domingo, 21 de novembro de 2021

Trilogia Suja de Havana - Salve-se Quem Puder

Malecón, em Havana

De novo o silêncio. Eu me concentrei no rum e na lagosta fervendo. Mas logo em seguida escutei a vizinha ao lado sapateando. Uma mulatinha linda, de uns vinte anos. Tem estilo. É puta, mas poderia ser modelo. É uma beleza. Ainda mora numa toca miserável que nem eu, mas é implacável: sem dinheiro nem olha pra gente. Às vezes, me cumprimenta, mas sem muita intimidade.

 – Bom dia, vizinho.

 – Bom dia, vizinha. Ficou até tarde na batalha, já é quase meio-dia.

 – E quem lhe disse que eu só trabalho de noite? Você é um pouquinho intrometido.

 – Olha, este seu perfume chega até aqui.

 – Bom, pode sofrer. Continua sofrendo, papito.

 – Abusada.

 – Isso é uma canção. Até mais tarde, vou dormir um pouco.

– Quando vou poder chegar mais pertinho de você, mamita? Já estou até de miolo mole.

– Quando você for um papirriqui com graniquiqui. Mas enquanto estiver na pior, nem chegue perto. Sai pra lá, sai pra lá, que esse mal pega!

– Bom, titi, pode continuar me maltratando. Durma bem.

– Tchau, papito.

– Tchau, mamita.

Entrou, fechou a porta e eu voltei para o meu fogareiro. É assim. Se você tiver dinheiro, pode, se não, foda-se. É como nos naufrágios: salve-se quem puder.

Gosto dessa mulher. Ela chegou do campo há um ano, com as mãos calosas e as unhas dos pés manchadas de terra vermelha. Diz que veio de Palma Clara. Sabe-sa lá onde diabos fica isso!

É muito desconfiada. Acha que todos vão lhe fazer mal, mas uma vez me contou uma coisa: aos doze anos largou a escola na quinta série e foi colher café para ter seu próprio dinheiro porque o pai bebia e fumava tudo o que ganhava “e em casa éramos sete irmãos comendo farinha de milho e inhame. Não sei como saímos fortes e saudáveis”, disse. Aos dezesseis viu que o café é trabalho para gente grossa e morta de fome. Uma tarde tomou seu banho, vestiu uma roupa limpa e sem se despedir de ninguém foi para a estrada e chegou a Havana. Assim, sem ter a menor ideia do que poderia ser Havana. Ouvia dizer que em Havana, sim, era possível viver bem porque havia mais dinheiro, e lá se foi. Quando me contava tudo isso, via-se força em seus olhos: “Eu sou muito bonita, papito, acha que não sei? Podem enfiar o café e a fome no rabo! Chega. Não volto para Palma Clara nunca mais na vida… Deus que me perdoe… quando minha mãe morrer vou ter que voltar porque ela é uma santa”.

Chegou assim, com uma mão na frente e outra atrás. Nos primeiros dias morou com um caminhoneiro que a trouxe de carona. Mas o largou na semana seguinte: o cara queria uma escravinha para trepar quando bem entendesse e mantê-la trancada em casa trabalhando e sempre entendiada. Mandou o sujeito à merda. Foi morar com uma vizinha. Começou a fazer programas no Malecón e em menos de um ano a roceirinha é outra pessoa. Já até fala diferente e caminha com estilo. Qualquer hora dessas ela se muda para um apartamento decente e deixa este terraço de merda. Eu gosto de gente assim. Forte. Os frouxos sempre se lamentam e choram. Os fracos acham que tudo termina hoje.

Na verdade é justamente o contrário: é hoje que tudo começa. 

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Trecho de Trilogia Suja de Havana, de Pedro Juan Gutierrez.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Fazendo Amigos

É incrível! Um homem improvisou uma barbearia dentro do mercado de hortifruti do Terminal Parobé.

Quem desviou o rosto por causa do ventinho chato do Guaíba, que trazia toda a fumaça do churrasquinho de gato nas pessoas que esperavam os ônibus na rua ao lado da estação, pode ver com clareza. 

O barbeiro revezava com uma máquina e uma tesoura. Ágil. Borrifava água. O cliente com avental e tudo. Sentado em uma caixa de frutas de madeira. 

Era quase noite. 

