quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Respondendo a dúvida de uma futura escritora

Ela me contatou nas redes sociais e me questionou.  

"Como tu faz para escrever? Como tu começou? Como tu define o gênero do que pretende escrever? E, por fim, como encontrou uma editora para publicar teus livros?". 

Vamos começar pelo começo. Pra mim, o que funciona primeiro é a raiva, o ódio, a tristeza, ficar impressionado com algo... É o sentimento. Depois, é questão de escrever mesmo. Raramente penso no formato. Se aquele jorro vai ser um conto, uma poesia, um romance ou uma crônica (se é que vai se enquadrar em algo predeterminado). Tenho que resolver a questão com aquilo que preciso escrever, sem pensar em formas, plataformas ou leitores. Quando concluo o primeiro rascunho, busco dar um tempo, pra ver se aquilo presta ou é só uma bobagem. Se acho que funciona, vou trabalhando naquilo até me cansar, me anojar. Daí, é porque tá pronto. Ponto final.  

Aí, é pensar se vale ou não publicar. Quase sempre acho que vale. Papel, geralmente, aceita tudo. 

Com meus livros, a coisa funcionou porque já tinha muito texto em rede social, projeto Poemas nos Ônibus aqui na cidade, participações em diversas coletâneas e revistas literárias etc. Ou seja, eu já vinha testando caminhos e buscando ser lido. Não tinha vergonha, nem tanto medo de ser criticado. Aí, encontrei uma editora em Minas Gerais. Coisa de boca a boca mesmo. Após o primeiro livro, fica tudo mais fácil pra publicar.  

Mas é muito difícil, num primeiro livro, encontrar uma editora. E, além disso, uma editora que banque os custos. Na maioria dos casos, o autor banca sua edição. E isso já frustra grande parte dos novos autores. O glamour se vai logo no começo, porque se gasta um valor considerável do próprio bolso. Outro ponto que afeta a vaidade de quem escreve é que existe uma alta chance do autor iniciante não ter visibilidade, porque existe um meio, um mercado, uma ampla competição por atenção.  

É preciso estar ciente do fracasso.  

Dosar a expectativa e estar convicto quanto o próprio trabalho é o que me alenta, atualmente. Afinal, não existe alguém que balize o meu trabalho. Não tenho a academia, não tenho a imprensa, não tenho o boca a boca. Tenho, apenas, que seguir com minha Literatura nesse contexto. Nessa solidão avassaladora. Falando sozinho, baixinho.  

Enquanto tiver voz, será assim.  

Como disse no começo: pra mim, funciona dessa forma. 

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Conhecendo o Cazaquistão

Era 23h45, quando ele me acordou. 

- Pai, o Cazaquistão fica em qual continente?
- Não sei, filho...
- Vamos pesquisar. 

Olhei o celular para ver as horas.

- Tá muito tarde. Amanhã, tu pergunta para tua professora e descobre.  

O guri não gostou, mas concordou e voltou pra cama. Quando o busquei na escola, ele foi prontamente me dizendo. 

- O Cazaquistão fica maior parte na Ásia e uma parte menor na Europa.
- Hum, interessante! Tu perguntou para tua professora?
- Não. 
- Ué, como tu sabe?
- Perguntei para o autista. 
- Que autista?
- Temos um colega autista. Ele sabe um monte de coisa. Ele sabe mais de geografia que a professora.
- Legal, filho.
- E o maior jogador de futebol da história do Cazaquistão, tu sabe quem é?
- Mas jogam futebol no Cazaquistão?
- Claro que jogam, pai. Existem mais seleções de futebol que países no mundo.
- Não brinca?!
- Sim. Sabe ou não sabe o craque do Cazaquistão?
- Não sei.
- Então, vamos pesquisar. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Consolo


Fazia muito tempo que ela não dava o cu. Tanto tempo, que nem lembrava a sensação e as consequências. Suas pregas ficaram doloridas e com ardência durante dias. Contudo, a sensação durante o ato – e após – foi ótima. Teve de passar a pomada para assaduras do seu netinho por uma semana. Mesmo assim, estava feliz. Sabia que deveria fugir das tentações. Também sabia que era impossível se manter longe delas. Seu filho estava no Presídio Central por isso. Vivia sem companheiros há um bom tempo pelo mesmo motivo. Tentações. O vasto mundo e seus descaminhos.  

- Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne. Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne – declamou o pastor, empunhando a Bíblia Sagrada.  

Foi o único trecho do culto o qual prestou atenção. Aquilo não fazia o menor sentido. Quanta bobagem, meu Deus! O que essa gente toda tem na cabeça? Não retornaria mais à Assembleia de Deus.  

Voltou a usar seu consolo à noite. Depois que o netinho dormia, sua nora ia para o quarto e a casa se calava. Parecia programado. Ela sentia um calor e uma coceira. Buscava a peça no fundo do guarda-roupa. Introjetava aos poucos e ia agilizando os movimentos. Até que sentia uma onda preencher seu corpo e um tremor incontrolável. Pronto. O sono era melhor, mais pesado. Quando despertava, esquecia o que havia sonhado. Muito provável que teria sonhado com seu patrão. Aquele homem havia balançado suas estruturas.  

Contou tudo o que se passava a amiga. Ouviu dela que era uma loucura, que estava vivendo em pecado e uma aventura adolescente. Transar com o chefe era uma insanidade. Que ficasse só no brinquedo sexual. Citou o ditado que onde se ganha o pão, não se come a carne. Comentou que isso poderia estragar a relação de trabalho e outras obviedades. Mas qual era o problema, afinal? Era adulta, pagava suas contas. Tinha seus problemas. E esses eram seus. Transar por transar não era um deles. E tampouco era seu. Era do seu patrão. O casado era ele.  

- Se tu vê assim... – contemporizava a amiga.  

E isso lhe dava ânimo para contar as peripécias sexuais que estava aprontando. Se refestelava na janela aberta, no chão, escorada na pia da cozinha, na cama do casal, na escada do prédio... Revirava o homem do avesso. Não era submissa. Enfiava os dedos nele. Fazia-o lamber onde quisesse. Se cuspiam na cara. Se ofendiam. Se tapeavam. Se alguém pudesse assistir as cenas, veria uma mulher atarracada, bunda grande, canelas grossas, mãos calejadas e ágeis, peitos pequenos e de bicos graúdos, braços roliços, cabelo duro e curto, língua inquieta, cintura elétrica, ventre macio. Ela era assim. E ele um completo desengonçado. Alto demais, magro demais, calvo, sempre com fome, mãos grandes e uma boca carnuda, que ficaria bonita em uma mulher. Quando eles se cansavam, conversavam sobre banalidades. Temas diversos. Seu filho preso, suas famílias, acontecimentos repercutidos no noticiário, seus respectivos trabalhos – ela fazia faxina em outros apartamentos e casas da região. Tinham uma boa relação.  

- Se tu vê assim... – repetia a amiga.
- Por que tu diz isso? Estou fazendo algo de errado por acaso? Fala o que tu pensa de verdade – provocava a faxineira.  

E a amiga retrucava. Citava a bíblia, Deus, pecado. 

- E tu não peca? Nunca pecou? Tu é uma santa, por acaso?! Eu te conheço muito bem! – esbravejava.  

E a conversa tomava um rumo estranho. Em respeito, a confidente se calava e afirmava que não estava julgando ninguém. Só dizia o que pensava sobre o caso, pois eram amigas. Arranjava uma desculpa para encerrar o assunto e até mais ver.   

Foram anos de luxúria. Na última relação, ela montava sobre ele. Sentia tudo dentro de si. Estava preenchida. Decidiu aumentar a velocidade, esperando que ele se entregasse. Seu corpo parecia flutuar. Vivia um sonho. E enquanto sonhava, pressentiu o calor. Ele tentou tirar, queria colocar na sua boca. Ela o manteve ali. Controlava-o. O homem estava entregue.  

- Te amo...  

Foi um susto. Como acordar com um Sol na cara. Ela não tinha certeza se aquilo tinha saído da sua boca. Então, repetiu.  

- Te amo.  

Ele não respondeu. Apenas, saiu dela.  

- Cuida para não pingar no lençol.  

Falou como um chefe, que pede algo para uma funcionária. Deu as costas e foi ao banheiro. Era um chefe encerrando uma reunião. Ela no meio da cama, nua, perplexa, com o líquido escorrendo das coxas e molhando o lençol.  

