numa revolução armada


E o mundo vai acabar

Se você não dançar