terça-feira, 14 de setembro de 2021

Agrippino Grieco?, perguntaram


Há uma semana, citei o crítico fluminense Agrippino Grieco (1888-1973) como o autor original da frase “Se a vida bastasse, ninguém se daria ao trabalho de convertê-la em arte” e da expressão ”profeta do passado”, consagradas por outros no futuro. “Agrippino Grieco?”, perguntaram. Sim, um dos poucos grandes wits da língua. Eis uma amostra.

“Ontem é sempre poesia. Hoje é quase sempre prosa”; “Sabe-se que um escritor está em declínio quando começa a escrever como seus imitadores”; “A ciência progride. A literatura, não. Copérnico destruiu Ptolomeu. Camões não destruiu Homero.” Sobre Machado de Assis: “Acreditava-se um humorista porque vivia de mau humor”. Sobre Coelho Neto: “Autor de o nada em dezenas de tomos”. Sobre Castro Alves: “Não foi um homem. Foi uma convulsão da natureza”

Sobre um escritor seu amigo: “Voto-lhe estima tão forte que ela resistiu até à leitura de seus livros”. Sobre um poetastro do passado: “Seu único mérito consiste em estar morto”. Sobre o escritor Carneiro Leão, eleito para a Academia: “Em geral, a Academia elege só um animal. Agora elegeu dois”. Sobre os poetas parnasianos em geral: “Leões de mármore, suntuosos e inofensivos. Seus poemas eram pretensiosos e imprestáveis, como os vidros de água colorida das farmácias, perfeitamente inúteis”.

Sobre a Semana de Arte Moderna: “Como na peça de Shakespeare, muito barulho para nada”; “Os modernistas se ajoelham diante das rodas de um Ford como os parnasianos diante das patas do Pégaso”. Sobre Chaplin: “Pouco sei de Proust, quase nada de Bergson e absolutamente nada de Einstein. Mas sei toda a alma de Carlitos, e isso me faz riquíssimo”. “Só houve um cristão: Cristo”; “Nunca me arrependi de haver atacado. Só de ter elogiado” etc.

Poucos escreveram tanto e tão bem sobre literatura no Brasil como Agrippino. Temido e famosíssimo em seu tempo, é pouco lembrado hoje. Foi seu erro: escreveu no Brasil.


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Texto de Ruy Castro, publicado na Folha de São Paulo

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Série Traduzindo a Música Gauchesca - Do Fundo da Grota

Com a série Traduzindo a Música Gauchesca, pretendo destacar algumas palavras, termos e versos de clássicos do cancioneiro Rio Grande do Sul. A fonte de pesquisa para explicá-los são dicionários voltados a esmiuçar essa língua falada no sul do país. A primeira canção a ser vertida para o português mais formal é Do Fundo da Grota, que foi composta e gravada por Baitaca (nome artístico de Antônio César Pereira Jacques), em 2002, no disco Meu Rio Grande é Deste Jeito.

Aliás, baitaca é o mesmo que maitaca, um tipo de ave, da família do papagaio. Um outro significado possível é pessoa faladeira, tagarela.

A música

Do Fundo da Grota

Fui criado na campanha / Em rancho de barro e capim / Por isso é que eu canto assim / Pra relembrar meu passado / Eu me criei arremendado / Dormindo pelos galpão / Perto de um fogo de chão / Com os cabelo enfumaçado

Refrão:

Quando rompe a estrela d'alva / Aquento a chaleira já quase no clariá o dia / Meu pingo de arreio relincha na estrevaria / Enquanto uma saracura / Vai cantando empoleirada / Escuto o grito do sorro / E lá do piquete relincha o potro tordilho / Na boca da noite me aparece um zorrilho / Vem mijar perto de casa / Pra inticá com a guapecada

Numa cama de pelego / Me acordo de madrugada / Escuto uma mão-pelada / Acoando no banhadal / Eu me criei xucro e bagual / Honrando o sistema antigo / Comendo feijão mexido / Com pouca graxa e sem sal

Refrão

Reformando um alambrado / Na beira de um corredor / No cabo de um socador / Com as mão rodeada de calo / No meu mango eu dou estalo / E sigo a minha campereada / E uma perdiz ressabiada / Voa e me espanta o cavalo

Refrão

Lá no santo do capão / O subiar de um nambú / Numa trincheira o jacú / Grita o sabiá nas pitanga / E bem na costa da sanga / Berra a vaca e o bezerro / No barulho dos cincerro / Eu encontro os bois de canga

Refrão e fim

A tradução

Banhadal – Banhado grande, terreno alagadiço.