- Às vezes, eu penso que tu só me usa para fazer o que tua mulher não faz.
- E quem te disse que minha mulher não faz?
- Não sei... Eu só acho.
- Deixa de bobagem. Ninguém está usando ninguém. Ou é o contrário. Nós estamos usando um ao outro. 

Ele estava certo. Havia um acordo tácito entre eles. Sempre houve. Ninguém tinha o que se queixar ou no que se prender. Por isso, decidiu – ali, naquela hora – abandonar a casa. Não seria um mero objeto de luxúria. Não era um consolo. O que ela era? Não sabia e nem queria mais saber. Ele que arranjasse uma outra faxineira e uma outra amante.  

Mais uma vez, relatou tudo para a amiga e se desculpou pelas frases duras no período. Retomaria sua vida de jovem senhora. Tinha um neto, um filho preso e uma nora para cuidar. Preocupações e ocupações. Retornou aos cultos da Assembleia de Deus.  

- Todo o pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que fornica peca contra o seu próprio corpo. Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos? – alertou o pastor.  

E ela, atenta e forte, concordou com tudo. Deus estava certo. 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Na Pior em Paris e Londres - George Orwell

 


Tipos esquisitos era o mais comum por ali. Os bairros pobres de Paris são ponto de encontro de pessoas excêntricas - gente que caiu em trilhas solitárias e meio malucas da vida e desistiu de tentar ser normal ou decente. A pobreza liberta dos padrões usuais de comportamento, assim como o dinheiro liberta as pessoas do trabalho.

(...)

Seria interessante escrever algumas dessas biografias, se alguém tivesse tempo. Tento descrever as pessoas de nosso bairro não por mera curiosidade, mas porque fazem parte dessa história. A pobreza é o meu tema, e foi nesse bairro miserável que tive meu primeiro contato com ela. O bairro miserável com sua imundície e suas vidas incomuns, foi minha primeira lição prática de pobreza e, depois, a base de minhas experiências. Por isso tento mostrar como era a vida ali. 

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Trecho de Na Pior em Paris e Londres, de George Orwell.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Dúvida eleitoral


Três velhas no restaurante. Falavam de suas doenças, suas famílias e de suas amigas que faleceram. Quando os assuntos arrefeceram, uma delas perguntou.


- E o Zucco ein?
- Que Zucco?
- O candidato a governador.
- Não conheço.
- É dos nossos. Bolsonarista. Fez carreira na Brigada Militar. Vou votar nele.
- Bom saber! E para deputado estadual?
- Aí, vou de Adolfo Brito.
- Esse eu conheço. E federal?
- Juliana Leite.
- Quem é essa?
- Ela é de São Paulo. Acompanho pelo Instagram – e mostrou a tela do celular, com a rede social da candidata. - Tá aqui ela, ó!
- Mas ela é candidata pelo nosso Estado?
- É por São Paulo. Mas como vai a federal, vou votar nela.
- Como assim? Tem que ser daqui.
- Não precisa ser gaúcho ou gaúcha pra concorrer a federal. Federal pode escolher alguém de qualquer lugar do país.
- Não pode, não – disse a terceira velha, que estava quieta o tempo todo e comia um pudim. - Pode ter nascido em qualquer lugar, mas tem que ter sua candidatura pelo Rio Grande do Sul.
- Ah, que pena! Achei que podia... Então, pra federal vou ter que ver em quem vou votar.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A enchente

 


1 

A penúltima vez que eles conversaram, de fato, foi durante o velório do pai de um amigo. A proximidade da morte fez Luciane repensar algumas coisas da vida. Estavam no corredor de uma das capelas do cemitério São Miguel e falavam amenidades, quando Luciane mudou de assunto.  

- Lucas, eu queria te pedir desculpas.
- Por quê?
- Pela tua saída da empresa. Acredito que fui a culpada por tudo que aconteceu contigo. Não soube conduzir bem as coisas.
- Eu acho que tu foi culpada, mas não precisa se desculpar. Não acredito que tenha sido por maldade ou algo premeditado da tua parte.
- Não foi mesmo... Mas tu estava há dez anos com a gente. E tua saída só piorou as coisas pra todo mundo que ficou.   
- Tudo bem. Acontece. Pensa que tu errou tentando acertar.  

