sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Um dia esperando - conto de Ernest Hemingway


UM DIA ESPERANDO

Ele entrou no quarto para fechar as janelas quando ainda estávamos na cama e vi que ele estava doente. Tremia, tinha o rosto branco e caminhava devagar como se sentisse dor com o movimento.

— O que é que há, Schatz?

— Dor de cabeça.

— É melhor deitar.

— Não. Logo passa.

— Vá se deitar. Vejo você quando me vestir.

Mas, quando desci, ele estava vestido, sentado ao pé do fogo, um menino de nove anos com ar de muito doente e infeliz. Pus a mão na testa dele, senti que tinha febre.

— Vá se deitar. Você está doente — disse eu.

— Estou bem — disse ele.

O médico chegou e tomou a temperatura do menino.

— Quanto? — perguntei.

— Cento e dois.

O médico deixou três remédios diferentes em cápsulas de cores diferentes com instruções para tomar. Um era para baixar a febre, outro um purgativo, o terceiro para combater a acidez. O vírus da gripe só pode existir em condição de acidez, explicou o médico. Parecia saber tudo sobre influenza, e disse que não havia motivo de preocupação se a febre não passasse de cento e quatro graus. Tratava-se de uma epidemia branda de influenza sem maior perigo desde que se evitasse a pneumonia.

De volta ao quarto anotei a temperatura do menino e também o horário de dar-lhe os remédios.

— Quer que eu leia para você?

— Se quiser — falou o menino. O rosto dele estava muito branco, e havia manchas escuras abaixo dos olhos. Estava imóvel na cama e parecia desligado do que se passava em volta.

Li trechos do Livro dos piratas, de Howard Pyle; mas ele não acompanhava a minha leitura.

— Como se sente, Schatz? — perguntei.

— O mesmo até agora — respondeu.

Sentei-me aos pés da cama e li para mim enquanto esperava a hora de dar outra cápsula ao doente. Seria natural ele dormir, mas quando olhei ele fitava os pés da cama com um olhar muito estranho.

— Por que não tenta dormir? Acordo você na hora do remédio.

— Prefiro ficar acordado.

Passado um tempo ele me disse:

— Não precisa ficar comigo, papai, se for sacrifício.

— Não é sacrifício.

— Eu disse que não precisa ficar se for incômodo para o senhor.

Tive a impressão de que ele delirava um pouco e, depois de dar-lhe as cápsulas às onze horas, saí um pouco.

Era um dia claro e frio, o chão coberto de uma névoa congelada que dava a impressão de estarem as árvores peladas, e os arbustos, a grama e todo o chão polido com gelo. Levei o setter irlandês para um passeio pela estrada até a margem de um riacho congelado, mas era difícil ficar em pé ou caminhar na superfície, e o cachorrinho vermelho escorregava e deslizava, e eu mesmo caí duas vezes e numa delas derrubei a espingarda, que deslizou para longe no gelo.

Espantamos uma ninhada de codornizes de um barranco alto, e acertei duas quando fugiam para além do barranco. Algumas pousaram em árvores, mas a maioria se espalhou no mato, e foi-lhes preciso pular nos montículos cobertos de gelo antes de conseguirem voar. Sem firmeza para os pés em cima do gelo era difícil atirar e acertar; matei duas, errei cinco e voltei satisfeito de ter encontrado uma ninhada tão perto de casa, e satisfeito também de ver que havia muitas outras para serem achadas em outro dia.

Em casa fiquei sabendo que o menino não quis que ninguém entrasse no quarto. Não queria que apanhassem a doença dele.

Subi ao quarto e encontrei-o na mesma posição de quando o havia deixado, o rosto branco, mas o alto das faces corado da febre. Ainda olhava de olhos arregalados para os pés da cama.

Tomei a temperatura.

— Quanto?

— Por volta de cem. Eram cento e dois e quatro décimos.

— Cento e dois — disse ele.

— Quem disse?

— O médico.

— A temperatura está sob controle. Não há motivo para preocupação.

— Não estou preocupado, mas não posso deixar de pensar.

— Não pense. Relaxe.

— Estou tentando relaxar — disse ele, e olhou para a frente.

Estava evidentemente se apegando a alguma coisa dentro dele.

— Tome isto com água.

— Acha que vai me fazer bem?

— Claro que vai.

Sentei-me e abri o Livro dos piratas e comecei a ler, mas ele não acompanhava; então parei.

— A que horas acha que vou morrer? — perguntou ele.

— O quê?

— Quanto tempo falta para eu morrer?

— Você não vai morrer. O que é que há com você?

— Vou, sim. Ouvi ele dizer cento e dois.

— Ninguém morre com febre de cento e dois graus. Que conversa mais idiota.

