quinta-feira, 16 de julho de 2026

O vendedor de redes


Era meio-dia. Ele entrou no Bar Fontana pisando firme e já foi logo dizendo assim.

- Confia em mim?
- Claro que não - respondeu o dono.

Mesmo com a negativa, o homem escolheu uma mesa e foi sentando. 

- Me vê um ala minuta. 
- 27 reais.
- Te pago amanhã.
- Então, amanhã tu vem.
- Não faz assim... Tu sabe que pago. 
- Sei..
- Pago sim. Hoje, tá ruim as vendas.
- Mas tu quer vender rede em Porto Alegre! E no inverno! E ainda queria que as vendas tivessem boas?!
- Tu sabe que vendo. E sabe que eu pago. Amanhã, sem falta.

O dono deu as costas. Comentou com outro cliente.

- Ele quer vender rede em julho. Tá cinco graus na rua...

O cliente sorriu sem jeito. Não sabia se concordava ou não.

- Neide! Faz um ala minuta de carne - gritou o proprietário do Fontana. 
- E com ovo bem passado, Neide! - complementou o vendedor de redes.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Deixa esse fascismo


Deixe esse Fascismo 

E vem dançar comigo


Você é tão politizada

Não tem tempo pra nada


Estuda Ciências Socias na Federal

E não tem namorada


Faz de conta que estamos em guerra

Ou numa revolução armada


E o mundo vai acabar

Se você não dançar

quarta-feira, 24 de junho de 2026

A grandeza do sacríficio

 


Abracei minha filha quando ela estava morta

Não abracei antes 

Quando ela estava viva

Porque era adulta

E não parecia prudente

Nem necessário


Agora, quando a abracei 

Tive a impressão de se tratar de uma menina, pequenina

Que tinha frio

Porque não entendia que estamos num rigoroso inverno

E precisava de mais roupas

E do calor do meu abraço

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Fogo Morto - Trecho

 


O boleeiro vinha deixar as almofadas de seda para os joelhos da família do Santa Fé. O negro entrava na igreja com orgulho, com ufania. Ajoelhava-se no altar-mor, e depois de deixar no ladrilho as três almofadas, voltava para a porta de entrada, e de longe, como se quisesse mostrar que era negro, pobre negro de seu coronel Lula de Holanda, assistia à sua missa. Os senhores ficavam mais perto de Deus. Eles é que podiam ter aquele luxo, aquela intimidade de mais perto com o Todo-Poderoso, com o grande do céu. Seu Lula ouvia a missa inteira ajoelhado, batendo com os beiços, com o rosário entre as mãos. Parecia, com aquela barba quase branca, com aquele olhar baço, um frade da Penha à paisana. O povo achava tudo aquilo uma hipocrisia. Era ele o maior unha-de-fome da várzea, o senhor que só dormia bem quando tinha negro no tronco, que derramava sangue de negro nas pisas de arrancar couro, que vinha rezar daquele jeito, como um puro, um coração limpo, uma alma de santo. Na porta de lado da igreja ficava o cabriolé, que os moleques cercavam como se nunca o tivessem visto. Os cavalos já não eram aqueles dois belos cavalos ruços, que pareciam de história de Trancoso. A nova parelha do cabriolé não apresentava aquela beleza de antigamente. Eram dois pobres quartaus, que podiam ser bem duas bestas de carga. Em todo o caso teriam força bastante para arrastar a família do Santa Fé pelas estradas.

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Trecho de Fogo Morto, romance de José Lins do Rego 

sábado, 23 de maio de 2026

Mais uma epírafe

"Talvez, toda a Literatura já produzida no mundo seja só uma imensa vontade de conversar com alguém".

Lucas Barroso

quinta-feira, 30 de abril de 2026

As palavras bem ditas

Por que você faz isso? Por que perde tempo com isso? Não me é uma pergunta recorrente. Pouca gente se importa, na verdade. Literatura, de modo geral, é irrelevante. Mas a resposta é porque escrevo desde sempre. Ou desde que tenho uma memória bem viva de tudo que me rodeia. Acontece que a questão me veio. Porque fiz um texto para o meu trabalho. Não era um tipo de texto que comumente se registra como Literatura. Ou seja, não foi um texto gratuito, artístico. Foi um texto profissional. Feito sob encomenda. Esse também é o meu trabalho e minha vida. E esse tipo conteúdo - hoje chamam textos profissionais de conteúdo - é frio. É como bater ponto. É como fazer arroz e feijão. É como tomar um copo d'água. É uma obrigação. Não tem graça. O conteúdo ficou ao agrado de quem o encomendou. "Pra mim, está perfeito", disse a chefia. Talvez, eu seja o funcionário do mês... Seu conteúdo - aí, sim, o termo cabe - foi lido por um mestre de cerimônias, com uma bela e potente voz, em um evento triste, ecumênico. Não teria minha assinatura. Nem a de ninguém. Era um texto em um evento simbólico. E só. Sem um homem por trás. Um texto de um fantasma. Talvez, poderia ter sido feito por uma inteligência artificial qualquer. Mas eu estava no evento. No meio das dezenas de pessoas, uma era o autor. A leitura se deu em pouco mais de cinco minutos. Ao pé da maior estátua de Cristo no mundo. Muitas pessoas não deram a mínima. Olhavam seus celulares. Outras tantas conversavam entre si. Outras, ainda, lutavam contra o fio inesperado de abril que fazia. As autoridades presentes fingiam introspecção. Não sei se alguém foi tocado pelas palavras. Se alguém guardou alguma frase consigo. Não senti ninguém absorto pelo meu texto. Não vi uma lágrima. O que não significa que não possa ter ocorrido. Porque teve algo, sim. Quando o mestre de cerimônias declamou " o novo vai nos encontrar mais fortes e mais preparados para viver o amanhã". Eu me comovi. Como se aquilo que foi declamado, não fosse meu. Aquela quase banalidade, dita ali, fazia todo o sentido. Pessoas tinham morrido. Outras tantas haviam se recuperado. Não foi uma guerra. Mas um desastre natural sem precendentes. Aquela frase tinha uma razão de ser e fazia, portanto, sentido. Eu não chorei. Mas lutei bravamente. Porque uma frase me trouxe um monte de coisas a mente. Memórias. Frustrações. Saudades. É o poder das palavras bem ditas. 

Então, é para isso que escrevo. 


Lucas Barroso

Porto Alegre, 30 de abril de 2026.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Segunda-feira - Poema de Primo Levi

 


Segunda-feira


O que é mais triste que um trem?

Que parte quando deve partir,

Que tem somente uma voz,

Que tem somente um caminho.

Nada é mais triste que um trem.


Ou talvez um burro de carga.

Está preso entre duas barras

E não pode olhar para o lado.

Sua vida é só caminhar.


E um homem? Não é triste um homem?

Se vive há muito em solidão,

Se acha que o tempo terminou,

Um homem também é coisa triste.


17 de janeiro de 1946

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Primo Levi 

Poema consta no livro Mil Sóis (Editora Todavia).