segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Androides sonham com leitores de carne e osso?


Ao se queixar do texto de uma colunista, um assinante alertou que 66% do conteúdo vinha de inteligência artificial, segundo um detector de IA. Como ouvidora dos leitores, procedi à checagem e fui atrás dessas versões hoje tão prosaicas do Blade Runner.

Usei o Pangram e o WinstonAI, dois bem cotados caçadores de textos de androides, para testar outras colunas da autora. Todas apitavam para IA, a maioria com taxas de 100% ou quase isso. Repeti os testes e obtive os mesmos resultados. Já outros textos do jornal, inclusive aqueles traduzidos com IA, davam resultado 100% humano.

Por melhores que os detectores sejam, porém, não dá para julgar o trabalho de alguém apenas por esse diagnóstico, mas é mau sinal que haja colunas do jornal com 100% de IA no teste. Veio a questão seguinte: qual é o problema? O jornal não proíbe texto de IA. Mas também nunca informou que publicava texto de IA.

Enviei o questionamento e os prints dos testes à colunista e ao comando do jornal. Ressalto aqui que entendo a questão como algo delicado, mas não antiético, já que a própria Folha não tem políticas restritivas a respeito do uso da IA, pelo contrário. Tive dúvidas sobre expor a autora, o que poderia desviar o foco da questão, ou expor o diagnóstico sem dar nomes e colocar todo o elenco do jornal na berlinda.

Mas a colunista, Natalia Beauty, confirmou e defendeu o uso de IA nos textos que publica na Folha. "Utilizo, sim, ferramentas de inteligência artificial como apoio operacional no meu trabalho, assim como utilizo outras tecnologias no dia a dia profissional."

"O processo é objetivo. Parto sempre de um tema que considero relevante, seja um fato, seja uma reflexão baseada em experiências pessoais e profissionais. A partir daí, desenvolvo minha argumentação verbalmente, expondo de forma clara minha visão, meus argumentos e minhas conclusões (sim, é possível conversar com a IA pelo microfone). A ferramenta apenas organiza esse material, respeitando rigorosamente o que foi dito, sem acrescentar dados, interpretações ou opiniões que não sejam minhas."

Para concluir, a colunista informa que até a resposta à ombudsman veio da IA. "Defini o conteúdo, dei os comandos por voz e a tecnologia apenas estruturou o texto para otimizar meu tempo, sem interferir em absolutamente nenhuma linha do que penso ou afirmo."

Em setembro de 2023, a Folha incluiu o verbete "inteligência artificial" no seu Manual da Redação, autorizando os profissionais a "utilizar aplicações de inteligência artificial (IA) em seu trabalho". Havia ressalvas: "A ferramenta não substitui o julgamento humano nem exime o jornalista de responsabilidade pelo resultado final" e a revisão humana "é obrigatória nos conteúdos voltados à publicação". Até aí, não há nada nas publicações de Natalia Beauty que sugira descompasso com os princípios da Folha.

Dos grandes jornais de circulação nacional, O Globo é o que tem restrição mais clara em relação a textos de IA. "A inteligência artificial não deve ser usada para redigir textos opinativos ou editoriais." É também o que afirma o The New York Times: "Não usamos IA para escrever artigos".

Tanto o NYT quanto O Globo, o Estado e outras grandes Redações determinam que o conteúdo gerado por IA seja identificado como tal. A Folha não tem regra nesse sentido e considera a IA uma tecnologia como outra qualquer. No ano passado, questionei o jornal sobre a falta de indicação de uso de IA em traduções: "A responsabilidade é sempre dos nossos jornalistas".

Uma pesquisa recente da Universidade de Maryland, nos EUA, pintou um quadro complicado ao avaliar 45 mil artigos de opinião no The Washington Post, The New York Times e The Wall Street Journal. A conclusão é que esses artigos têm seis vezes mais chances de ter dedo de robô do que textos noticiosos. E muitos deles são assinados por figuras públicas importantes.

Muitas vezes, o que a IA substitui não é um texto de próprio punho, mas um artigo que até outro dia era redigido sob medida por assessor e/ou ghost writer. A prioridade é publicar pela assinatura, não exatamente pelo conteúdo. Os jornais têm sido, historicamente, repositórios/arquivões de opiniões, e a IA teria apenas encurtado essa linha de produção. Nesse sentido, a novidade seria mais para o assessor do que para o jornal.

Mas e o leitor com isso? Cabe a ele arbitrar se o resultado é bom ou não, se está otimizado demais ou de menos. Mas ninguém quer se sentir enganado. É um erro do jornal não indicar com clareza o uso de uma tecnologia que ainda está sendo desdobrada, assim como é um erro não distinguir o uso da IA como instrumento do seu uso como produto final.

O assinante de carne e osso se vê entre dois extremos no cardápio do jornal. De um lado, textos demasiado humanos cheios de burocratês e erros; do outro, composições gepetaicas de formas corretas, mas genéricas e vazias.

Se tudo vai se perder feito lágrimas na chuva, como anunciou o replicante de Rutger Hauer, que ao menos seja editado com cuidado e sinalizado com transparência enquanto ainda estivermos por aqui.