— Morre, sim. Na escola na França os meninos me disseram que não se pode viver com quarenta e quatro graus. Estou com cento e dois.

O dia inteiro ele esperou morrer, desde as nove da manhã.

— Meu pobre Schatz. Meu pobre Schatz, é como milhas e quilômetros — disse eu. — Você não vai morrer. Este termômetro é diferente. Naquele termômetro lá, trinta e sete é normal. Neste, o normal é noventa e oito.

— Tem certeza?

— Absoluta. É como milhas e quilômetros. Sabe quantos quilômetros fazemos quando o carro marca setenta milhas?

— Ah.

Mas o olhar dele para os pés da cama demorou a se relaxar. A tensão interior dele também se relaxou vagarosamente, e no dia seguinte ele estava descontraído e chorava fácil com coisas pequeninas que não tinham a menor importância.

--------------------

Esse conto de Ernest Hemingway foi publicado no livro Winner Take Nothing (1933). No Brasil saiu em Contos - Volume 1 (editora Bertrand Brasil, 2015).

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A entrevista de Primo Levi a Philip Roth


A entrevista de Primo Levi para Philip Roth aconteceu em 1986, em Turim, na Itália, e foi publicada originalmente no The New York Times Book Review com o título "A Man Saved By His Skills". Mais tarde, o bate-papo foi reproduzido no livro "Entre Nós - Um Escritor e Seus Colegas Falam de Trabalho", de Roth.

Abaixo, a tradução. 

Um homem salvo por suas habilidades

Naquela sexta-feira de setembro, quando cheguei a Turim — para reatar com Primo Levi uma conversa que havíamos começado certa tarde, em Londres, na primavera anterior — pedi-lhe que me mostrasse a fábrica de tintas onde ele havia trabalhado primeiro, como químico pesquisador e, depois, como gerente, até aposentar-se. Ao todo, a empresa tem cinqüenta funcionários, principalmente químicos que trabalham nos laboratórios e operários qualificados. A fileira de tanques de armazenamento, o prédio do laboratório, o produto final em containers da altura de homens, prontos para embarque, a unidade de reprocessamento que recicla as sobras — tudo isso está compreendido em quatro ou cinco acres, a uma distância de uns dez quilômetros de Turim. As máquinas para secagem de resina e mistura de verniz e as que bombeiam poluentes não fazem um barulho excessivo; e o cheiro acre do pátio — o cheiro, disse-me Levi, que ficou impregnado em suas roupas por dois anos depois que ele saiu — não é absolutamente desagradável; e o tanque cheio de resíduo preto limboso que resulta do processo antipoluente não é particularmente agressivo à vista.

Não se poderia dizer que esta seja a paisagem industrial mais feia do mundo, mas está muito longe, porém, daquelas frases de tintas carregadas que constituem a marca registrada das narrativas autobiográficas de Levi. Por outro lado, embora nada tenha de literário, é um lugar que nitidamente lhe diz muito. Partindo do que poderia ser o barulho, o fedor, o mosaico de bombas, tonéis, tanques e diais, lembrei-me de Faussone , o habilidoso aparelhador que aparece em The Monkey ‘s Wrench, quando ele diz a Levi — que chama Faussone de “meu alter ego”: “Vou lhe dizer uma coisa, estar por perto de um lugar de trabalho é algo que me agrada”.

Enquanto nos dirigíamos à seção de laboratório onde as matérias-primas são selecionadas antes de entrar em produção, perguntei a Levi se ele conseguia identificar aquele tênue aroma químico que se insinuava pelo corredor. Para mim, tinha um pouco o cheio de um corredor de hospital. Ele levantou só um pouco a cabeça e expôs as narinas ao ar. Com um sorriso, disse-me: “Entendo esse cheiro e posso analisá-lo como um cão”.

Ele me parecia interiormente animado mais à maneira de um azouguezinho selvagem dotado da mais astuta inteligência da floresta. Levi é baixinho e vivo, embora não tenha uma compleição muito delicada, e parece ser ainda tão ágil quanto deve ter sido aos dez anos. Em seu corpo, em seu rosto, vê-se — como não se vê na maioria dos homens — o rosto e o corpo do menino que ele foi. Sua vivacidade é quase palpável, e dentro dele pulsa um entusiasmo que é como uma chama piloto.

Talvez não seja tão surpreendente descobrir-se que os escritores, como o resto da humanidade, dividem-se em duas categorias: os que ouvem a gente e os que não ouvem. Levi ouve, e com o rosto todo, um rosto precisamente moldado que termina num cavanhaque branco que, aos 67 anos, lhe dá ao mesmo tempo um ar de jovialidade do deus Pã e um ar professoral, a cara da curiosidade irreprimível e do respeitado dottore .

