Eu descia a avenida Borges de Medeiros e ela subia. Levava uma sacola de lixo nas costas. Vestia uns trapos. Cabelo raspado, com muitas falhas. Parecia louca. Daquele tipo de doida que ninguém tem tempo para ajudar ou cuidar. Ela cantarolava uma canção. Quando chegou bem perto de mim, estava no refrão.
"Meu filho, Deus que lhe proteja...".
"E onde quer que esteja, eu rezo por você", complementei.
Ela ficou surpresa e seguiu para o próximo verso.
"Adoro ver você sorrindo..."
"Seu sorriso faz de tudo eu esquecer", encerrei.
Foi bonito de ver. Sorrimos, mas não trocamos palavras. Ela seguiu pela Borges de Medeiros, interpretando o que restava da música. Eu empaquei na calçada. Olhei ao redor. Esperava que alguém tivesse notado, mas ninguém deu a mínima para nosso dueto.