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Alexandra Moraes - Ombudsman (texto publicado na Folha de São Paulo, em 7 de fevereiro de 2026)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Pensamiento de caracol - El Príncipe Gustavo Pena


De madrugada, de madrugada

Con el rocío brillando al sol

Amanecí en la carretera

Con pensamiento de caracol


Me acompañaba por esta tierra

Mi humilde casa de cascaron

Siempre en la hoja, mas no me importa

Porque en mi hoja estoy libre

De los problemas de aquellos bichos

Que se disputan con gran pasión

Unos papeles que yo no entiendo

Por eso viven sufriendo


De madrugada, de madrugada

Con el rocío brillando al sol

Amanecí en la carretera

Con pensamiento de caracol


Muy despacito me voy moviendo

Pero sé bien en que dirección

Mi caracola me esta esperando

Caracolito jugando


Yo no me asusto de la tormenta

Tampoco el frío es preocupación

Vivo la vida naturalmente

Y siempre tengo presente


Caracolito, dijo mi vieja

Tené cuidado allá en la estación

Hay unos bichos para los cuales

La construcción y la destrucción

Son iguales


De madrugada, de madrugada

Con el rocío brillando al sol

Amanecí en la carretera

Con pensamiento de caracol

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Alanis em 1995



Foda-se a respiração. Foda-se a entonação. Foda-se as danças coreografadas. É só uma mulher putaça, com sangue nos olhos, cantando o que acredita e cheia de energia num palco. 

Alanis Morissette em 1995. Que troço impressionante!


sábado, 24 de janeiro de 2026

Trecho de Alta Fidelidade, de Nick Hornby

 


Minha genialidade, se puder chamá-la assim, é combinar toda essa carga de medianidade numa estrutura compacta única. Eu diria que há milhões como eu, mas não há, na realidade: muitos caras têm um gosto musical impecável mas não lêem, muitos caras lêem mas são gordos demais, muitos caras são simpáticos ao feminismo mas têm barbas idiotas, muitos caras têm um senso de humor como o Woody Allen mas se parecem com Woody Allen. Muitos caras bebem demais, muitos caras se comportam de modo idiota ao dirigirem um carro, muitos caras se metem em brigas, ou ostentam seu dinheiro, ou tomam drogas. Eu não faço nenhuma destas coisas, sério; se me dou bem com as mulheres não é por causa das virtudes que tenho, mas por causa das sombras que não tenho.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Curso de ator coadjuvante

 

Sua vida é um filme. Você é o personagem principal.  As câmeras mirando você ou não. Isso não é relevante. O que é mostrado não importa. O que interessa é que o filme é sobre você. Todo o resto são coadjuvantes. As guerras, os times de futebol, as mortes, o preço do dólar, o sistema solar. Tudo é sobre você. Tudo compõe o seu filme. Até que um ser sai de dentro de suas entranhas. Parece ficção científica, mas não é. Na arte, tudo é possível. A partir de agora, você não é mais o personagem principal. É brusco desse jeito. Uma mudança grotesca de roteiro. Por mais que você seja um ótimo ou péssimo ator. Não terá jeito. Você será mais um dos coadjuvantes desse novo personagem principal – esse que saiu das suas entranhas. Porque se trata de uma nova história. A você cabe apenas segurar as pontas e seguir a risca esse novo enredo, que você nem sabe direito qual é. 

É para isso que servem os coadjuvantes, não é mesmo?

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Trecho de Homens sem Mulheres, de Haruki Murakami

Quase todos os amigos de Tokai eram casados. Tinham filhos. Tokai visitava a casa deles algumas vezes, mas nunca sentia inveja. As crianças eram graciosas à sua maneira quando pequenas, mas no fim do ensino fundamental ou no ensino médio quase sempre passavam a odiar e insultar os adultos e, como se fosse vingança, causavam sérios problemas, dilacerando sem piedade os nervos e o sistema digestivo dos pais. Por outro lado, os pais só pensavam em matricular os filhos em escolas reconhecidas, estavam sempre irritados por causa das suas notas, acusavam um ao outro, e as brigas conjugais pareciam não cessar. Os filhos, por sua vez, quase não abriam a boca em casa, enfurnavam-se no quarto e não paravam de conversar pela internet com os colegas de escola ou ficavam absortos em estranhos jogos pornográficos. Tokai não desejava de jeito nenhum ter filhos assim. Os amigos eram unânimes em afirmar: “Filhos dão trabalho, mas é bom tê-los”, porém ele não podia confiar nesses clichês, não mesmo. Provavelmente os amigos só queriam que Tokai carregasse o mesmo fardo que eles. Apenas acreditavam, sem fundamentação alguma, que todo mundo tinha a obrigação de passar pelo mesmo calvário que eles.

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Trecho do livro Homens sem Mulheres, de Haruki Murakami (faz parte do conto Órgão Independente).

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Anthony Bourdain, sonhos e Miami

 

Iggy Pop e Bourdain

"E acho que tudo se resume a isso. Cheguei até aqui, escrevi um livro, consegui um programa de tv, vivi meus sonhos e conheci meu herói. Dois homens velhos numa praia". 

Anthony Bourdain

Trecho extraído do programa Anthony Bourdain: Parts Unknown (5a temporada, episódio 3 - Miami)