quinta-feira, 30 de abril de 2026

As palavras bem ditas

Por que você faz isso? Por que perde tempo com isso? Não me é uma pergunta recorrente. Pouca gente se importa, na verdade. Literatura, de modo geral, é irrelevante. Mas a resposta é porque escrevo desde sempre. Ou desde que tenho uma memória bem viva de tudo que me rodeia. Acontece que a questão me veio. Porque fiz um texto para o meu trabalho. Não era um tipo de texto que comumente se registra como Literatura. Ou seja, não foi um texto gratuito, artístico. Foi um texto profissional. Feito sob encomenda. Esse também é o meu trabalho e minha vida. E esse tipo conteúdo - hoje chamam textos profissionais de conteúdo - é frio. É como bater ponto. É como fazer arroz e feijão. É como tomar um copo d'água. É uma obrigação. Não tem graça. O conteúdo ficou ao agrado de quem o encomendou. "Pra mim, está perfeito", disse a chefia. Talvez, eu seja o funcionário do mês... Seu conteúdo - aí, sim, o termo cabe - foi lido por um mestre de cerimônias, com uma bela e potente voz, em um evento triste, ecumênico. Não teria minha assinatura. Nem a de ninguém. Era um texto em um evento simbólico. E só. Sem um homem por trás. Um texto de um fantasma. Talvez, poderia ter sido feito por uma inteligência artificial qualquer. Mas eu estava no evento. No meio das dezenas de pessoas, uma era o autor. A leitura se deu em pouco mais de cinco minutos. Ao pé da maior estátua de Cristo no mundo. Muitas pessoas não deram a mínima. Olhavam seus celulares. Outras tantas conversavam entre si. Outras, ainda, lutavam contra o fio inesperado de abril que fazia. As autoridades presentes fingiam introspecção. Não sei se alguém foi tocado pelas palavras. Se alguém guardou alguma frase consigo. Não senti ninguém absorto pelo meu texto. Não vi uma lágrima. O que não significa que não possa ter ocorrido. Porque teve algo, sim. Quando o mestre de cerimônias declamou " o novo vai nos encontrar mais fortes e mais preparados para viver o amanhã". Eu me comovi. Como se aquilo que foi declamado, não fosse meu. Aquela quase banalidade, dita ali, fazia todo o sentido. Pessoas tinham morrido. Outras tantas haviam se recuperado. Não foi uma guerra. Mas um desastre natural sem precendentes. Aquela frase tinha uma razão de ser e fazia, portanto, sentido. Eu não chorei. Mas lutei bravamente. Porque uma frase me trouxe um monte de coisas a mente. Memórias. Frustrações. Saudades. É o poder das palavras bem ditas. 

Então, é para isso que escrevo. 


Lucas Barroso

Porto Alegre, 30 de abril de 2026.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Segunda-feira - Poema de Primo Levi

 


Segunda-feira


O que é mais triste que um trem?

Que parte quando deve partir,

Que tem somente uma voz,

Que tem somente um caminho.

Nada é mais triste que um trem.


Ou talvez um burro de carga.

Está preso entre duas barras

E não pode olhar para o lado.

Sua vida é só caminhar.


E um homem? Não é triste um homem?

Se vive há muito em solidão,

Se acha que o tempo terminou,

Um homem também é coisa triste.


17 de janeiro de 1946

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Primo Levi 

Poema consta no livro Mil Sóis (Editora Todavia).

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Série Traduzindo a Música Gauchesca - De Chão Batido

Com a série Traduzindo a Música Gauchesca, pretendo destacar algumas palavras, termos e versos de clássicos do cancioneiro Rio Grande do Sul. A fonte de pesquisa para explicá-los são dicionários voltados a esmiuçar essa língua falada no sul do país. 

A segunda canção a ter seus termos vertidos para o português mais formal é De Chão Batido, de autoria do João Alberto Pretto, Pedro Neves e Martin Agnoletto. Foi lançada em setembro de 1992, pelo Grupo Renascença, no disco de nome De Chão Batido. Era a primeira faixa do lado A. 