Acredito em Faussone, quando ele diz a Primo Levi, no começo de The Monkey’s Wrench : “Você é mesmo um moleque, me fazendo contar essas histórias que nunca contei a ninguém, exceto a você”. Não seria de admirar que as pessoas estivessem sempre contando coisas a ele, e que tudo seja fielmente registrado antes mesmo de ser escrito: enquanto ouve, ele fica tão quieto e concentrado como um esquilo listrado espionando algo desconhecido do ato de um paredão.

Num grande prédio de apartamentos, construído alguns anos antes de ele nascer — e ele próprio nasceu aí, pois essa era, antigamente, a casa de seus pais — Levi mora com a mulher, Lucia. Exceto pelos anos que passou em Auschwitz e pelos meses de aventuras imediatas após sua libertação, ele morou aí a vida inteira.

A mãe dele ainda mora com o casal, aliás desde que Primo e Lucia se conheceram e casaram, depois da guerra. Tem 91 anos. E a sogra dele, de 95 anos, mora perto, no apartamento pegado ao de seu filho de 28 anos, que é físico. E a apenas algumas ruas dali mora a filha de 38 anos, que é botânica. Não conheço, pessoalmente, nenhum outro escritor contemporâneo que tenha continuado, durante tantas décadas, tão intimamente ligado, e num contato tão direto e ininterrupto, à família, ao lugar onde nasceu, à sua região, ao mundo de seus ancestrais, e, principalmente, ao universo de trabalho local — o qual, em Turim, pátria da Fiat, é amplamente dominado pela indústria.

De todos os artistas intelectualmente dotados deste século — e a unicidade de Levi reside no fato de ele ser ainda mais um artista-químico do que um químico-escritor — talvez seja ele o mais bem adaptado à totalidade da vida que o cerca. Talvez, no caso de Primo Levi, uma vida de inter-relacionamento comunal, juntamente com sua obra-prima Suvirval in Auschwitz , constitua sua resposta profundamente civilizada e cheia de verve àqueles que fizeram tudo o que podiam para interromper sua ligação persistente e apagá-la, juntamente com os de sua espécie, da face da História.

Em The Periodic Table , num parágrafo que começa pela mais simples das frases para descrever um dos processos mais gratificantes da química, Levi escreve: “A destilação é bela”. O que se segue é também uma destilação, uma redução dos pontos essenciais da conversa viva e abrangente que mantivemos, em inglês, durante um longo fim de semana, em sua maior parte no escritório calmo do apartamento dos Levi, a portas fechadas. O escritório é uma peça ampla, simplesmente mobiliada, com um velho sofá florido e uma poltrona confortável. Na escrivaninha, um processador de palavras, coberto, e atrás dela, dispostos em perfeita ordem em prateleiras, os cadernos de notas de Levi, em cores bem variadas. Em prateleiras dispostas por toda a peça, há livros em italiano, alemão e inglês. Mas o objeto mais evocativo é um esboço, modestamente pendurado na parede, mostrando uma cerca de arame farpado meio destruída em Auschwitz. Já em lugares de maior destaque, nas paredes, há composições cujas formas foram habilmente modificadas pelo próprio Levi, e que ele fez a partir do fio de cobre isolado e revestido com o verniz desenvolvido por ele, pare esse fim, em seu próprio laboratório. Uma dessas composições é uma grande borboleta de arame, e há ainda uma coruja de arame, um escaravelhozinho de arame, e, bem no alto da parede, por trás da escrivaninha, estão duas de suas maiores peças de arame: uma é um pássaro guerreiro armado com uma agulha de tricô; a outra, conforme Levi me explicou quando consegui distinguir o que ela representava, é “um homem limpando o nariz”.

— Um judeu, sugeri.

— É sim, um judeu, claro — disse ele, rindo.

A ENTREVISTA

Roth – Em The Periodic Table , seu livro que fala do “gosto forte e amargo” de sua experiência como químico, você fala de uma colega sua, a Giulia, que explica a sua “mania pelo trabalho” atribuindo-a ao fato de você, na casa dos vinte e poucos anos, ter sido um homem tímido ante as mulheres e não ter tido namorada. Mas ela estava enganada, creio eu. A sua verdadeira mania pelo trabalho vem de algo mais profundo. O trabalho parece ser seu tema obsessivo, até no seu livro sobre sua prisão em Auschwitz.

Arbeit Macht Frei ( O Trabalho Liberta ) — eram as palavras inscritas pelos nazistas sobre o portão de Auschwitz. Mas trabalhar em Auschwitz é uma horrorosa paródia do trabalho, inútil e sem sentido — o trabalho como castigo, conduzindo à morte em agonia. É possível visualizar todo o seu labor literário como algo dedicado a restituir ao trabalho o seu sentido humano, resgatar a palavra Arbeit do cinismo enganador com o qual os seus empregadores de Auschwitz a desfiguraram. Faussone diz a você: “Cada emprego que assumo é com um primeiro amor”. Agrada-lhe falar sobre seu quase tanto quanto lhe agrada trabalhar. Faussone é o Homem Operário que se torna verdadeiramente livre através de seu trabalho.