As boates Adega's e Encontrus estavam abertas. Os leões-de-chacará na entrada com suas caras fechadas, esperavam a chegada dos primeiros solitários. Quando, do nada, surge um tipo.  

- Ô, amigo! Desculpa incomodar. Mas é que vim de Montenegro. Dormi anteontem no albergue e hoje na rua.. 

- Cara, não tenho dinheiro - me adiantei.

- Nem 10 centavos?

- Nada mesmo.

- É que é pra cachaça. Não precisa ser muito.

Também do nada, cruza por nós um gaiato portando uma cachaça barrigudinha. Vestia uma jaqueta anos 90 de um time de futebol americano. O montenegrino me deixou sem se despedir. Seguiu o outro. Em poucos metros, os dois estavam lado a lado. Dividiam a garrafa de plástico e caminhavam pela avenida Julio de Castilhos. Provavelmente, se tornariam amigos. Afinal, ninguém faz amizade bebendo leite.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Alugém Aí Pediu Um Manifesto? - Por Joe Sacco


Este volume reúne a maior parte das reportagens de menor extensão que fiz nos últimos anos para revistas, jornais e antologias. Sendo assim, me parece que ele exige algum tipo de saraivada introdutória para achacar todos aqueles que se opõem à legitimidade dos quadrinhos como forma eficiente de fazer jornalismo. 

Mas antes de puxar o gatilho, quem sabe a gente escute a oposição?  Afinal, as objeções podem ter algum mérito. Como responder, por exemplo, quando questionam se o desenho pode aspirar à verdade objetiva? Não é justamente da verdade objetiva que trata o jornalismo? Desenhos, por natureza, não são subjetivos? 

A resposta à última pergunta é: sim. Sempre que se apresentar jornalismo na linguagem dos quadrinhos, haverá uma tensão entre as coisas que se podem verificar, como uma declaração gravada, e as coisas que não se prestam à verificação, tais como um desenho que diz representar um episódio em particular. O desenho é interpretação mesmo quando é subserviente a uma fotografia, e costuma -se entender que as fotografias capturam literalmente um momento do mundo real. No desenho, porém, não há nada de literal. O cartunista mistura os elementos a seu bel -prazer e posiciona-os na página de acordo com seus propósitos. Não existe aquela sorte do fotógrafo que capturou uma imagem no momento certo. O cartunista “captura” seu desenho no momento que quiser. É essa abertura ou licença que torna o cartunismo uma mídia inerentemente subjetiva. 

Mas isso não põe por terra as pretensões dos cartunistas que aspiram ao jornalismo. Ainda valem as obrigações -padrão do jornalista — reportar de maneira precisa, ater-se às falas dos entrevistados, checar afirmações. O jornalista-quadrinista, porém, tem compromissos maiores. O repórter tradicional pode tranquilamente descrever um comboio da ONU como “um comboio da ONU” e seguir adiante com sua matéria. Um jornalista-quadrinista tem que desenhar o comboio, e nesse momento surgem várias questões. Como são os veículos do comboio? Como são os uniformes dos operativos da ONU? Como era a estrada? E o cenário de fundo? 

Por sorte, não há manual de estilo que diga ao jornalista-quadrinista a que ponto deve chegar em termos de detalhamento. O cartunista desenha tendo em mente a verdade essencial, não a literal, o que permite ampla variedade de interpretações e ampla variedade de estilos de desenho. Um cartunista não desenhará um caminhão da ONU da mesma forma que outro cartunista, mesmo que os dois estejam trabalhando a partir da mesma referência.

Posso apresentar aqui as minhas regras particulares no que concerne à veracidade pictórica. Tento desenhar pessoas e objetos da forma mais precisa possível, sempre que possível. No meu entender, tudo que pode ser desenhado fidedignamente tem que ser desenhado fidedignamente — e com isso quero dizer que algo desenhado deve ser facilmente identificado como a coisa real que se intenciona representar. Há desenhos, porém — particularmente cenas que ocorreram no pretérito e que eu não vi com meus próprios olhos —, nos quais sou obrigado a utilizar minha imaginação, ou, ainda, minha imaginação apoiada em pesquisas. Com isso quero dizer que tudo que eu venha a desenhar deve ter sua base nas especificações de temporalidade, lugar e situação que busco reinventar. Na terminologia cinematográfica, o cartunista é cenógrafo, figurinista e diretor de elenco, e é provável que, para executar esses papéis com destreza, ele precise fazer pesquisas em livros, em arquivos e na internet.  Quando dependo do testemunho ocular, faço perguntas pertinentemente visuais: Quantas pessoas havia lá? Onde ficava o arame farpado? As pessoas estavam de pé ou sentadas? Quero que meus leitores pelo menos orientem-se em um momento específico, mas meu objetivo maior é satisfazer uma testemunha ocular no sentido de que minha retratação desenhada represente a essência da experiência que essa testemunha teve. 

