O boleeiro vinha deixar as almofadas de seda para os joelhos da família do Santa Fé. O negro entrava na igreja com orgulho, com ufania. Ajoelhava-se no altar-mor, e depois de deixar no ladrilho as três almofadas, voltava para a porta de entrada, e de longe, como se quisesse mostrar que era negro, pobre negro de seu coronel Lula de Holanda, assistia à sua missa. Os senhores ficavam mais perto de Deus. Eles é que podiam ter aquele luxo, aquela intimidade de mais perto com o Todo-Poderoso, com o grande do céu. Seu Lula ouvia a missa inteira ajoelhado, batendo com os beiços, com o rosário entre as mãos. Parecia, com aquela barba quase branca, com aquele olhar baço, um frade da Penha à paisana. O povo achava tudo aquilo uma hipocrisia. Era ele o maior unha-de-fome da várzea, o senhor que só dormia bem quando tinha negro no tronco, que derramava sangue de negro nas pisas de arrancar couro, que vinha rezar daquele jeito, como um puro, um coração limpo, uma alma de santo. Na porta de lado da igreja ficava o cabriolé, que os moleques cercavam como se nunca o tivessem visto. Os cavalos já não eram aqueles dois belos cavalos ruços, que pareciam de história de Trancoso. A nova parelha do cabriolé não apresentava aquela beleza de antigamente. Eram dois pobres quartaus, que podiam ser bem duas bestas de carga. Em todo o caso teriam força bastante para arrastar a família do Santa Fé pelas estradas.
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Trecho de Fogo Morto, romance de José Lins do Rego
Por que você faz isso? Por que perde tempo com isso? Não me é uma pergunta recorrente. Pouca gente se importa, na verdade. Literatura, de modo geral, é irrelevante. Mas a resposta é porque escrevo desde sempre. Ou desde que tenho uma memória bem viva de tudo que me rodeia. Acontece que a questão me veio. Porque fiz um texto para o meu trabalho. Não era um tipo de texto que comumente se registra como Literatura. Ou seja, não foi um texto gratuito, artístico. Foi um texto profissional. Feito sob encomenda. Esse também é o meu trabalho e minha vida. E esse tipo conteúdo - hoje chamam textos profissionais de conteúdo - é frio. É como bater ponto. É como fazer arroz e feijão. É como tomar um copo d'água. É uma obrigação. Não tem graça. O conteúdo ficou ao agrado de quem o encomendou. "Pra mim, está perfeito", disse a chefia. Talvez, eu seja o funcionário do mês... Seu conteúdo - aí, sim, o termo cabe - foi lido por um mestre de cerimônias, com uma bela e potente voz, em um evento triste, ecumênico. Não teria minha assinatura. Nem a de ninguém. Era um texto em um evento simbólico. E só. Sem um homem por trás. Um texto de um fantasma. Talvez, poderia ter sido feito por uma inteligência artificial qualquer. Mas eu estava no evento. No meio das dezenas de pessoas, uma era o autor. A leitura se deu em pouco mais de cinco minutos. Ao pé da maior estátua de Cristo no mundo. Muitas pessoas não deram a mínima. Olhavam seus celulares. Outras tantas conversavam entre si. Outras, ainda, lutavam contra o fio inesperado de abril que fazia. As autoridades presentes fingiam introspecção. Não sei se alguém foi tocado pelas palavras. Se alguém guardou alguma frase consigo. Não senti ninguém absorto pelo meu texto. Não vi uma lágrima. O que não significa que não possa ter ocorrido. Porque teve algo, sim. Quando o mestre de cerimônias declamou " o novo vai nos encontrar mais fortes e mais preparados para viver o amanhã". Eu me comovi. Como se aquilo que foi declamado, não fosse meu. Aquela quase banalidade, dita ali, fazia todo o sentido. Pessoas tinham morrido. Outras tantas haviam se recuperado. Não foi uma guerra. Mas um desastre natural sem precendentes. Aquela frase tinha uma razão de ser e fazia, portanto, sentido. Eu não chorei. Mas lutei bravamente. Porque uma frase me trouxe um monte de coisas a mente. Memórias. Frustrações. Saudades. É o poder das palavras bem ditas.
Com a série Traduzindo a Música Gauchesca, pretendo destacar algumas palavras, termos e versos de clássicos do cancioneiro Rio Grande do Sul. A fonte de pesquisa para explicá-los são dicionários voltados a esmiuçar essa língua falada no sul do país.
A segunda canção a ter seus termos vertidos para o português mais formal é De Chão Batido, de autoria do João Alberto Pretto, Pedro Neves e Martin Agnoletto. Foi lançada em setembro de 1992, pelo Grupo Renascença, no disco de nome De Chão Batido. Era a primeira faixa do lado A.
A versão mais conhecida da música foi a gravada pelo Os Serranos, em 1999, no disco Os Serranos interpretam sucessos gaúchos.