Levi – Não acho que Giulia estivesse errada ao atribuir minha paixão pelo trabalho ao fato de eu, naquela época, ser muito tímido em relação às moças. Essa timidez, ou inibição, era verdadeira, penosa e carregada, muito mais importante para mim do que a devoção ao trabalho. O trabalho na fábrica de Milão, que descrevi em The Periodic Table , era uma paródia em que eu não confiava. A catástrofe do armistício italiano de 8 de setembro de 1843 já estava no ar, e teria sido uma besteira ignorá-la, mergulhando-se numa atividade cientificamente insignificante.

Nunca tentei analisar seriamente essa minha timidez, mas não há dúvida que as leis raciais de Mussolini desempenharam aí um papel importante. Outros amigos judeus também sofreram com isso, alguns colegas “arianos”, na escola, divertiam-se conosco, diziam que a circuncisão não passava de castração, e nós, pelo menos em nível inconsciente, tendíamos a acreditar nisso, com a ajuda de nossas famílias puritanas. Acho que, naquela época, o trabalho foi, para mim, realmente uma compensação sexual, mais do que uma verdadeira paixão.

Apesar disso, tenho plena consciência de que, depois do campo, o meu trabalho, ou antes, os meus dois tipos de trabalho (a química e a literatura) desempenharam e ainda desempenham um papel essencial em minha vida. Estou convencido de que os seres humanos normais são biologicamente construídos para uma atividade que visa um objetivo, e que o trabalho estéril ou sem sentido (como o Arbeit de Auschwitz) causa o sofrimento e a atrofia. No meu caso, e no caso do meu alter ego Faussone, o trabalho se identifica com a “solução do problema”.

Em Auschwitz, observei muitas vezes um fenômeno curioso. A necessidade do lavoro ben fatto — o “trabalho feito corretamente” — é tão forte que induz as pessoas a se desincumbir “corretamente” até mesmo de um trabalho escravo. O pedreiro italiano que me salvou a vida, levando-me comida às escondidas durante seis meses, odiava os alemães, a comida deles, a língua deles, sua guerra; mas, quando o puseram para erguer paredes, ele as construiu firmes e sólidas, não por obediência, mas por dignidade profissional.

Roth – Survival in Auschwitz termina com um capítulo intitulado “A História de Dez Dias”, onde você descreve, na forma de diário, a maneira como aguentou de 18 a 27 de janeiro de 1945, no meio de um pequeno contingente de pacientes doentes e moribundos, na enfermaria provisória do campo, depois de os nazistas terem fugido para o Oeste, levando uns 20.000 prisioneiros “saudáveis”. O que se conta, ali, soa-me como a história de Robinson Crusoé no inferno, como você, Primo Levi, no papel do Crusoé, arrastando aquilo de que precisava para viver, arrancando-o ao que sobrou de uma ilha cruelmente má. O que me impressionou aí, assim como em todo o livro, foi a extensão em que o pensar contribuiu para a sua sobrevivência, o pensamento de um espírito prático, humano e científico. A sua não me parece uma sobrevivência que tenha sido determinada nem pela força biológica bruta nem por uma sorte incrível, mas sim que se alicerçava, ao contrário, no seu caráter profissional: o homem de precisão, o controlador de experiências que busca o princípio da ordem, e que se defronta com a perversa inversão de tudo aquilo a que ele dá valor. Não há a mínima dúvida de que você era uma parte numerada de uma máquina infernal, mas uma parte numerada com uma mente sistemática que sempre tem de entender. Em Auschwitz, você diz a si mesmo, “eu penso demais” para resistir, “eu sou civilizado demais”. Para mim, porém, o homem civilizado que pensa demais é inseparável do sobrevivente. O cientista e o sobrevivente são o mesmo.

Levi – Exatamente. Você acertou na mosca. Naqueles memoráveis dez dias, eu realmente me senti como Robinson Crusoé, mas com uma diferença importante. Crusoé se pôs a trabalhar para sua sobrevivência individual, enquanto eu e meus dois companheiros franceses queríamos consciente e jubilosamente trabalhar, afinal, por uma causa humana e justa, para salvar as vidas de nossos camaradas doentes.

Quanto à sobrevivência, é uma questão que me tenho colocado muitas vezes, e que muitos me têm colocado. Insisto em que não havia regra geral, exceto entrar no campo com boa saúde e saber alemão. Isso posto, a sorte predominava. Sobrevivi a gente muito esperta e a gente boba, a bravos e a covardes, a gente que “pensava” e a loucos. No meu caso, a sorte desempenhou um papel essencial em pelo menos duas ocasiões: fazendo-me conhecer o pedreiro italiano e fazendo-me ficar doente só uma vez, mas no momento exato.