Porém, como já explicitei, dificilmente será um trabalho imaculado. Afinal, o desenho reflete a visão do cartunista como indivíduo. Não creio, porém, que esse fato proíba que um relato desenhado entre no campo do jornalismo. Creio que é possível almejar precisão no âmbito de uma obra desenhada. Em outras palavras, os fatos (um caminhão que carregava prisioneiros vindo pela estrada) e a subjetividade (como essa cena é desenhada) podem conviver juntos — uma coisa não impede a outra. Eu, pelo menos, aceito as implicações do relato subjetivo e dou preferência a destacar essas implicações. Já que é difícil (embora não impossível) me apagar de uma história, não é algo que eu costume tentar. O resultado, em termos jornalísticos, é libertador. Como sou “personagem” da minha própria obra, me atribuo licença jornalística para mostrar minhas interações com aqueles que conheço. Descobre-se muito sobre esses indivíduos a partir da representação do intercâmbio pessoal, o que a maioria dos jornalistas convencionais, infelizmente, subtrai de suas matérias. (As histórias que os jornalistas contam entre pares, na mesa do jantar, que geralmente envolvem interações similares, costumam ser mais interessantes e reveladoras do que as que entram no texto.) Apesar da impressão que alguns tentam passar, o jornalista não é uma mosquinha na parede, invisível e muda. Em campo, na apuração, a presença do jornalista quase sempre é relevante. Os jovens rebeldes erguem e brandem as armas quando a equipe de televisão começa a filmar, ou começam a se policiar quando o repórter faz perguntas contundentes. Ao admitir que estou presente na cena, minha intenção é sinalizar ao leitor que o jornalismo é um processo no qual defeitos e marcas de costura ficam aparentes, como se realizado por um ser humano — e não ciência executada friamente por um robô atrás do acrílico. 

O que nos leva à vaca sagrada do jornalismo norte -americano, a “objetividade”. Deixo claro que não tenho problemas com a palavra em si, se o significado for apenas abordar um fato sem ter pré-concepções. O problema é que não acredito que a maioria dos jornalistas consiga abordar um fato, seja qual for sua relevância, com “objetividade”. Eu, decerto, não consigo. A jornalista norte -americana que acaba de pôr os pés na pista do aeroporto afegão não se livra de imediato do ponto de vista norte -americano nem abdica de toda pré -concepção para gravar novas observações em tábula rasa. Será que ela, de uma hora para outra, vai deixar de ver os soldados norte-americanos que acompanha como compatriotas de respeito e boas intenções, que compartilham muitos de seus valores, e passará a percebê -los como instrumento de um estado-nação que opera segundo seus próprios interesses, o que na prática — em termos objetivos — eles são? Na melhor das hipóteses, ela tenta relatar suas ações e reações da forma mais sincera, nas quais quer que recaia sua simpatia. Como dizia o lendário jornalista norte -americano Edward R. Murrow: “Toda pessoa é prisioneira de sua experiência. Ninguém consegue eliminar seus preconceitos — mas tão somente reconhecê-los”. 

Outra armadilha que se promove nas escolas de jornalismo dos Estados Unidos é a fidelidade servil ao “equilíbrio”. Mas se um lado diz uma coisa e o outro diz outra, será mesmo que a verdade se encontra “em algum ponto entre os dois”? O jornalista que diz “bom, deixei os dois lados fulos da vida, então acho que estou no caminho certo” provavelmente está se enganando e, o pior, engana também o leitor. O equilíbrio não devia acobertar a preguiça. Caso haja duas ou mais versões dos fatos, o jornalista precisa não só explorar e avaliar cada declaração, mas também ir a fundo no relato contestado independente de quem o relata. Por mais que o jornalismo seja “o que eles disseram que viram”, ele também é “o que eu vi”. O jornalista deve empenhar-se em descobrir o que acontece e relatar, e não tornar a verdade neutra só porque houve distribuição igualitária de espaço. 