Cama de pelego – cama improvisada no chão, utilizando a pele de carneiro ou de ovelha, com a lã natural.

Campanha – Zona de campo, apropriada à criação de gado. Local distante da cidade; interior.

Cincerro – Campainha grande que se pendura ao pescoço de determinados animais para fins de condução ou manejo.

Estrela D’Alva – É como também é conhecido o planeta Vênus. Porém, no contexto da música, imagina-se que o autor esteja afirmando que a noite está acabando e, por obvio, o dia raiando.

Guapecada – o mesmo que guaipecada. Guaipeca é um cão pequeno, cusco. Um cãozinho ordinário, vira-lata, sem raça definida.

Mango – Punho, empunhadura ou cabo de um relho ou de um facão.

Pingo – Cavalo de montaria.

Piquete – Nas estâncias, espaço cercado, próximo das casas, usado para prender e manejar animais de serviço diário.

Potro tordilho – Potro é um cavalo novo ou não, ainda xucro ou com apenas alguns galopes. Já tordilho se refere a cor da pelagem do animal, que é predominantemente branca, salpicada de pontos pretos.

Xucro e bagual – Ambos se referem a equino selvagens, ainda não domados. Há diferenças. Bagual é arisco, abrutalhado, rude, grosseiro, bravio, bonito, vistoso, indômito, muito grande. Pode ser usado tanto no sentido pejorativo como elevado. Já xucro, no caso de uma pessoa, está mais para alguém sem trato social. Diferente de bagual, não cabe como elogio.

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Bibliografia usada como fonte de consulta para a série: Dicionário de Regionalismos do Rio Grande do Sul (Zeno e Rui Cardoso Nunes), Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense (Aldyr Garcia Schlee), Dicionário de Expressões Populares da Língua Portuguesa (João Gomes da Siveira), Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Morta (Alberto Villas), Aves Silvestres do Rio Grande do Sul (W. Belton e J. Dunning), Contos Escolhidos (Cyro Martins; glossário organizado por Aldyr Garcia Schlee), Wikipédia e consultas na internet diversas. 

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

A Calça da Adidas

Era um tempo de crise. Como esse tempo de agora. Só que era diferente. Era um tempo onde se comprava carne, qualquer uma, para estocar. Pois faltava carne. Amontoavam-se os cortes no minúsculo freezer da geladeira. E o osso ainda ia para a sopa para dar gosto. Não escapava nada. 

Calçado era um de ir pra escola e um para sair. Só que se saía muito pouco. As roupas que ficavam gastas eram costuradas, reformadas. E assim ia se levando. 

Foi nesse tempo bicudo que apareceu uma calça da Adidas no varal. Dividíamos os varais, aqueles de roldanas, localizados no vão dos prédios, com a vizinha da frente, a pacata Dona Santa. Decerto que a velha não teria uma calça da Adidas. Então...

- De onde veio essa calça aqui? – perguntou meu pai.

- Minha que não é – me adiantei.

- É tua essa calça, mulher? 

- Aham – se entregou minha mãe. 

- E como tu comprou uma calça de marca? 

- Não é de marca.

- Como assim? Tá aqui ó: Adidas.

- Não é. Ela é falsificada.

- Nossa, mas que bem feita! 

- Sim! Tem muitas coisas falsificadas nos camelôs. Tudo da China, mas de boa qualidade. E custa menos da metade de uma original.

- Tu vê... Daí, está valendo mesmo. 

Eu ouvi tudo aquilo quieto, intrigado. Depois, fui no varal ver a tal calça. Muito bonita. Tecido macio. As três listras ao longo das pernas. Parecia original. Será que tinha masculina, tamanho M? Ia ser legal ir para escola com uma daquelas. 

- Mãe, em qual camelô tu comprou aquela calça? Na Assis Brasil ou no Centro?

- Que calça? 

- A da Adidas. Queria uma igual pra mim. E se é barata, tava pensando que...

- Comprei na Mesbla.

- Mas tu falou para o pai que foi no camelô.