Mas aquilo que você diz, de eu pensar e observar, eram fatores de sobrevivência, é verdade, embora na minha opinião o que prevalecesse fosse uma grande sorte. Lembro-me de ter passado aquele ano em Auschwitz num estado de espírito excepcional. Não sei se isso dependia de minha formação profissional, ou de uma insuspeitada dose de estamina, ou de um instinto sadio. Jamais deixei de me lembrar do mundo e das pessoas à minha volta, lembrava-me tanto que ainda tenho deles uma imagem incrivelmente detalhada. Eu tinha um desejo intenso de entender, era constantemente invadido por uma curiosidade que, na verdade, pode ser considerada como cínica, mas é a curiosidade do naturalista que se descobre transplantado para um ambiente monstruoso, sim, mas novo, monstruosamente novo.

Roth – Survival in Auschwtiz foi originalmente publicado em inglês como título de If This Is a Man (É isto um Homem), tradução literal de seu título em italiano, Se Questo E um Uomo (e que era o título que os seus primeiros editores americanos deviam ter tido o bom senso de conservar). A descrição e a análise de suas memórias atrozes da “gigantesca experiência biológica e social” dos alemães é regida, de maneira muito precisa, por uma preocupação quantitativa quanto às maneiras pelas quais pode-se transformar ou decompor um homem, como uma substância que se decompõe numa reação química, levando-o a perder suas propriedades características, If This Is a Man soa como as memórias de um teórico da bioquímica moral que tenha ele mesmo sido convincentemente relacionado como o espécime destinado a passar por uma experiência de laboratório do tipo mais sinistro. A criatura aprisionada no laboratório do cientista maluco é, ela própria, a própria epítome do cientista racional.

Em The Monkey ‘s Wrench — que devia precisamente ter recebido o título de This Is a Man — você diz que a Faussone, sua Scheherazade de macacão, que, “sendo um químico aos olhos do mundo, e sentindo… o sangue do escritor nas veias”, você consequentemente tem “no corpo duas almas, e isso é demais”. Eu diria que há uma alma, vasta e inconsútil; eu diria que não só o sobrevivente e o cientista são inseparáveis, mas que também o são o cientista e o escritor.

Levi – Mas do que uma pergunta, isso é um diagnóstico, que aceito e agradeço. Vivi minha vida no campo o mais racionalmente que pude, e escrevi Is This Is a Man numa luta para explicar aos outros e a mim mesmo os acontecimentos em que estive envolvido, mas sem nenhuma intenção literária definida. Meu modelo (ou, se você preferir, meu estilo) foi o do “relatório semanal” comumente usado em fábricas: tem de ser conciso, preciso e escrito numa linguagem que todo mundo entenda na hierarquia industrial. E, certamente, não escrito no jargão científico. Eu queria me tornar uma coisa, mas a guerra e o campo impediram-me. Tive de limitar-me a ser um técnico.

Concordo com você quanto a existir apenas “uma alma… e inconsútil”, e uma vez mais sinto-me grato a você. A minha afirmação de que “duas almas… é demais” é em parte uma piada, mas metade das insinuações são sérias. Trabalhei numa fábrica por quase trinta anos, e tenho de admitir que não existe incompatibilidade entre ser químico e ser escritor: na verdade, é um reforço mútuo. Mas a vida de fábrica, e em particular a vida de gerente de fábrica, envolve muitas outras questões, fora da química: contratar e despedir operários, discutir com o chefe, clientes e fornecedores; lidar com acidentes; ser chamado ao telefone, mesmo à noite ou numa festa; lidar com a burocracia; e muitas outras tarefas que destroem a alma. Todo esse negócio é brutalmente incompatível com o escrever. Em conseqüência, eu me senti enormemente aliviado quando cheguei à idade de me aposentar, e pude assim renunciar à minha alma número um.

Roth – A sua continuação de If This Is a Man ( The Reawakening , que infelizmente também recebeu outro título dos editores americanos) chamava-se, em italiano, La Tregua , a trégua. O livro trata de sua viagem de volta de Auschwitz para a Itália . Há, nessa jornada tortuosa, uma dimensão realmente legendária, principalmente quanto à história do seu longo período de gestação na União Soviética, enquanto você esperava ser repatriado. O que surpreende, em La Tregua , é que o relato, que poderia ter, compreensivelmente, se caracterizado por um estado de espírito de lamentação e desespero inconsolável, caracteriza-se ao contrário pela exuberância. A sua reconciliação com sua mulher ocorre num mundo que às vezes se afigurava a você como o Caos primordial. Mas você está tremendamente engajado com todos, tão profundamente divertido e instruído que eu me perguntava se, apesar da fome, do frio e dos medos, apesar ate das recordações, você teria realmente algum dia vivido uma época melhor do que aqueles meses que você chama de “um parêntesis de disponibilidade ilimitada, uma dádiva providencial mais irrepetível do destino”.