A versão mais conhecida da música foi a gravada pelo Os Serranos, em 1999, no disco Os Serranos interpretam sucessos gaúchos. 

De Chão Batido

Em xucras bailantas de fundo de campo
O fole e o tranco vão acolherados
O índio bombeia pro taco da bota
E o destino galopa num sonho aporreado
Polvadeira levanta entre o sarandeio
E é lindo o rodeio de chinas bonitas
Quem tem lida dura e a ideia madura
Com trago de pura a alma palpita

Atávico surungo de chão batido
Xucrismo curtido na tarca do tempo
Refaz invernadas de ânsias perdidas
E encilha a vida no lombo do vento

Faz parte do mundo do homem campeiro
Dançar altaneiro no fim de semana
O gaúcho se arrima nos braços da china
E cutuca a sina com um trago de cana
Basta estar num fandango do nosso Rio Grande
Pra ver que se expande esse elo gaúcho
Esta pura verdade que não tem idade
É a nossa identidade aguentando o repuxo

Atávico surungo de chão batido
Xucrismo curtido na tarca do tempo
Refaz invernadas de ânsias perdidas
E encilha a vida no lombo do vento

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Chão batido = piso de terra, caracterizado pela compactação do solo para torná-lo firme.

Xucro = diz-se do gado não domesticado. Selvagem, bravio. / Diz-se do homem rude, grosseiro, intratável, sem trato social.

Tranco = Trote curto. Marcha habitual, não apressada, do cavalo. Passo largo, firme e seguro, do cavalo ou do homem. 

Acolherado = Unido o animal a outro pela colhera. / Andar uma pessoa acolherada com outra, significa andar uma pessoa sempre junto de outra.

Índio = Homem do campo. Peão de estância. Indivíduo valente, bravo, disposto, destemido, valoroso.

Bombear = Espionar, espreitar, explorar, vigiar, espiar, perscutar, olhar, ver, observar. Examinar, sem ser percebido, o campo inimigo, a fim de lhe conhecer a força, os recursos e as intenções.

Taco = Salto de sapato ou bota. 

Aporreado = Cavalo mal domado, indomável, que não se deixa amansar. Aplica-se também ao homem rebelde. 

Polvadeira = Poeirada, nuvem de pó, grande quantidade de poeira.

Sarandeio = Saracoteio. Meneio executado em uma dança. 

China = Descendente ou mulher de índio, ou pessoa do sexo feminino que apresenta algumas características étnicas das mulheres indígenas. Cabocla, mulher morena. Também é um termo utilizado para mulher de vida fácil.

Atávico = Transmitido ou adquirido de maneira hereditária; hereditário: seu talento era atávico. / Que se refere ao atavismo, ao reaparecimento em alguém das características de um antepassado que permaneceram escondidas por muitas gerações.

Surungo = Arrasta-pé, baile de baixa classe. 

Tarca = Pedaço de pau ou de couro no qual se assinala, com pequenos cortes, o número de reses marcadas durante o dia. A tarca também é utilizada para qualquer outro tipo de contagem, de animais ou de objetos.

Invernada = Grande extensão de campo, cercado. 

Altaneiro = Arrogante; que expressa altivez e orgulho: sorriso altaneiro.

Arrimar-se = Aproximar-se, achegar-se.

Fandango = Denominação genérica de antigos bailes campestres, constituídos de danças sapateadas, executadas alternadamente com canções populares, com acompanhamento de viola.

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Bibliografia consultada

Dicionário de regionalismos do Rio Grande do Sul - Zeno e Rui Cardoso Nunes
Dicionário da cultura pampeana sul-rio-grandense - Aldyr Garcia Schlee
Contos escolhidos - Cyro Martins (Glossário, organizado por Aldyr Garcia Schlee)