- E tu acha que vou comprar porcaria em camelô?! Só falei para teu pai não me encher a paciência. A gente, de vez em quando, tem que comprar o que gosta, meu filho... Por favor, vamos viver para que então?!

E ela foi emendando uma frase na outra, dizendo que não aguentava mais aquilo tudo. Afirmou que as coisas estavam pior que quando ela era criança, no Sarandi, onde a porta do forno do fogão era amarrada com um arame, etc etc etc. 

Eu ouvi e entendi a revolta da minha mãe, porque eu também queria uma calça original da Adidas.

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

A Nova Opinião Formada Sobre Tudo



Dia desses, no famigerado grupo de Whats App, um amigo discorreu longamente sobre o Afeganistão. Tinha opinião formada e um aparente entendimento da região, cultura, política, costumes e etc. Ele nos falou da tomada do poder por parte dos talibãs. Apresentou-nos um card, afirmando que o país só foi dominado porque a população afegã não tem porte de armas. Caso tivesse, seria bem possível que o golpe de Estado não ocorresse, pois as pessoas lutariam de revólver em punho contra os mísseis e tanques dos tais talibãs.

Esse meu amigo sabia a orientação político-ideológica dos que agora comandam o país, se eles são de esquerda ou direita. Afinal, isso é muito importante hoje. Eu li tudo embasbacado! Se alguém me der um mapa, não sei apontar ao certo onde fica o Afeganistão. E meu amigo, que nunca esteve lá, nunca leu um livro sobre ou conheceu, de fato, um afegão, sabia tudinho.

Impressiona como as pessoas se tornaram menos ignorantes com as redes sociais. Teve outro amigo que, mesmo trabalhando com venda de roupas, se especializou em infectologia. Ao saber que um conhecido nosso, também participante do grupo do Whats App, teve Covid-19 e foi hospitalizado na UTI, salvando-se depois de quase um mês de internação, questionou o procedimento do médico. “O doutor não aplicou o tratamento precoce de forma correta. Provavelmente, a medicação foi prescrita tardiamente”.

São tantas coisas que aprendemos diariamente nesses grupos. Por isso, a gente não consegue mais fazer outras tantas coisas interessantes, como passear, brincar com o filho, namorar, ou, simplesmente, não fazer nada. Temos sede de conhecimento. Queremos saber das coisas que acontecem. E o Whats App tá cheio de gente para nos informar e explicar.

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Texto publicado originalmente no jornal Diário de Canoas, no dia 25 de agosto. 

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Verdureiros do Centro de Porto Alegre


Eles têm a mania de abordar as mulheres, indiferente da idade da mulher, da mesma maneira. “Oi, guria!”. A maioria delas já nem olha mais para os verdureiros, porque eles estão por toda a parte do Centro. Os verdureiros, os camelôs, os ônibus, as filas nas paradas de ônibus, os haitianos, os dálias do compro ouro/vendo ouro, os locutores das lojas de varejo e os moradores de rua são as figuras fixas do quadro que alguém um dia ainda vai pintar de Porto Alegre. Se é que ainda se pintam quadros em 2021... Se é que ainda se pintam quadros em Porto Alegre... Mas voltando aos homens do hortifrúti. Eles, obviamente, não se restringem a atuar nas áreas delimitadas pela prefeitura. Suas frutas, verduras e legumes, com suas cores e cheiros, tomam conta das calçadas e calçadões em um raio significativo do Centro Histórico. São personagens muito parecidos, os verdureiros. Grande parte veste um guarda-pó azul, que lhes confere uma certa respeitabilidade. Eles não possuem balança para pesar os produtos e efetivar suas transações. É tudo a preço fixo. Ao mesmo tempo, é tudo negociado. Seja o que está embalado. Seja o que está a granel. Nesse último caso, a pesagem é no olho. Os preços são em conta porque, até onde se sabe, não há aluguel para quem trabalha na rua. Maçãs, tomates, bananas, brócolis, mamões, alfaces, couves-flores, aipins, cebolas... Tudo vem da Ceasa, que fica a mais de dez quilômetros da área central. Agora, se os produtos são frescos ou não, quem haverá de saber? Só apalpando, vendo, auscultando, sentindo. É assim que é. Quando faz Sol é tranquilo. Quando chove é problema. Contudo, sempre surgem gazebos ou enjambrinas com lonas que protegem verdureiros e clientes do aguaceiro. O lado negativo é que a circulação fica mais complexa e conflituosa. Guarda-chuvas, marquises, gazebos. Os verdureiros começam cedo na labuta e só saem depois da maioria ter evaporado. É no fim da tarde, quando não é noite, nem dia, que as abordagens ficam mais agressivas. As vozes se elevam, se exaltam. Citam preços e promoções relâmpagos. É uma feira livre todo santo dia. Então, se a mulher quer uma fruta, legume ou verdura, ela atende ao primeiro contato. O tal “Oi, guria!”. Se ela não quer, segue seu caminho.