Você parece ser alguém cujas necessidades mais vitais exigem, acima de tudo, arraigamento — na profissão, na ancestralidade, na região, na língua — e no entanto, ao se descobrir tão sozinho e desenraizado quanto um homem pode estar, você considerou isso uma dádiva.

Levi – Um amigo meu, que é um excelente médico, me disse há muitos anos: “Suas recordações de antes e depois são em branco e preto; já as de Auschwitz e as de sua viagem de volta são em technicolor”. E ele tinha razão. A família, o lar, a fábrica são coisas boas em si mesmas, mas elas me privaram de algo que ainda sinto falta: aventura. O destino resolveu que eu devia encontrar a aventura na terrível desordem de uma Europa varrida pela guerra.

Você está no ramo, logo você sabe como essas coisas acontecem. A Trégua foi escrito quatorze anos depois de If This is a Man : é, portanto, um livro mais “autoconsciente”, mais metódico, mais literário. A linguagem é muito mais profundamente elaborada. Ele fala a verdade, mas uma verdade filtrada. Antes, eu contei cada aventura muitas vezes, a pessoas de níveis culturais muito diferentes (a amigos principalmente, e a alunos do colegial, de ambos os sexos), e, pelo caminho, fui retocando a narrativa de forma a despertar nos meus ouvintes as reações mais favoráveis. Quando If This Is a Man começou a alcançar certo sucesso, e eu comecei a antever algum futuro para a minha obra, pus-me em campo para botar essas aventuras no papel. Meu objetivo era divertir-me ao escrever e divertir meus leitores em perspectiva. Em conseqüência, enfatizei o exótico, o excêntrico, os episódios animados — principalmente quanto aos russos visto em close — e deixei para as primeiras e últimas páginas aquele estado de espírito de “lamentação e desespero inconsolável”, conforme você diz.

Quanto ao arraigamento , é verdade que eu tenho raízes profundas, que tive a sorte de não perdê-las. Minha família foi quase totalmente poupada ao extermínio nazistas, e hoje continuo a viver no mesmíssimo apartamento onde nasci. Essa escrivaninha aqui, onde escrevo, segundo a lenda da família ocupa exatamente o mesmo lugar onde um dia eu vim ao mundo. Quando me descobri “tão desarraizado quanto um homem poderia estar”, é claro, sofri, mas isso foi, depois, largamente compensado pelo meu fascínio pela aventura, pelos encontros humanos, pela doçura da “convalescença” da praga de Auschwitz. Em sua realidade histórica, minha “trégua” russa se transformou numa “dádiva” só muitos anos depois, quando a purifiquei, repensando-a e escrevendo a respeito.

Roth – If Not Now, When? não se parece com qualquer outra coisa sua que eu tenha lido em inglês. Embora nitidamente inspirado em fatos históricos reais, o livro parece um aventura sincera e picaresca de um pequeno bando de partisans judeus de extração russa e polonesa, dando uma canseira nos alemães para mantê-los atrás de suas frentes orientais. Talvez os seus outros livros sejam menos “imaginários” quanto ao tema, mas me calam mais fundo, me parecem mais criativos quanto à técnica. O motivo por trás de If Not Now, When? parece mais estreitamente tendencioso — e, consequentemente, menos liberador para o escritor — do que os impulsos que dão origem às obras autobiográficas.

Fico me perguntando se você concorda com isso — se, ao escrever sobre a bravura dos judeus que combateram, você sentia-se fazendo algo que devia fazer, isto é, você se sentia responsável por reivindicações políticas e sociais que necessariamente não intervém quando o tema é o seu próprio destino marcadamente judeu.

Levi – If Not Now, When? seguiu um rumo imprevisto. As motivações que me levaram a escrevê-lo foram múltiplas. Ei-las, por ordem de importância:

Eu fizera uma espécie de aposta comigo mesmo: vamos ver se, depois de escrever tanta autobiografia explícita ou disfarçada, você é mesmo um escritor capaz de voar, capaz de construir um romance, de dar forma aos personagens, de descrever paisagens que você nunca viu? Tente!

Eu pretendia divertir-me, escrevendo uma trama de Western , ambientada numa paisagem incomum na Itália. Pretendia divertir meus leitores, contando-lhes uma história substancialmente otimista, uma história de esperança, até mesmo ocasionalmente animada, embora projetada num pano de fundo de massacre.