Fui eu que escolhi as histórias que desejo contar, e nesta seleção devem ficar claras quais são minhas afinidades. Tenho interesse sobretudo por aqueles que raramente são ouvidos, e não creio que caiba a mim equilibrar suas vozes com as apologias bem escovadas dos que detêm o poder. Os poderosos geralmente estão muito bem servidos pela mídia massiva ou pelos órgãos de propaganda ideológica. Os poderosos têm que ser citados, é claro, mas para que seus pronunciamentos possam ser avaliados diante da verdade, não para obscurecê-la. Se acredito que o poder faz as pessoas mostrarem o que têm de pior, já observei que aqueles que ficam na ponta da miséria também não são inocentes por completo, e é isso que me empenho em reportar. Creio que o jornalista britânico Robert Fisk seja quem melhor resume a equação: “Sempre digo que os repórteres devem ser neutra e imparcialmente a favor daqueles que sofrem”. 

Em resumo, a grande benesse de uma mídia inerentemente interpretativa, como é o caso dos quadrinhos, é que ela não me deixou confinado ao jornalismo tradicional. Ao tornar difícil me ausentar de uma cena, ela não me permite fazer da imparcialidade uma virtude. Para o bem ou para o mal, a mídia dos quadrinhos é inflexível, o que me leva a fazer escolhas. A meu ver, isso faz parte de sua mensagem inerente. 

Joe Sacco
Abril de 2011

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Texto de abertura do livro Reportagens (1ª edição no Brasil, em 2016), de Joe Sacco. 

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Agrippino Grieco?, perguntaram


Há uma semana, citei o crítico fluminense Agrippino Grieco (1888-1973) como o autor original da frase “Se a vida bastasse, ninguém se daria ao trabalho de convertê-la em arte” e da expressão ”profeta do passado”, consagradas por outros no futuro. “Agrippino Grieco?”, perguntaram. Sim, um dos poucos grandes wits da língua. Eis uma amostra.

“Ontem é sempre poesia. Hoje é quase sempre prosa”; “Sabe-se que um escritor está em declínio quando começa a escrever como seus imitadores”; “A ciência progride. A literatura, não. Copérnico destruiu Ptolomeu. Camões não destruiu Homero.” Sobre Machado de Assis: “Acreditava-se um humorista porque vivia de mau humor”. Sobre Coelho Neto: “Autor de o nada em dezenas de tomos”. Sobre Castro Alves: “Não foi um homem. Foi uma convulsão da natureza”

Sobre um escritor seu amigo: “Voto-lhe estima tão forte que ela resistiu até à leitura de seus livros”. Sobre um poetastro do passado: “Seu único mérito consiste em estar morto”. Sobre o escritor Carneiro Leão, eleito para a Academia: “Em geral, a Academia elege só um animal. Agora elegeu dois”. Sobre os poetas parnasianos em geral: “Leões de mármore, suntuosos e inofensivos. Seus poemas eram pretensiosos e imprestáveis, como os vidros de água colorida das farmácias, perfeitamente inúteis”.

Sobre a Semana de Arte Moderna: “Como na peça de Shakespeare, muito barulho para nada”; “Os modernistas se ajoelham diante das rodas de um Ford como os parnasianos diante das patas do Pégaso”. Sobre Chaplin: “Pouco sei de Proust, quase nada de Bergson e absolutamente nada de Einstein. Mas sei toda a alma de Carlitos, e isso me faz riquíssimo”. “Só houve um cristão: Cristo”; “Nunca me arrependi de haver atacado. Só de ter elogiado” etc.

Poucos escreveram tanto e tão bem sobre literatura no Brasil como Agrippino. Temido e famosíssimo em seu tempo, é pouco lembrado hoje. Foi seu erro: escreveu no Brasil.


