segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

We Are The People - Poema de Lou Reed na voz de Iggy Pop

Poema de Lou Reed, escrito em 1970 e até então inédito. Iggy Pop o gravou em Free (2019) acompanhado pelo trompete e piano de Leron Thomas.

Um trecho do poema diz mais ou menos assim

Nós somos as pessoas sem direito/ Nós somos as pessoas que conheceram apenas mentiras e desespero/ Nós somos as pessoas sem país, sem voz ou espelho


domingo, 17 de janeiro de 2021

O Velório – Conto de Bernardo Kucinski


Um enterro especial requer um caixão especial. O velho Antunes escolheu o modelo mais bonito. Um ataúde de imbuia maciça munido de braçadeiras e fechos de bronze, com acabamento em laca da Índia. Para o velório, encomendou quatro velas grandes em castiçais de prata sobre colunas de alabastro. E uma coroa de flores com faixa de seda azul e branca na qual mandou escrever: “Ao Roberto, dos seus pais, tios e irmãs, que nunca te esqueceram”.

Na parede dos fundos da sala, transformada em câmara mortuária, um pouco acima da altura do caixão, Antunes mandou pendurar um retrato do filho tirado na sua formatura, no qual ele está ligeiramente de lado, de modo a ressaltar seu perfil anguloso. O filho tinha olhos negros como os do pai, cabelos ondulados, lábios grossos e queixo saliente. Puxou o pai, o velho não se cansou de repetir esses anos todos.

Era uma fotografia pequena que ele pediu ao japonês da loja Kodak para ampliar. Preferiu essa a outro retrato, bem maior, do filho com toda a turma de formandos, por causa da beca e do destaque aos traços enérgicos. O Kazuo precisou refotografar, porque não havia negativo. Roberto era o filho mais velho. Formara-se em engenharia civil.

Antunes acabou de completar noventa anos. A família é longeva. Sua irmã Hermínia, que chegou cedinho e ajudou a montar o velório, está com oitenta e sete anos; as outras duas irmãs têm uma oitenta e quatro e a outra oitenta e um anos. O irmão mais velho morreu no ano passado com noventa e três. Foi quando ele decidiu fazer o enterro do filho. Pensou: nosso limite é entre noventa e noventa e três. Meu irmão, Deus já levou. Logo será minha vez. Não quero morrer sem enterrar o meu Roberto.

Explicou a ideia à patroa. Devota, dona Rita foi consultar o padre Gonçalves, que não disse nem sim nem não; pediu tempo para poder consultar o bispo. Na semana seguinte, o padre explicou que, nas circunstâncias, não oficiaria missa de corpo presente nem de sétimo dia, mas levaria conforto à família no velório e no sepultamento.

Ao contrário do marido, que se tornou um homem seco e calado, dona Rita ainda chora quase todas as noites a ausência do filho. Também por isso o velho Antunes decidiu fazer o enterro. Pela sua Rita, pelas irmãs do Roberto, pela família toda. Os mortos têm que ser enterrados.

As vizinhas também vieram cedo. As irmãs Mercedes, do lado de baixo da rua, e a Diva, do lado de cima, ajudaram na preparação dos salgadinhos e sanduíches. As Mercedes são solteironas e vivem sós. No começo fofocaram sobre o sumiço do Roberto, depois não. A Rita diz que não foi por maldade. A Diva sofreu como se fosse parente; a filha dela, a Cristina, era ligada ao Roberto. Fizeram o grupo escolar na mesma classe, depois o ginásio. Iam juntos, voltavam juntos. Não chegaram a namorar, talvez até porque fossem próximos demais, quase irmãos.

Às dez horas chegaram de Campinas as filhas, Célia e Celina, com os genros e os netos pequenos. Vieram em dois carros, em caravana. Duas horas de viagem. No caminho entraram na chácara das flores e compraram ramalhetes de rosas vermelhas. Elas eram adolescentes quando o irmão desapareceu; tiveram muita dificuldade em entender o que se passava, principalmente Célia, a menor. Os pais não explicavam. Criou-se um segredo de família. No telefone, só falavam aos cochichos.

Primeiro, não queriam que elas soubessem. Depois, quando elas viram a pequena notícia no jornal, pediram que nunca tocassem no assunto com as amigas, com os vizinhos, com ninguém. Diziam que era para o bem delas e de todos. Esse segredo as tornou ainda mais ligadas. Só muito tempo depois é que os pais contaram o pouco que sabiam. Os velhos nunca voltaram a ser como antes, viraram outras pessoas, distantes, tristes. Nos últimos anos, com a vinda dos netos, voltaram a sorrir.

Logo chegam mais moradores da ladeira, com seus filhos e netos. Crianças correm pela casa toda. Deixa correr, diz o velho Antunes. Quero um velório alegre, como era o Roberto. Mas velório é sempre solene. Os homens formam rodas austeras e conversam a meia voz. As mulheres ocupam as cadeiras ao longo das paredes e falam aos cochichos.