De Chão Batido
Em xucras bailantas de fundo de campo O fole e o tranco vão acolherados O índio bombeia pro taco da bota E o destino galopa num sonho aporreado Polvadeira levanta entre o sarandeio E é lindo o rodeio de chinas bonitas Quem tem lida dura e a ideia madura Com trago de pura a alma palpita
Atávico surungo de chão batido Xucrismo curtido na tarca do tempo Refaz invernadas de ânsias perdidas E encilha a vida no lombo do vento
Faz parte do mundo do homem campeiro Dançar altaneiro no fim de semana O gaúcho se arrima nos braços da china E cutuca a sina com um trago de cana Basta estar num fandango do nosso Rio Grande Pra ver que se expande esse elo gaúcho Esta pura verdade que não tem idade É a nossa identidade aguentando o repuxo
Atávico surungo de chão batido Xucrismo curtido na tarca do tempo Refaz invernadas de ânsias perdidas E encilha a vida no lombo do vento
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Chão batido = piso de terra, caracterizado pela compactação do solo para torná-lo firme.
Xucro = diz-se do gado não domesticado. Selvagem, bravio. / Diz-se do homem rude, grosseiro, intratável, sem trato social.
Tranco = Trote curto. Marcha habitual, não apressada, do cavalo. Passo largo, firme e seguro, do cavalo ou do homem.
Acolherado = Unido o animal a outro pela colhera. / Andar uma pessoa acolherada com outra, significa andar uma pessoa sempre junto de outra.
Índio = Homem do campo. Peão de estância. Indivíduo valente, bravo, disposto, destemido, valoroso.
Bombear = Espionar, espreitar, explorar, vigiar, espiar, perscutar, olhar, ver, observar. Examinar, sem ser percebido, o campo inimigo, a fim de lhe conhecer a força, os recursos e as intenções.
Taco = Salto de sapato ou bota.
Aporreado = Cavalo mal domado, indomável, que não se deixa amansar. Aplica-se também ao homem rebelde.
Polvadeira = Poeirada, nuvem de pó, grande quantidade de poeira.
Sarandeio = Saracoteio. Meneio executado em uma dança.
China = Descendente ou mulher de índio, ou pessoa do sexo feminino que apresenta algumas características étnicas das mulheres indígenas. Cabocla, mulher morena. Também é um termo utilizado para mulher de vida fácil.
Atávico = Transmitido ou adquirido de maneira hereditária; hereditário: seu talento era atávico. / Que se refere ao atavismo, ao reaparecimento em alguém das características de um antepassado que permaneceram escondidas por muitas gerações.
Surungo = Arrasta-pé, baile de baixa classe.
Tarca = Pedaço de pau ou de couro no qual se assinala, com pequenos cortes, o número de reses marcadas durante o dia. A tarca também é utilizada para qualquer outro tipo de contagem, de animais ou de objetos.
Invernada = Grande extensão de campo, cercado.
Altaneiro = Arrogante; que expressa altivez e orgulho: sorriso altaneiro.
Arrimar-se = Aproximar-se, achegar-se.
Fandango = Denominação genérica de antigos bailes campestres, constituídos de danças sapateadas, executadas alternadamente com canções populares, com acompanhamento de viola.
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Bibliografia consultada
Dicionário de regionalismos do Rio Grande do Sul - Zeno e Rui Cardoso Nunes
Dicionário da cultura pampeana sul-rio-grandense - Aldyr Garcia Schlee
Eu acabei com os sonhos dos meus pais. Mais precisamente de minha mãe. Hoje, que sou pai, e já perdi um tanto de sonhos no caminho, compreendo o que se passou. Mas é assim que a vida é. Os filhos fazem isso com seus pais. Os filhos são uma terra arrasada. E, ao mesmo tempo, uma nova terra. Minha mãe acabou com os sonhos de minha vó. E minha vó lutou pelos seus sonhos. Trocou de marido. Trocou de casas. Trocou de vida. E foi lutando com os sonhos que lhe restavam. Até que eu nasci e ela descansou. Porque naquele menino existia uma razão e um motivo pra sonhar. Não seu sonho original. Mas o sonho inesperado e possível. A sua vida, afinal, era aquele garoto. Mesmo doente. Mesmo velha. Mesmo sozinha. Porém, um sentido havia naquilo tudo. Cuidar de algo tão frágil. Naquela terra arrasada, minha vó plantou uma flor.
À noite dormimos em cama de vara. A chuva pingava dentro de casa por não sei quantas goteiras. E o cheiro horrível dos chiqueiros de porcos pertinho da gente. Os outros retirantes ficaram na casa de farinha, pelo chão. Era tudo isto o que de melhor o pobre do velho Amâncio tinha para nos oferecer: esta sua desgraçada e fedorenta miséria de pária.
Depois chegou do engenho o mantimento que tínhamos esquecido com as pressas. E a minha tia Maria distribuiu com aquela gente toda a carne de sol e o arroz que nos trouxeram. Eles pareciam felizes de qualquer forma, muito submissos e muito contentes com o seu destino. A cheia tinha-lhes comido os roçados de mandioca, levando o quase nada que tinham. Mas não levantavam os braços para imprecar, não se revoltavam. Eram uns cordeiros.
— O que vale é a saúde e a proteção de Deus — diziam sempre.
Mas, coitados, com que saúde e com que Deus estavam eles contando!
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Trecho de Menino de Engenho, de José Lins do Rego (110ª edição, José Olympio Editora, 2018)