Eu desejava atacar um lugar comum que ainda prevalecia na Itália: o de que o judeu é uma pessoa branda, um estudioso (religioso ou profano), não belicoso, humilhado, que tolerou séculos de perseguição sem jamais lutar contra isso. Parecia-me que eu tinha o dever de prestar homenagem aos judeus que, em condições desesperadas, descobriram-se com coragem e capacidade de resistir.

Acalentei a ambição de ser o primeiro (e talvez o único) italiano, na condição de escritor, a descrever o mundo ídish. Eu pretendia “explorar” minha popularidade em meu país, para impor aos meus leitores um livro centrado na civilização Ashkenazi, em sua história, em sua língua e em sua disposição de espírito, coisas essas virtualmente desconhecidas na Itália, exceto para alguns leitores mais sofisticados de Joseph Roth (o romancista austríaco falecido em 1939), Bellow, Singer, Malamud, Potok e, claro, você.

Pessoalmente, esse livro me satisfaz, principalmente porque me divertiu bastante planejá-lo e escrevê-lo. Pela primeira e única vez na minha vida de escritor, tive a impressão(quase uma alucinação) de que meus personagens estavam vivos, à minha volta, às minhas costas, sugerindo espontaneamente suas próprias ações e diálogos. O ano que passei escrevendo-o foi um ano feliz, e assim sendo, seja qual tenha sido o resultado, para mim, esse foi um livro libertador.

Roth – Afinal, vamos falar da fábrica de tintas. Na sua época, muitos escritores trabalharam como professores, alguns como jornalistas, e a maioria dos escritores com mais de cinqüenta anos arranjaram emprego como soldado deste ou daquele, pelo menos temporariamente. É significativa a lista de escritores que se dedicaram simultaneamente à medicina e à literatura, e de outros que foram ministros ou padres. T. S. Eliot era editor, e todo mundo sabe que Wallace Stevens e Franz Kafka trabalhavam para grandes companhias de seguros. Ao que eu saiba, só dois escritores importantes foram um dia gerentes de fábricas de tinta, você em Turim, na Itália, e Sherwood Anderson em Elvria, no Ohio. Anderson teve de fugir da fábrica, e da família, para se tornar escritor; ao passo que você parece ter-se tornado o escritor que é justamente por ter ficado na fábrica e seguido sua carreira ali. Fico imaginando se você se considera realmente afortunado — e até melhor equipado para escrever — do que aqueles de nós que não passamos pela experiência de uma fábrica de tintas e tudo o que isso implica.

Levi – Conforme já disse, entrei na indústria de tintas por acaso, mas nunca tive muito a ver com a rotina geral da produção de tintas, vernizes e lacas. Nossa firma, logo depois de iniciar suas atividades, especializou-se na produção de esmaltes metálicos, revestimentos isolantes para condutores elétricos de cobre. No auge da minha carreira, eu me incluía entre os 30 ou 40 especialistas do mundo nesse ramo. Os bichos aí da parede são feitos de sucata de arame esmaltado.

Honestamente, eu não sabia nada sobre Sherwood Anderson até você falar nele. Não, jamais me ocorreu abandonar a família e a fábrica para ser escritor em tempo integral, como ele fez. Eu teria medo do salto no escuro e teria perdido todo o direito a uma aposentadoria legal.

No entanto, vou acrescentar à sua lista um terceiro nome de escritor fabricante de tintas, que é o Italo Svevo, um judeu convertido de Trieste, autor de As Confissões de Zeno [publicado pela Nova Fronteira como A Consciência de Zeno ], que viveu de 1861 a 1928. Durante muito tempo, Svevo foi gerente comercial de uma firma de tintas em Trieste. Essa indústria era do sogro dele, e dissolveu-se há alguns anos. Até 1918, Trieste pertenceu à Áustria, e essa companhia ficou famosa porque fornecia à Marinha austríaca uma excelente tinta antiferrugem, que evitava a incrustação de craca nas quilhas dos vasos de guerra. Depois de 1918, Trieste passou a ser italiana, e a tinta foi liberada também as marinhas da Itália e da Inglaterra. Para poder lidar com o pessoal do almirantado, Svevo tomou lições de inglês com James Joyce, que na época lecionava em Trieste. Eles ficavam amigos, e Joyce ajudou Svevo a encontrar editor para seus livros.

O nome comercial da tinta antiferrugem era Moravia. O fato de ser o mesmo nome do famoso romancista italiano (Alberto Moravia) não é mero acaso: tanto o industrial de Trieste quanto o escritor romano tiraram-no de um parente comum pelo lado materno. Perdoe-me por essa fofoquinha meio impertinente. Não, não, conforme já insinuei, eu não me lamento de nada. Não acredito que tenha perdido tempo na fábrica. Minha militanza fabril — meu serviço compulsório e respeitável ali — me manteve em contato com o mundo das coisas reais.

