Deixe esse Fascismo
E vem dançar comigo
Você é tão politizada
Não tem tempo pra nada
Estuda Ciências Socias na Federal
E não tem namorada
Faz de conta que estamos em guerra
Ou numa revolução armada
E o mundo vai acabar
Se você não dançar
Deixe esse Fascismo
E vem dançar comigo
Você é tão politizada
Não tem tempo pra nada
Estuda Ciências Socias na Federal
E não tem namorada
Faz de conta que estamos em guerra
Ou numa revolução armada
E o mundo vai acabar
Se você não dançar
Abracei minha filha quando ela estava morta
Não abracei antes
Quando ela estava viva
Porque era adulta
E não parecia prudente
Nem necessário
Agora, quando a abracei
Tive a impressão de se tratar de uma menina, pequenina
Que tinha frio
Porque não entendia que estamos num rigoroso inverno
E precisava de mais roupas
E do calor do meu abraço
O boleeiro vinha deixar as almofadas de seda para os joelhos da família do Santa Fé. O negro entrava na igreja com orgulho, com ufania. Ajoelhava-se no altar-mor, e depois de deixar no ladrilho as três almofadas, voltava para a porta de entrada, e de longe, como se quisesse mostrar que era negro, pobre negro de seu coronel Lula de Holanda, assistia à sua missa. Os senhores ficavam mais perto de Deus. Eles é que podiam ter aquele luxo, aquela intimidade de mais perto com o Todo-Poderoso, com o grande do céu. Seu Lula ouvia a missa inteira ajoelhado, batendo com os beiços, com o rosário entre as mãos. Parecia, com aquela barba quase branca, com aquele olhar baço, um frade da Penha à paisana. O povo achava tudo aquilo uma hipocrisia. Era ele o maior unha-de-fome da várzea, o senhor que só dormia bem quando tinha negro no tronco, que derramava sangue de negro nas pisas de arrancar couro, que vinha rezar daquele jeito, como um puro, um coração limpo, uma alma de santo. Na porta de lado da igreja ficava o cabriolé, que os moleques cercavam como se nunca o tivessem visto. Os cavalos já não eram aqueles dois belos cavalos ruços, que pareciam de história de Trancoso. A nova parelha do cabriolé não apresentava aquela beleza de antigamente. Eram dois pobres quartaus, que podiam ser bem duas bestas de carga. Em todo o caso teriam força bastante para arrastar a família do Santa Fé pelas estradas.
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Trecho de Fogo Morto, romance de José Lins do Rego
Por que você faz isso? Por que perde tempo com isso? Não me é uma pergunta recorrente. Pouca gente se importa, na verdade. Literatura, de modo geral, é irrelevante. Mas a resposta é porque escrevo desde sempre. Ou desde que tenho uma memória bem viva de tudo que me rodeia. Acontece que a questão me veio. Porque fiz um texto para o meu trabalho. Não era um tipo de texto que comumente se registra como Literatura. Ou seja, não foi um texto gratuito, artístico. Foi um texto profissional. Feito sob encomenda. Esse também é o meu trabalho e minha vida. E esse tipo conteúdo - hoje chamam textos profissionais de conteúdo - é frio. É como bater ponto. É como fazer arroz e feijão. É como tomar um copo d'água. É uma obrigação. Não tem graça. O conteúdo ficou ao agrado de quem o encomendou. "Pra mim, está perfeito", disse a chefia. Talvez, eu seja o funcionário do mês... Seu conteúdo - aí, sim, o termo cabe - foi lido por um mestre de cerimônias, com uma bela e potente voz, em um evento triste, ecumênico. Não teria minha assinatura. Nem a de ninguém. Era um texto em um evento simbólico. E só. Sem um homem por trás. Um texto de um fantasma. Talvez, poderia ter sido feito por uma inteligência artificial qualquer. Mas eu estava no evento. No meio das dezenas de pessoas, uma era o autor. A leitura se deu em pouco mais de cinco minutos. Ao pé da maior estátua de Cristo no mundo. Muitas pessoas não deram a mínima. Olhavam seus celulares. Outras tantas conversavam entre si. Outras, ainda, lutavam contra o fio inesperado de abril que fazia. As autoridades presentes fingiam introspecção. Não sei se alguém foi tocado pelas palavras. Se alguém guardou alguma frase consigo. Não senti ninguém absorto pelo meu texto. Não vi uma lágrima. O que não significa que não possa ter ocorrido. Porque teve algo, sim. Quando o mestre de cerimônias declamou " o novo vai nos encontrar mais fortes e mais preparados para viver o amanhã". Eu me comovi. Como se aquilo que foi declamado, não fosse meu. Aquela quase banalidade, dita ali, fazia todo o sentido. Pessoas tinham morrido. Outras tantas haviam se recuperado. Não foi uma guerra. Mas um desastre natural sem precendentes. Aquela frase tinha uma razão de ser e fazia, portanto, sentido. Eu não chorei. Mas lutei bravamente. Porque uma frase me trouxe um monte de coisas a mente. Memórias. Frustrações. Saudades. É o poder das palavras bem ditas.
Então, é para isso que escrevo.
Lucas Barroso
Porto Alegre, 30 de abril de 2026.
Segunda-feira
O que é mais triste que um trem?
Que parte quando deve partir,
Que tem somente uma voz,
Que tem somente um caminho.
Nada é mais triste que um trem.
Ou talvez um burro de carga.
Está preso entre duas barras
E não pode olhar para o lado.
Sua vida é só caminhar.
E um homem? Não é triste um homem?
Se vive há muito em solidão,
Se acha que o tempo terminou,
Um homem também é coisa triste.
17 de janeiro de 1946
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Primo Levi
Poema consta no livro Mil Sóis (Editora Todavia).
Com a série Traduzindo a Música Gauchesca, pretendo destacar algumas palavras, termos e versos de clássicos do cancioneiro Rio Grande do Sul. A fonte de pesquisa para explicá-los são dicionários voltados a esmiuçar essa língua falada no sul do país.
A segunda canção a ter seus termos vertidos para o português mais formal é De Chão Batido, de autoria do João Alberto Pretto, Pedro Neves e Martin Agnoletto. Foi lançada em setembro de 1992, pelo Grupo Renascença, no disco de nome De Chão Batido. Era a primeira faixa do lado A.
A versão mais conhecida da música foi a gravada pelo Os Serranos, em 1999, no disco Os Serranos interpretam sucessos gaúchos.
De Chão Batido
Em xucras bailantas de fundo de campo
O fole e o tranco vão acolherados
O índio bombeia pro taco da bota
E o destino galopa num sonho aporreado
Polvadeira levanta entre o sarandeio
E é lindo o rodeio de chinas bonitas
Quem tem lida dura e a ideia madura
Com trago de pura a alma palpita
Atávico surungo de chão batido
Xucrismo curtido na tarca do tempo
Refaz invernadas de ânsias perdidas
E encilha a vida no lombo do vento
Faz parte do mundo do homem campeiro
Dançar altaneiro no fim de semana
O gaúcho se arrima nos braços da china
E cutuca a sina com um trago de cana
Basta estar num fandango do nosso Rio Grande
Pra ver que se expande esse elo gaúcho
Esta pura verdade que não tem idade
É a nossa identidade aguentando o repuxo
Atávico surungo de chão batido
Xucrismo curtido na tarca do tempo
Refaz invernadas de ânsias perdidas
E encilha a vida no lombo do vento