Oi, guria!
Cléber?!
Eu mesmo! Fátima?!
Sim! Como tu tá?
Indo… E tu?
Comigo, tudo certo. Tá morando na Vila dos Sargentos ainda?
Não tô mais. Agora, tô no Sarandi.
Bah, que longe!
Pois é. Continua vivendo com o Davi?
Aham. Desde aquela época. Temos três filhos. Dois guris e uma guria. O guri já é adulto. Vinte e poucos anos na cara.
Meu Deus, o tempo passa!
Passa voando. E tu, casou?
Não casei. Continuo solteiro.
Vai ficar pra titio, hein?
Pior… E tô cheio de sobrinhos mesmo. Nem sei o nome de todos.
Nossa, que fedor de mijo que tá aqui!
É o Centro né?
Tá terrível esse cheiro. Como tu consegue?
Costume.
Quanto tá a banana?
Cinco o cacho.
Qualquer cacho?
Qualquer cacho.
Vou querer aquele maiorzinho ali.
Quer colocar na sacolinha?
Sim.
Ó! Que bom te ver, Fátima.
Igual. Fico feliz em saber que tu tá bem.
Manda um abraço para o Davi. Saudade dele.
Pode deixar. Vou avisar que tu trabalhando por aqui.

Ela botou a sacolinha com a banana dentro de uma outra sacola maior e partiu rumo ao terminal de ônibus. O verdureiro seguiu. Avistou uma velha, a uns três metros, e a saudou: “Oi, guria!”. 


quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Negócio de Menino - Rubem Braga

 


Tem dez anos, é filho de um amigo, e nos encontramos na praia:


– Papai me disse que o senhor tem muito passarinho…

– Só tenho três.

– Tem coleira?

– Tenho uma coleirinha.

– Virado?

– Virado.

– Muito velho?

– Virado há um ano.

– Canta?

– Uma beleza.

– Manso?

– Canta no dedo.

– O senhor vende?

– Vendo.

– Quanto?

– Dez contos.


Pausa. Depois volta:


– Só tem coleira?

– Tenho um melro e um curió.

– É melro mesmo ou é vira?

– É quase do tamanho de uma graúna.

– Deixa coçar a cabeça?

– Claro. Come na mão…

– E o curió?

– É muito bom o curió. 

– Por quanto o senhor vende?

– Dez contos.


Pausa.


– Deixa mais barato…

– Para você, seis contos.

– Com a gaiola?

– Sem a gaiola.


Pausa.


– E o melro?

– O melro eu não vendo.

– Como se chama?

– Brigitte.

– Uai, é fêmea?

– Não. Foi a empregada que botou o nome. Quando ela fala com ele, ele se arrepia todo, fica todo despenteado, então ela diz que é Brigitte.


Pausa.


– O coleira o senhor também deixa por seis contos?

– Deixo por oito contos.

– Com a gaiola?

– Sem a gaiola.


Longa pausa. Hesitação. A irmãzinha o chama de dentro d’água. E, antes de sair correndo, propõe, sem me encarar:


– O senhor não me dá um passarinho de presente, não?

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Crônica publicada originalmente em 26 de julho de 1966, no jornal Diário de Notícias

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Os Acorrentados de Sacalina


Se existem cães, são apáticos, não bravos, e que, como eu já disse, só latem contra os guiliaques, provavelmente, porque eles usam botas feitas de couro de cachorro. E por alguma razão esses cães mansos, inofensivos, ficam presos. Se há um porco, traz um bloco de madeira preso no pescoço. Os galos também ficam presos pelo pé. 

"Para que você mantém os galos e os cachorros presos?", pergunto ao proprietário.

"Em Sacalina, todo mundo vive acorrentado", responde ele, mordaz. "Esta terra é assim".