Lucas lembrou dessa conversa agora. Luciane estava a sua frente, sentada em uma arquibancada fria de cimento. Frágil e pálida não parecia a mulher destemida que buscou varrer para fora todos os funcionários incompetentes, acomodados ou desatualizados da empresa.  

2 

Desde que o mundo é mundo, o ser humano tem a pretensão de domar a Natureza. Veja o nosso caso em Porto Alegre. Uma enchente destruiu a nossa cidade, com dezenas de mortes e desaparecimentos. Empreendimentos, moradias e sonhos destruídos pela força das águas. Não há consolo possível...   

O recado da Natureza não pode ter sido mais claro. A nossa cidade não é nossa. É dela e de suas águas. Pouco importa o debate dos homens, que buscam culpados pela catástrofe. A Natureza segue seu fluxo.  

A enchente escancarou essa tragédia humana, que é em tentar domesticar o que não pode ser domesticado. Aviso não faltou! Como o caso da ponte que foi levada pela correnteza, no ano passado. Bastou um breve período de calmaria e foram lá e ergueram uma nova, no mesmo lugar. Por necessidade e até de forma instintiva.  

O que fez a Natureza? Voltou a derrubá-la.   

Os governantes e a sociedade lutam para ludibriar a Natureza, reconstruindo pontes, estradas, casas e projetando sistemas para conter quem de fato é a dona das terras. Desenham grandes obras de engenharia, como muralhas e diques. Prometem e planejam uma revolução. Essa cruzada tem só um objetivo: não ceder ou se dobrar aos caprichos da Natureza.   

A fé dos homens é comovente e patética. Porém, é digna de um Sísifo. Vocês conhecem Sísifo? Sísifo, na mitologia grega, foi condenado pelos deuses a empurrar eternamente uma pedra até o topo de uma colina, apenas para vê-la rolar de volta.  

Esse é o destino dos homens! É sobre essa teimosia que estou falando. Cito aqui o caso de um padre da Ilha da Pintada. Para ele é indiferente o número de alagamentos ou desastres que aconteceram e ainda possam vir a ocorrer. Ele disse que jamais sairá de lá. O pároco não clamou aos céus por um milagre e, sim, bradou e rogou por uma solução terrena.  

Essa tal solução já está posta: basta respeitar a Natureza. É isso que todo mundo aqui precisa entender! 

Assim, o homem encerrou seu discurso. Estava no centro de uma quadra de futebol de salão e ninguém ali lhe dava a mínima. O ginásio não era mais usado para a prática de esportes e, sim, servia de abrigo para os flagelados da enchente que assolou Porto Alegre.  

3 

Era 6 de maio de 2024. Lucas sabia bem a data porque, há 20 anos, conhecera sua esposa. Dias antes, ele escreveu na sua agenda: comprar flores para Marília. A ideia era fazer algo bem piegas e banal. Mandar um buquê para seu trabalho. Escrever uma mensagem carinhosa em um cartão. Dizer que a amava.  

Porém, ele não comprou flores, nem mandou ninguém entregar nada, tampouco escreveu carta ou bilhete. Porque estava na própria casa, com seus filhos e a cidade sofria a pior catástrofe de sua história. Foi questão de dias. Porto Alegre estava inundada. Não deu tempo de fazer as malas. Foram o casal, as crianças e os gatos em um barco. Onde era rua, virou rio.  

Era madrugada, não era mais dia 6 de maio. Os pequenos dormiam em um espaço improvisado do ginásio. Não entendiam direito o que se passava. Lucas e Marília não tinham muito o que conversar. Entretanto, Lucas perguntou se ela lembrava que até bem pouco tinha sido 6 de maio. Ela disse que sim.   

4  

Luciane e Vicente eram proeminentes em suas profissões. Ela, head de relações institucionais de um instituto renomado. Ele, ceo de uma empresa conceituada. Seus ambiciosos caminhos se cruzaram porque pessoas ambiciosas acabam se encontrando em Porto Alegre. Seja nos restaurantes panorâmicos da Orla do Guaíba, seja nas ruas do Moinhos de Vento, seja nos bares do Quarto Distrito ou em uma palestra ministrada por uma pessoa bem-sucedida qualquer. Formavam uma parceria inevitável. 

