"A fé é acreditar em algo que sabemos não ser verdade".
Mark Twain
Essa menininha
Me tira toda a atenção
E não me deixa mais ter tempo
De ficar triste
Nem remoer meus pensamentos de adulto
Ela me fez
Atirar minhas armas no Arroio Dilúvio
Agora, não preciso mais delas
Só dela
E de seus olhinhos tão atentos
Tão vivos
Ela me contatou nas redes sociais e me questionou.
"Como tu faz para escrever? Como tu começou? Como tu define o gênero do que pretende escrever? E, por fim, como encontrou uma editora para publicar teus livros?".
Vamos começar pelo começo. Pra mim, o que funciona primeiro é a raiva, o ódio, a tristeza, ficar impressionado com algo... É o sentimento. Depois, é questão de escrever mesmo. Raramente penso no formato. Se aquele jorro vai ser um conto, uma poesia, um romance ou uma crônica (se é que vai se enquadrar em algo predeterminado). Tenho que resolver a questão com aquilo que preciso escrever, sem pensar em formas, plataformas ou leitores. Quando concluo o primeiro rascunho, busco dar um tempo, pra ver se aquilo presta ou é só uma bobagem. Se acho que funciona, vou trabalhando naquilo até me cansar, me anojar. Daí, é porque tá pronto. Ponto final.
Aí, é pensar se vale ou não publicar. Quase sempre acho que vale. Papel, geralmente, aceita tudo.
Com meus livros, a coisa funcionou porque já tinha muito texto em rede social, projeto Poemas nos Ônibus aqui na cidade, participações em diversas coletâneas e revistas literárias etc. Ou seja, eu já vinha testando caminhos e buscando ser lido. Não tinha vergonha, nem tanto medo de ser criticado. Aí, encontrei uma editora em Minas Gerais. Coisa de boca a boca mesmo. Após o primeiro livro, fica tudo mais fácil pra publicar.
Mas é muito difícil, num primeiro livro, encontrar uma editora. E, além disso, uma editora que banque os custos. Na maioria dos casos, o autor banca sua edição. E isso já frustra grande parte dos novos autores. O glamour se vai logo no começo, porque se gasta um valor considerável do próprio bolso. Outro ponto que afeta a vaidade de quem escreve é que existe uma alta chance do autor iniciante não ter visibilidade, porque existe um meio, um mercado, uma ampla competição por atenção.
É preciso estar ciente do fracasso.
Dosar a expectativa e estar convicto quanto o próprio trabalho é o que me alenta, atualmente. Afinal, não existe alguém que balize o meu trabalho. Não tenho a academia, não tenho a imprensa, não tenho o boca a boca. Tenho, apenas, que seguir com minha Literatura nesse contexto. Nessa solidão avassaladora. Falando sozinho, baixinho.
Enquanto tiver voz, será assim.
Como disse no começo: pra mim, funciona dessa forma.
Era 23h45, quando ele me acordou.
- Pai, o Cazaquistão fica em qual continente?
- Não sei, filho...
- Vamos pesquisar.
Olhei o celular para ver as horas.
- Tá muito tarde. Amanhã, tu pergunta para tua professora e descobre.
O guri não gostou, mas concordou e voltou pra cama. Quando o busquei na escola, ele foi prontamente me dizendo.
- O Cazaquistão fica maior parte na Ásia e uma parte menor na Europa.
- Hum, interessante! Tu perguntou para tua professora?
- Não.
- Ué, como tu sabe?
- Perguntei para o autista.
- Que autista?
- Temos um colega autista. Ele sabe um monte de coisa. Ele sabe mais de geografia que a professora.
- Legal, filho.
- E o maior jogador de futebol da história do Cazaquistão, tu sabe quem é?
- Mas jogam futebol no Cazaquistão?
- Claro que jogam, pai. Existem mais seleções de futebol que países no mundo.
- Não brinca?!
- Sim. Sabe ou não sabe o craque do Cazaquistão?
- Não sei.
- Então, vamos pesquisar.
Fazia muito tempo que ela não dava o cu. Tanto tempo, que nem lembrava a sensação e as consequências. Suas pregas ficaram doloridas e com ardência durante dias. Contudo, a sensação durante o ato – e após – foi ótima. Teve de passar a pomada para assaduras do seu netinho por uma semana. Mesmo assim, estava feliz. Sabia que deveria fugir das tentações. Também sabia que era impossível se manter longe delas. Seu filho estava no Presídio Central por isso. Vivia sem companheiros há um bom tempo pelo mesmo motivo. Tentações. O vasto mundo e seus descaminhos.
- Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne. Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne – declamou o pastor, empunhando a Bíblia Sagrada.
Foi o único trecho do culto o qual prestou atenção. Aquilo não fazia o menor sentido. Quanta bobagem, meu Deus! O que essa gente toda tem na cabeça? Não retornaria mais à Assembleia de Deus.
Voltou a usar seu consolo à noite. Depois que o netinho dormia, sua nora ia para o quarto e a casa se calava. Parecia programado. Ela sentia um calor e uma coceira. Buscava a peça no fundo do guarda-roupa. Introjetava aos poucos e ia agilizando os movimentos. Até que sentia uma onda preencher seu corpo e um tremor incontrolável. Pronto. O sono era melhor, mais pesado. Quando despertava, esquecia o que havia sonhado. Muito provável que teria sonhado com seu patrão. Aquele homem havia balançado suas estruturas.