------------------------

Fontes 

O Estado de S. Paulo”, caderno “Cultura”, de 3 de janeiro de 1987, nº 342, páginas 10, 11 e 12;

Jornal Opção (https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/grande-entrevista-que-philip-roth-fez-com-o-escritor-italiano-primo-levi-5787/).

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Dueto

 

Eu descia a avenida Borges de Medeiros e ela subia. Levava uma sacola de lixo nas costas. Vestia uns trapos. Cabelo raspado, com muitas falhas. Parecia louca. Daquele tipo de doida que ninguém tem tempo para ajudar ou cuidar. Ela cantarolava uma canção. Quando chegou bem perto de mim, estava no refrão.

"Meu filho, Deus que lhe proteja...".

"E onde quer que esteja, eu rezo por você", complementei.

Ela ficou surpresa e seguiu para o próximo verso. 

"Adoro ver você sorrindo..."

"Seu sorriso faz de tudo eu esquecer", encerrei.

Foi bonito de ver. Sorrimos, mas não trocamos palavras. Ela seguiu pela Borges de Medeiros, interpretando o que restava da música. Eu empaquei na calçada. Olhei ao redor. Esperava que alguém tivesse notado, mas ninguém deu a mínima para nosso dueto.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

O vendedor de redes


Era meio-dia. Ele entrou no Bar Fontana pisando firme e já foi logo dizendo assim.

- Confia em mim?
- Claro que não - respondeu o dono.

Mesmo com a negativa, o homem escolheu uma mesa e foi sentando. 

- Me vê um ala minuta. 
- 27 reais.
- Te pago amanhã.
- Então, amanhã tu vem.
- Não faz assim... Tu sabe que pago. 
- Sei..
- Pago sim. Hoje, tá ruim as vendas.
- Mas tu quer vender rede em Porto Alegre! E no inverno! E ainda queria que as vendas tivessem boas?!
- Tu sabe que vendo. E sabe que eu pago. Amanhã, sem falta.

O dono deu as costas. Comentou com outro cliente.

- Ele quer vender rede em julho. Tá cinco graus na rua...

O cliente sorriu sem jeito. Não sabia se concordava ou não.

- Neide! Faz um ala minuta de carne - gritou o proprietário do Fontana. 
- E com ovo bem passado, Neide! - complementou o vendedor de redes.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Deixa esse fascismo


Deixe esse Fascismo 

E vem dançar comigo


Você é tão politizada

Não tem tempo pra nada


Estuda Ciências Socias na Federal

E não tem namorada


Faz de conta que estamos em guerra

Ou numa revolução armada


E o mundo vai acabar

Se você não dançar

quarta-feira, 24 de junho de 2026

A grandeza do sacríficio

 


Abracei minha filha quando ela estava morta

Não abracei antes 

Quando ela estava viva

Porque era adulta

E não parecia prudente

Nem necessário


Agora, quando a abracei 

Tive a impressão de se tratar de uma menina, pequenina

Que tinha frio

Porque não entendia que estamos num rigoroso inverno

E precisava de mais roupas

E do calor do meu abraço

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Fogo Morto - Trecho

 


O boleeiro vinha deixar as almofadas de seda para os joelhos da família do Santa Fé. O negro entrava na igreja com orgulho, com ufania. Ajoelhava-se no altar-mor, e depois de deixar no ladrilho as três almofadas, voltava para a porta de entrada, e de longe, como se quisesse mostrar que era negro, pobre negro de seu coronel Lula de Holanda, assistia à sua missa. Os senhores ficavam mais perto de Deus. Eles é que podiam ter aquele luxo, aquela intimidade de mais perto com o Todo-Poderoso, com o grande do céu. Seu Lula ouvia a missa inteira ajoelhado, batendo com os beiços, com o rosário entre as mãos. Parecia, com aquela barba quase branca, com aquele olhar baço, um frade da Penha à paisana. O povo achava tudo aquilo uma hipocrisia. Era ele o maior unha-de-fome da várzea, o senhor que só dormia bem quando tinha negro no tronco, que derramava sangue de negro nas pisas de arrancar couro, que vinha rezar daquele jeito, como um puro, um coração limpo, uma alma de santo. Na porta de lado da igreja ficava o cabriolé, que os moleques cercavam como se nunca o tivessem visto. Os cavalos já não eram aqueles dois belos cavalos ruços, que pareciam de história de Trancoso. A nova parelha do cabriolé não apresentava aquela beleza de antigamente. Eram dois pobres quartaus, que podiam ser bem duas bestas de carga. Em todo o caso teriam força bastante para arrastar a família do Santa Fé pelas estradas.

------------------------------ 

Trecho de Fogo Morto, romance de José Lins do Rego