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Texto de Ruy Castro, publicado na Folha de São Paulo

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Série Traduzindo a Música Gauchesca - Do Fundo da Grota

Com a série Traduzindo a Música Gauchesca, pretendo destacar algumas palavras, termos e versos de clássicos do cancioneiro Rio Grande do Sul. A fonte de pesquisa para explicá-los são dicionários voltados a esmiuçar essa língua falada no sul do país. A primeira canção a ser vertida para o português mais formal é Do Fundo da Grota, que foi composta e gravada por Baitaca (nome artístico de Antônio César Pereira Jacques), em 2002, no disco Meu Rio Grande é Deste Jeito.

Aliás, baitaca é o mesmo que maitaca, um tipo de ave, da família do papagaio. Um outro significado possível é pessoa faladeira, tagarela.

A música

Do Fundo da Grota

Fui criado na campanha / Em rancho de barro e capim / Por isso é que eu canto assim / Pra relembrar meu passado / Eu me criei arremendado / Dormindo pelos galpão / Perto de um fogo de chão / Com os cabelo enfumaçado

Refrão:

Quando rompe a estrela d'alva / Aquento a chaleira já quase no clariá o dia / Meu pingo de arreio relincha na estrevaria / Enquanto uma saracura / Vai cantando empoleirada / Escuto o grito do sorro / E lá do piquete relincha o potro tordilho / Na boca da noite me aparece um zorrilho / Vem mijar perto de casa / Pra inticá com a guapecada

Numa cama de pelego / Me acordo de madrugada / Escuto uma mão-pelada / Acoando no banhadal / Eu me criei xucro e bagual / Honrando o sistema antigo / Comendo feijão mexido / Com pouca graxa e sem sal

Refrão

Reformando um alambrado / Na beira de um corredor / No cabo de um socador / Com as mão rodeada de calo / No meu mango eu dou estalo / E sigo a minha campereada / E uma perdiz ressabiada / Voa e me espanta o cavalo

Refrão

Lá no santo do capão / O subiar de um nambú / Numa trincheira o jacú / Grita o sabiá nas pitanga / E bem na costa da sanga / Berra a vaca e o bezerro / No barulho dos cincerro / Eu encontro os bois de canga

Refrão e fim

A tradução

Banhadal – Banhado grande, terreno alagadiço.

Cama de pelego – cama improvisada no chão, utilizando a pele de carneiro ou de ovelha, com a lã natural.

Campanha – Zona de campo, apropriada à criação de gado. Local distante da cidade; interior.

Cincerro – Campainha grande que se pendura ao pescoço de determinados animais para fins de condução ou manejo.

Estrela D’Alva – É como também é conhecido o planeta Vênus. Porém, no contexto da música, imagina-se que o autor esteja afirmando que a noite está acabando e, por obvio, o dia raiando.

Guapecada – o mesmo que guaipecada. Guaipeca é um cão pequeno, cusco. Um cãozinho ordinário, vira-lata, sem raça definida.

Mango – Punho, empunhadura ou cabo de um relho ou de um facão.

Pingo – Cavalo de montaria.

Piquete – Nas estâncias, espaço cercado, próximo das casas, usado para prender e manejar animais de serviço diário.

Potro tordilho – Potro é um cavalo novo ou não, ainda xucro ou com apenas alguns galopes. Já tordilho se refere a cor da pelagem do animal, que é predominantemente branca, salpicada de pontos pretos.

Xucro e bagual – Ambos se referem a equino selvagens, ainda não domados. Há diferenças. Bagual é arisco, abrutalhado, rude, grosseiro, bravio, bonito, vistoso, indômito, muito grande. Pode ser usado tanto no sentido pejorativo como elevado. Já xucro, no caso de uma pessoa, está mais para alguém sem trato social. Diferente de bagual, não cabe como elogio.

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Bibliografia usada como fonte de consulta para a série: Dicionário de Regionalismos do Rio Grande do Sul (Zeno e Rui Cardoso Nunes), Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense (Aldyr Garcia Schlee), Dicionário de Expressões Populares da Língua Portuguesa (João Gomes da Siveira), Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Morta (Alberto Villas), Aves Silvestres do Rio Grande do Sul (W. Belton e J. Dunning), Contos Escolhidos (Cyro Martins; glossário organizado por Aldyr Garcia Schlee), Wikipédia e consultas na internet diversas. 