As irmãs Mercedes circulam as bandejas com os salgados, os sanduíches e copos de guaraná. Aos poucos as conversas se tornam mais animadas. Alguém critica a devassidão nos programas de televisão. A Maria bordadeira, do outro lado da rua, comenta a decisão da Prefeitura de trazer o asfalto até o bairro. Diva trouxe um álbum de fotografias em que aparecem o Roberto, a filha dela e outros rapazes e moças. Sucedem-se comentários e lembranças sobre esse e aquele.

Às onze e pouco chega o Teixeira, cunhado do Antunes, irmão mais velho da Rita, alto e gordo. Veio de Bauru com a mulher, dona Isaura, uma senhora quieta que se mostra sempre submissa. Teixeira é abonado, dono de fazenda. Uma ocasião recusou um pedido de empréstimo do Antunes para cobrir um ano de safra ruim. Era ninharia. Ficaram dez anos sem se falar. Mas quando o Beto desapareceu o Teixeira se mexeu mais que ninguém. Era gamado no Roberto, seu primeiro sobrinho. Chegou a ir para Brasília falar com uns homens que ele conhecia. Não adiantou.

Teixeira dá um abraço no Antunes, outro na Rita; por alguns minutos o vozeirão dele domina o velório. Depois se aproxima de onde está montado o caixão, permanece um tempão olhando o retrato do Roberto na parede. Balança a cabeça, inconformado. Isaurinha conversa com Rita na cozinha. As duas se fitam por um longo minuto. Depois se abraçam. Ambas são mais novas que os maridos, mas parecem mais velhas. 

Às duas da tarde a casa está cheia e o povo transborda pela calçada, para cima e para baixo da ladeira. O sepultamento está marcado para as quatro, antes da chuva. Circulam mais bandejas com sanduíches, broa de milho e cuscuz de sardinha. É quando chega o Dino violeiro, amigo de infância do Beto, acompanhado de outros dois, um de nome Alcides e o outro, Mário. O Dino fez até o colegial. Jogou muito futebol com o Beto. Iam juntos à matinê. No sábado à noite paqueravam as moças em torno do coreto. Quando o Beto foi para São Paulo fazer faculdade, Dino ficou no armazém ajudando o pai. Depois formou esse conjuntinho de violeiros.

Os músicos entram para cumprimentar o velho Antunes e dona Rita. Depois se aproximam do ataúde, tiram os chapelões de palha, respeitosos. Fitam a fotografia na parede, depois saem dando passadas cuidadosas, cumprimentando as outras pessoas à direita e à esquerda com um menear de cabeça. Lá fora, depois de algum tempo, tocam uma toada triste com um refrão que diz “Nossa vida passa, é como fumaça…”. Lá dentro os convidados comentam acontecimentos. Quem casou, quem descasou. Quem teve filho. O farmacêutico Diogo conta mais um de seus causos. A Diva continua circulando o álbum de fotografias. Do quintal emana um aroma de churrasco. É o Alcebíades, da banca de jornal, churrasqueiro fanático. Os violeiros agora vão para o quintal, onde há mais espaço. O velho Antunes manda que cantem música alegre e eles respondem com o samba da fita amarela: Quando eu morrer, não quero choro nem vela, quero uma fita amarela, gravada com o nome dela.

Aparecem duas senhoras com jarras de refresco de limão e abacaxi. Alguém distribui picolés à garotada. Às três da tarde tem-se a impressão de que todos os viventes da cidade estão no velório do Roberto, inclusive os cachorros e os gatos. Comentam que nunca houve um velório tão concorrido. Não se vê ninguém nas outras ruas, na praça da matriz, na rodoviária. Virou cidade fantasma. É quando surge lá longe, no topo da ladeira, meio esfumaçado como se fosse assombração, o Chevrolet preto da Prefeitura. O carro se aproxima lentamente e para um pouco antes do terraço dos Antunes. Descem o prefeito Belisário, o delegado de polícia, dr. Costa, e o padre Gonçalves.

À chegada das autoridades, o povo abre espaço. Os novos visitantes entram, o prefeito à frente; acenam para uns, inclinam a cabeça para outros. Um de cada vez, oferecem condolências ao velho Antunes, depois se dirigem ao ataúde. Fitam a fotografia do Roberto longamente em postura de reverência. Conversam um pouco entre si em voz baixa. Dona Rita vem da cozinha e cumprimenta o prefeito e os demais, agradece a visita, pede bênção ao padre. Alguém oferece refresco de limão às autoridades. Padre Gonçalves ergue o braço, pedindo silêncio, e sem esperar dá início a uma oração pelos mortos: “Pai santo, Deus eterno e Todo-Poderoso, nós Vos pedimos por Roberto Antunes, que chamastes deste mundo. Dai-lhe a felicidade, a luz e a paz… que sua alma nada sofra…”. Algumas vozes acompanham, hesitantes, a oração não muito conhecida. “Perdoai-lhe os pecados para que alcance junto a Vós a vida imortal no reino eterno. Por Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém.”