Luciane e Vicente tinham uma grande dedicação para os seus respectivos trabalhos. Eram um casal com essa afinidade e gozavam de uma boa reputação por isso. Seus cargos e suas atribuições os aproximavam das zonas de poder da cidade. Tinham trânsito livre com quem tem a chave para abrir as portas necessárias.  

Por esses motivos, Luciane não pensava em ser mãe. Ou melhor, pensava sim. Porém, quando sentisse que sua vida poderia parar um pouco. No momento, onde o futuro filho – de nome Bento ou Noah, no caso de menino; Valentina ou Lavínia, se menina – não fosse um estorvo para a sua carreira profissional. Para ela, esse processo, basicamente, se resumia a ser mãe após os 40 anos. Vicente estava de acordo.

Então, Luciane chegou aos 40 e resolveu ser mãe, conforme o esperado. Foram dois anos de tentativas frustradas. Algo inédito para duas pessoas bem-sucedidas em tudo que empreendiam.  

- A senhora precisa entender que existe um declínio natural da reserva ovariana, que impacta diretamente a quantidade e a qualidade dos óvulos. Não se trata de culpa sua, é uma questão natural – explicou o doutor. 

Luciane e Vicente seguiram tentando e investindo no que havia disponível pela Medicina. Durante esse período infértil, Luciane entendeu que já não gostava mais de Vicente, que seu trabalho não tinha a menor relevância e toda sua doação foi infrutífera, pois não poderia ser mãe. Era nisso que Luciane, agora, sentada numa arquibancada fria de cimento de um ginásio pensava. O que menos lhe afligia era a enchente.  

5 

- Oi, tia! - disse a menininha, que tirou Luciane do seu torpor. 
- Oi!
- Tu quer? - perguntou a criança, oferecendo uma banana mordida.
- Não, querida. Muito obrigada. A tia tá sem fome.
- Tu não gosta de banana?
- Eu gosto, sim. Mas agora não consigo comer nada.
- Meu irmão, o Murilo, também não come nada. 
- Ah, é? E qual o teu nome?
- Sofia.
- Que nome lindo! Cadê teu papai e tua mamãe?
- Meu pai tá ali. 

Prontamente, Luciane se lembrou de Lucas. Cumprimentaram-se com um abraço efusivo e carinhoso. Era bom ver um conhecido naquela situação. Não que alguém desejasse isso de verdade, mas estar diante de um amigo, em um abrigo público, ajudava.  

Em questão de dias, a água baixaria, e tanto Lucas, quanto Luciane, voltariam para suas casas e reconstruiriam suas vidas.  

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Um dia esperando - conto de Ernest Hemingway


UM DIA ESPERANDO

Ele entrou no quarto para fechar as janelas quando ainda estávamos na cama e vi que ele estava doente. Tremia, tinha o rosto branco e caminhava devagar como se sentisse dor com o movimento.

— O que é que há, Schatz?

— Dor de cabeça.

— É melhor deitar.

— Não. Logo passa.

— Vá se deitar. Vejo você quando me vestir.

Mas, quando desci, ele estava vestido, sentado ao pé do fogo, um menino de nove anos com ar de muito doente e infeliz. Pus a mão na testa dele, senti que tinha febre.

— Vá se deitar. Você está doente — disse eu.

— Estou bem — disse ele.

O médico chegou e tomou a temperatura do menino.

— Quanto? — perguntei.

— Cento e dois.

O médico deixou três remédios diferentes em cápsulas de cores diferentes com instruções para tomar. Um era para baixar a febre, outro um purgativo, o terceiro para combater a acidez. O vírus da gripe só pode existir em condição de acidez, explicou o médico. Parecia saber tudo sobre influenza, e disse que não havia motivo de preocupação se a febre não passasse de cento e quatro graus. Tratava-se de uma epidemia branda de influenza sem maior perigo desde que se evitasse a pneumonia.

De volta ao quarto anotei a temperatura do menino e também o horário de dar-lhe os remédios.

— Quer que eu leia para você?