Contou tudo o que se passava a amiga. Ouviu dela que era uma loucura, que estava vivendo em pecado e uma aventura adolescente. Transar com o chefe era uma insanidade. Que ficasse só no brinquedo sexual. Citou o ditado que onde se ganha o pão, não se come a carne. Comentou que isso poderia estragar a relação de trabalho e outras obviedades. Mas qual era o problema, afinal? Era adulta, pagava suas contas. Tinha seus problemas. E esses eram seus. Transar por transar não era um deles. E tampouco era seu. Era do seu patrão. O casado era ele.
- Se tu vê assim... – contemporizava a amiga.
E isso lhe dava ânimo para contar as peripécias sexuais que estava aprontando. Se refestelava na janela aberta, no chão, escorada na pia da cozinha, na cama do casal, na escada do prédio... Revirava o homem do avesso. Não era submissa. Enfiava os dedos nele. Fazia-o lamber onde quisesse. Se cuspiam na cara. Se ofendiam. Se tapeavam. Se alguém pudesse assistir as cenas, veria uma mulher atarracada, bunda grande, canelas grossas, mãos calejadas e ágeis, peitos pequenos e de bicos graúdos, braços roliços, cabelo duro e curto, língua inquieta, cintura elétrica, ventre macio. Ela era assim. E ele um completo desengonçado. Alto demais, magro demais, calvo, sempre com fome, mãos grandes e uma boca carnuda, que ficaria bonita em uma mulher. Quando eles se cansavam, conversavam sobre banalidades. Temas diversos. Seu filho preso, suas famílias, acontecimentos repercutidos no noticiário, seus respectivos trabalhos – ela fazia faxina em outros apartamentos e casas da região. Tinham uma boa relação.
- Se tu vê assim... – repetia a amiga.
- Por que tu diz isso? Estou fazendo algo de errado por acaso? Fala o que tu pensa de verdade – provocava a faxineira.
E a amiga retrucava. Citava a bíblia, Deus, pecado.
- E tu não peca? Nunca pecou? Tu é uma santa, por acaso?! Eu te conheço muito bem! – esbravejava.
E a conversa tomava um rumo estranho. Em respeito, a confidente se calava e afirmava que não estava julgando ninguém. Só dizia o que pensava sobre o caso, pois eram amigas. Arranjava uma desculpa para encerrar o assunto e até mais ver.
Foram anos de luxúria. Na última relação, ela montava sobre ele. Sentia tudo dentro de si. Estava preenchida. Decidiu aumentar a velocidade, esperando que ele se entregasse. Seu corpo parecia flutuar. Vivia um sonho. E enquanto sonhava, pressentiu o calor. Ele tentou tirar, queria colocar na sua boca. Ela o manteve ali. Controlava-o. O homem estava entregue.
- Te amo...
Foi um susto. Como acordar com um Sol na cara. Ela não tinha certeza se aquilo tinha saído da sua boca. Então, repetiu.
- Te amo.
Ele não respondeu. Apenas, saiu dela.
- Cuida para não pingar no lençol.
Falou como um chefe, que pede algo para uma funcionária. Deu as costas e foi ao banheiro. Era um chefe encerrando uma reunião. Ela no meio da cama, nua, perplexa, com o líquido escorrendo das coxas e molhando o lençol.
- Às vezes, eu penso que tu só me usa para fazer o que tua mulher não faz.
- E quem te disse que minha mulher não faz?
- Não sei... Eu só acho.
- Deixa de bobagem. Ninguém está usando ninguém. Ou é o contrário. Nós estamos usando um ao outro.
Ele estava certo. Havia um acordo tácito entre eles. Sempre houve. Ninguém tinha o que se queixar ou no que se prender. Por isso, decidiu – ali, naquela hora – abandonar a casa. Não seria um mero objeto de luxúria. Não era um consolo. O que ela era? Não sabia e nem queria mais saber. Ele que arranjasse uma outra faxineira e uma outra amante.
Mais uma vez, relatou tudo para a amiga e se desculpou pelas frases duras no período. Retomaria sua vida de jovem senhora. Tinha um neto, um filho preso e uma nora para cuidar. Preocupações e ocupações. Retornou aos cultos da Assembleia de Deus.
- Todo o pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que fornica peca contra o seu próprio corpo. Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos? – alertou o pastor.
E ela, atenta e forte, concordou com tudo. Deus estava certo.
Tipos esquisitos era o mais comum por ali. Os bairros pobres de Paris são ponto de encontro de pessoas excêntricas - gente que caiu em trilhas solitárias e meio malucas da vida e desistiu de tentar ser normal ou decente. A pobreza liberta dos padrões usuais de comportamento, assim como o dinheiro liberta as pessoas do trabalho.
(...)
Seria interessante escrever algumas dessas biografias, se alguém tivesse tempo. Tento descrever as pessoas de nosso bairro não por mera curiosidade, mas porque fazem parte dessa história. A pobreza é o meu tema, e foi nesse bairro miserável que tive meu primeiro contato com ela. O bairro miserável com sua imundície e suas vidas incomuns, foi minha primeira lição prática de pobreza e, depois, a base de minhas experiências. Por isso tento mostrar como era a vida ali.
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Trecho de Na Pior em Paris e Londres, de George Orwell.