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

A Calça da Adidas

Era um tempo de crise. Como esse tempo de agora. Só que era diferente. Era um tempo onde se comprava carne, qualquer uma, para estocar. Pois faltava carne. Amontoavam-se os cortes no minúsculo freezer da geladeira. E o osso ainda ia para a sopa para dar gosto. Não escapava nada. 

Calçado era um de ir pra escola e um para sair. Só que se saía muito pouco. As roupas que ficavam gastas eram costuradas, reformadas. E assim ia se levando. 

Foi nesse tempo bicudo que apareceu uma calça da Adidas no varal. Dividíamos os varais, aqueles de roldanas, localizados no vão dos prédios, com a vizinha da frente, a pacata Dona Santa. Decerto que a velha não teria uma calça da Adidas. Então...

- De onde veio essa calça aqui? – perguntou meu pai.

- Minha que não é – me adiantei.

- É tua essa calça, mulher? 

- Aham – se entregou minha mãe. 

- E como tu comprou uma calça de marca? 

- Não é de marca.

- Como assim? Tá aqui ó: Adidas.

- Não é. Ela é falsificada.

- Nossa, mas que bem feita! 

- Sim! Tem muitas coisas falsificadas nos camelôs. Tudo da China, mas de boa qualidade. E custa menos da metade de uma original.

- Tu vê... Daí, está valendo mesmo. 

Eu ouvi tudo aquilo quieto, intrigado. Depois, fui no varal ver a tal calça. Muito bonita. Tecido macio. As três listras ao longo das pernas. Parecia original. Será que tinha masculina, tamanho M? Ia ser legal ir para escola com uma daquelas. 

- Mãe, em qual camelô tu comprou aquela calça? Na Assis Brasil ou no Centro?

- Que calça? 

- A da Adidas. Queria uma igual pra mim. E se é barata, tava pensando que...

- Comprei na Mesbla.

- Mas tu falou para o pai que foi no camelô.

- E tu acha que vou comprar porcaria em camelô?! Só falei para teu pai não me encher a paciência. A gente, de vez em quando, tem que comprar o que gosta, meu filho... Por favor, vamos viver para que então?!

E ela foi emendando uma frase na outra, dizendo que não aguentava mais aquilo tudo. Afirmou que as coisas estavam pior que quando ela era criança, no Sarandi, onde a porta do forno do fogão era amarrada com um arame, etc etc etc. 

Eu ouvi e entendi a revolta da minha mãe, porque eu também queria uma calça original da Adidas.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

A Nova Opinião Formada Sobre Tudo



Dia desses, no famigerado grupo de Whats App, um amigo discorreu longamente sobre o Afeganistão. Tinha opinião formada e um aparente entendimento da região, cultura, política, costumes e etc. Ele nos falou da tomada do poder por parte dos talibãs. Apresentou-nos um card, afirmando que o país só foi dominado porque a população afegã não tem porte de armas. Caso tivesse, seria bem possível que o golpe de Estado não ocorresse, pois as pessoas lutariam de revólver em punho contra os mísseis e tanques dos tais talibãs.

Esse meu amigo sabia a orientação político-ideológica dos que agora comandam o país, se eles são de esquerda ou direita. Afinal, isso é muito importante hoje. Eu li tudo embasbacado! Se alguém me der um mapa, não sei apontar ao certo onde fica o Afeganistão. E meu amigo, que nunca esteve lá, nunca leu um livro sobre ou conheceu, de fato, um afegão, sabia tudinho.

Impressiona como as pessoas se tornaram menos ignorantes com as redes sociais. Teve outro amigo que, mesmo trabalhando com venda de roupas, se especializou em infectologia. Ao saber que um conhecido nosso, também participante do grupo do Whats App, teve Covid-19 e foi hospitalizado na UTI, salvando-se depois de quase um mês de internação, questionou o procedimento do médico. “O doutor não aplicou o tratamento precoce de forma correta. Provavelmente, a medicação foi prescrita tardiamente”.

São tantas coisas que aprendemos diariamente nesses grupos. Por isso, a gente não consegue mais fazer outras tantas coisas interessantes, como passear, brincar com o filho, namorar, ou, simplesmente, não fazer nada. Temos sede de conhecimento. Queremos saber das coisas que acontecem. E o Whats App tá cheio de gente para nos informar e explicar.

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Texto publicado originalmente no jornal Diário de Canoas, no dia 25 de agosto.