— Se quiser — falou o menino. O rosto dele estava muito branco, e havia manchas escuras abaixo dos olhos. Estava imóvel na cama e parecia desligado do que se passava em volta.

Li trechos do Livro dos piratas, de Howard Pyle; mas ele não acompanhava a minha leitura.

— Como se sente, Schatz? — perguntei.

— O mesmo até agora — respondeu.

Sentei-me aos pés da cama e li para mim enquanto esperava a hora de dar outra cápsula ao doente. Seria natural ele dormir, mas quando olhei ele fitava os pés da cama com um olhar muito estranho.

— Por que não tenta dormir? Acordo você na hora do remédio.

— Prefiro ficar acordado.

Passado um tempo ele me disse:

— Não precisa ficar comigo, papai, se for sacrifício.

— Não é sacrifício.

— Eu disse que não precisa ficar se for incômodo para o senhor.

Tive a impressão de que ele delirava um pouco e, depois de dar-lhe as cápsulas às onze horas, saí um pouco.

Era um dia claro e frio, o chão coberto de uma névoa congelada que dava a impressão de estarem as árvores peladas, e os arbustos, a grama e todo o chão polido com gelo. Levei o setter irlandês para um passeio pela estrada até a margem de um riacho congelado, mas era difícil ficar em pé ou caminhar na superfície, e o cachorrinho vermelho escorregava e deslizava, e eu mesmo caí duas vezes e numa delas derrubei a espingarda, que deslizou para longe no gelo.

Espantamos uma ninhada de codornizes de um barranco alto, e acertei duas quando fugiam para além do barranco. Algumas pousaram em árvores, mas a maioria se espalhou no mato, e foi-lhes preciso pular nos montículos cobertos de gelo antes de conseguirem voar. Sem firmeza para os pés em cima do gelo era difícil atirar e acertar; matei duas, errei cinco e voltei satisfeito de ter encontrado uma ninhada tão perto de casa, e satisfeito também de ver que havia muitas outras para serem achadas em outro dia.

Em casa fiquei sabendo que o menino não quis que ninguém entrasse no quarto. Não queria que apanhassem a doença dele.

Subi ao quarto e encontrei-o na mesma posição de quando o havia deixado, o rosto branco, mas o alto das faces corado da febre. Ainda olhava de olhos arregalados para os pés da cama.

Tomei a temperatura.

— Quanto?

— Por volta de cem. Eram cento e dois e quatro décimos.

— Cento e dois — disse ele.

— Quem disse?

— O médico.

— A temperatura está sob controle. Não há motivo para preocupação.

— Não estou preocupado, mas não posso deixar de pensar.

— Não pense. Relaxe.

— Estou tentando relaxar — disse ele, e olhou para a frente.

Estava evidentemente se apegando a alguma coisa dentro dele.

— Tome isto com água.

— Acha que vai me fazer bem?

— Claro que vai.

Sentei-me e abri o Livro dos piratas e comecei a ler, mas ele não acompanhava; então parei.

— A que horas acha que vou morrer? — perguntou ele.

— O quê?

— Quanto tempo falta para eu morrer?

— Você não vai morrer. O que é que há com você?

— Vou, sim. Ouvi ele dizer cento e dois.

— Ninguém morre com febre de cento e dois graus. Que conversa mais idiota.

— Morre, sim. Na escola na França os meninos me disseram que não se pode viver com quarenta e quatro graus. Estou com cento e dois.

O dia inteiro ele esperou morrer, desde as nove da manhã.

— Meu pobre Schatz. Meu pobre Schatz, é como milhas e quilômetros — disse eu. — Você não vai morrer. Este termômetro é diferente. Naquele termômetro lá, trinta e sete é normal. Neste, o normal é noventa e oito.

— Tem certeza?

— Absoluta. É como milhas e quilômetros. Sabe quantos quilômetros fazemos quando o carro marca setenta milhas?

— Ah.

Mas o olhar dele para os pés da cama demorou a se relaxar. A tensão interior dele também se relaxou vagarosamente, e no dia seguinte ele estava descontraído e chorava fácil com coisas pequeninas que não tinham a menor importância.

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Esse conto de Ernest Hemingway foi publicado no livro Winner Take Nothing (1933). No Brasil saiu em Contos - Volume 1 (editora Bertrand Brasil, 2015).