sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A enchente

 


A penúltima vez que eles conversaram, de fato, foi durante o velório do pai de um amigo. A proximidade da morte fez Luciane repensar algumas coisas da vida. Estavam no corredor de uma das capelas do cemitério São Miguel e falavam amenidades, quando Luciane mudou de assunto.  

- Lucas, eu queria te pedir desculpas.
- Por quê?
- Pela tua saída da empresa. Acredito que fui a culpada por tudo que aconteceu contigo. Não soube conduzir bem as coisas.
- Eu acho que tu foi culpada, mas não precisa se desculpar. Não acredito que tenha sido por maldade ou algo premeditado da tua parte.
- Não foi mesmo... Mas tu estava há dez anos com a gente. E tua saída só piorou as coisas pra todo mundo que ficou.   
- Tudo bem. Acontece. Pensa que tu errou tentando acertar.  

Lucas lembrou dessa conversa agora. Luciane estava a sua frente, sentada em uma arquibancada fria de cimento. Frágil e pálida não parecia a mulher destemida que buscou varrer para fora todos os funcionários incompetentes, acomodados ou desatualizados da empresa.  

Desde que o mundo é mundo, o ser humano tem a pretensão de domar a Natureza. Veja o nosso caso em Porto Alegre. Uma enchente destruiu a nossa cidade, com dezenas de mortes e desaparecimentos. Empreendimentos, moradias e sonhos destruídos pela força das águas. Não há consolo possível...   

O recado da Natureza não pode ter sido mais claro. A nossa cidade não é nossa. É dela e de suas águas. Pouco importa o debate dos homens, que buscam culpados pela catástrofe. A Natureza segue seu fluxo.  

A enchente escancarou essa tragédia humana, que é em tentar domesticar o que não pode ser domesticado. Aviso não faltou! Como o caso da ponte que foi levada pela correnteza, no ano passado. Bastou um breve período de calmaria e foram lá e ergueram uma nova, no mesmo lugar. Por necessidade e até de forma instintiva.  

O que fez a Natureza? Voltou a derrubá-la.   

Os governantes e a sociedade lutam para ludibriar a Natureza, reconstruindo pontes, estradas, casas e projetando sistemas para conter quem de fato é a dona das terras. Desenham grandes obras de engenharia, como muralhas e diques. Prometem e planejam uma revolução. Essa cruzada tem só um objetivo: não ceder ou se dobrar aos caprichos da Natureza.   

A fé dos homens é comovente e patética. Porém, é digna de um Sísifo. Vocês conhecem Sísifo? Sísifo, na mitologia grega, foi condenado pelos deuses a empurrar eternamente uma pedra até o topo de uma colina, apenas para vê-la rolar de volta.  

Esse é o destino dos homens! É sobre essa teimosia que estou falando. Cito aqui o caso de um padre da Ilha da Pintada. Para ele é indiferente o número de alagamentos ou desastres que aconteceram e ainda possam vir a ocorrer. Ele disse que jamais sairá de lá. O pároco não clamou aos céus por um milagre e, sim, bradou e rogou por uma solução terrena.  

Essa tal solução já está posta: basta respeitar a Natureza. É isso que todo mundo aqui precisa entender! 

Assim, o homem encerrou seu discurso. Estava no centro de uma quadra de futebol de salão e ninguém ali lhe dava a mínima. O ginásio não era mais usado para a prática de esportes e, sim, servia de abrigo para os flagelados da enchente que assolou Porto Alegre.  

Era 6 de maio de 2024. Lucas sabia bem a data porque, há 20 anos, conhecera sua esposa. Dias antes, ele escreveu na sua agenda: comprar flores para Marília. A ideia era fazer algo bem piegas e banal. Mandar um buquê para seu trabalho. Escrever uma mensagem carinhosa em um cartão. Dizer que a amava.  

Porém, ele não comprou flores, nem mandou ninguém entregar nada, tampouco escreveu carta ou bilhete. Porque estava na própria casa, com seus filhos e a cidade sofria a pior catástrofe de sua história. Foi questão de dias. Porto Alegre estava inundada. Não deu tempo de fazer as malas. Foram o casal, as crianças e os gatos em um barco. Onde era rua, virou rio.  

Era madrugada, não era mais dia 6 de maio. Os pequenos dormiam em um espaço improvisado do ginásio. Não entendiam direito o que se passava. Lucas e Marília não tinham muito o que conversar. Entretanto, Lucas perguntou se ela lembrava que até bem pouco tinha sido 6 de maio. Ela disse que sim.   

4  

Luciane e Vicente eram proeminentes em suas profissões. Ela, head de relações institucionais de um instituto renomado. Ele, ceo de uma empresa conceituada. Seus ambiciosos caminhos se cruzaram porque pessoas ambiciosas acabam se encontrando em Porto Alegre. Seja nos restaurantes panorâmicos da Orla do Guaíba, seja nas ruas do Moinhos de Vento, seja nos bares do Quarto Distrito ou em uma palestra ministrada por uma pessoa bem-sucedida qualquer. Formavam uma parceria inevitável. 

Luciane e Vicente tinham uma grande dedicação para os seus respectivos trabalhos. Eram um casal com essa afinidade e gozavam de uma boa reputação por isso. Seus cargos e suas atribuições os aproximavam das zonas de poder da cidade. Tinham trânsito livre com quem tem a chave para abrir as portas necessárias.  

Por esses motivos, Luciane não pensava em ser mãe. Ou melhor, pensava sim. Porém, quando sentisse que sua vida poderia parar um pouco. No momento, onde o futuro filho – de nome Bento ou Noah, no caso de menino; Valentina ou Lavínia, se menina – não fosse um estorvo para a sua carreira profissional. Para ela, esse processo, basicamente, se resumia a ser mãe após os 40 anos. Vicente estava de acordo.

Então, Luciane chegou aos 40 e resolveu ser mãe, conforme o esperado. Foram dois anos de tentativas frustradas. Algo inédito para duas pessoas bem-sucedidas em tudo que empreendiam.  

- A senhora precisa entender que existe um declínio natural da reserva ovariana, que impacta diretamente a quantidade e a qualidade dos óvulos. Não se trata de culpa sua, é uma questão natural – explicou o doutor. 

Luciane e Vicente seguiram tentando e investindo no que havia disponível pela Medicina. Durante esse período infértil, Luciane entendeu que já não gostava mais de Vicente, que seu trabalho não tinha a menor relevância e toda sua doação foi infrutífera, pois não poderia ser mãe. Era nisso que Luciane, agora, sentada numa arquibancada fria de cimento de um ginásio pensava. O que menos lhe afligia era a enchente.  

- Oi, tia! - disse a menininha, que tirou Luciane do seu torpor. 
- Oi!
- Tu quer? - perguntou a criança, oferecendo uma banana mordida.
- Não, querida. Muito obrigada. A tia tá sem fome.
- Tu não gosta de banana?
- Eu gosto, sim. Mas agora não consigo comer nada.
- Meu irmão, o Murilo, também não come nada. 
- Ah, é? E qual o teu nome?
- Sofia.
- Que nome lindo! Cadê teu papai e tua mamãe?
- Meu pai tá ali. 

Prontamente, Luciane se lembrou de Lucas. Cumprimentaram-se com um abraço efusivo e carinhoso. Era bom ver um conhecido naquela situação. Não que alguém desejasse isso de verdade, mas estar diante de um amigo, em um abrigo público, ajudava.  

Em questão de dias, a água baixaria, e tanto Lucas, quanto Luciane, voltariam para suas casas e reconstruiriam suas vidas.  

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