Às quatro em ponto tem início o saimento. À frente do cortejo, o ataúde é sustentado pelo tio Teixeira, pelo prefeito, pelo Dino violeiro e pelo farmacêutico Diogo. O velho Antunes acompanha, com a mão direita sobre o caixão. Faz força para caminhar ereto e com passadas firmes. Sente-se exausto mas feliz. Seu sonho de tantos anos finalmente se realiza; já pode morrer em paz. E toda a cidade compreendeu. Isso foi o mais importante. Toda a cidade. Até o padre Gonçalves, que primeiro lavou as mãos, depois deu a bênção. É tanta gente que os últimos do cortejo só alcançam a cova dez minutos depois dos primeiros. No céu, bem acima do cemitério, as nuvens engrossam. As duas irmãs do Roberto, Célia e Celina, sobem numa pedra e pedem silêncio para dar início à cerimônia. Passam então a ler uma memória sobre Roberto. Celina lê um parágrafo e passa para Célia, que lê o seguinte. Falam de como ele era quando menino, de suas travessuras, depois de seus sonhos de adolescência, do drama do vestibular, da alegria de ter passado, da colação de grau. Algumas pessoas soluçam. Falam brevemente do sofrimento da família. Depois, em uníssono, agradecem: muito obrigada pela presença de todos vocês.

A um sinal de Antunes, o caixão é baixado à sepultura e padre Gonçalves repete a oração pelos mortos. Pessoas passam rente à cova e atiram punhados de terra, mulheres jogam as rosas vermelhas trazidas pelas irmãs. O coveiro João assume, despejando muito depressa com a pá quantidades robustas de terra. O tio Teixeira de Bauru pega outra pá e apressa o sepultamento. As pessoas começam a dispersar. Caem os primeiros pingos de chuva. O caixão está enterrado. Dentro dele estão um paletó e um par de sapatos do Roberto. Seu corpo nunca foi encontrado.

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O conto integra o livro Você Vai Voltar Pra Mim, publicado em 2014 pela Cosac Naify


quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Obituário de uma gata

Viver uma vida complemente diferente da que se vive. Quem nunca refletiu sobre essa possibilidade? Quem, afinal, tem coragem para mudar o rumo das coisas? 

Sair ileso de um quase atropelamento, de um acidente vascular cerebral, de um amor que chegou ao fim. São muitos os motivos para os seres humanos buscarem a tal nova vida. Digo seres humanos, porque existiu um animal que teve duas completamente diferentes. 

Uma gata chamada Mendi. Em sua primeira metade da vida, ela viveu no bairro Azenha, região central de Porto Alegre. Foi boêmia. Dormiu em bueiros. Revirou lixo. Brigou. Namorou. Perdeu boa parte dos dentes. Um retrato da rua, basicamente. Durante essa etapa caótica e efervescente, a felina resolveu descansar em um motor de uma viatura da EPTC (empresa de trânsito situada na Azenha). 

O resultado dessa má escolha foi o rabo escalpelado e uma internação via extinta Seda (Secretaria dos Direitos dos Animais). Foi tratada, castrada e vacinada. Sua ficha dizia assim: "fêmea, preta, idade e raça indefinidas". Sem um lar, ela retornou para a sede da EPTC. Virou um animal comunitário. Adquiriu um hobby: caçar sabiás. Fato que desagradou os cuidadores dos pássaros, que penduravam suculentas laranjas e bebedouros nas árvores. A população dos sabiás caiu consideravelmente. O que ocasionou um forte protesto. "Seria bom que essa gata arranjasse um dono e saísse daqui, porque como está não dá mais".  

A partir daí, inicia a segunda vida de Mendi. Aliás, nessa etapa ela foi assim nomeada. Tornou-se uma felina classe média, que dividia um bom apartamento com outro gato e dois humanos. Com eles, viveu mais sete anos. Nesse meio tempo, ganhou  a companhia de um novo humano, um bebê, e virou inspiração para o livro "Um gato que se chamava Rex". 

No dia 31 de dezembro Mendi faleceu. Foi vencida por um tumor . Deixou dois donos, Lucas Barroso e Marília Macedo, e, pelo menos, dois grandes amigos, Murilo e Mick (o outro gato). Se epitáfio tivesse, nele estaria escrito "amou, foi amada e morreu". 

Como todas as vidas tem que ser.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Como o Destino Pode Ser Engraçado


Não tem plateia

Não tem circo

Só existe o palhaço


Um homem maquiado 

Que se julga obstinado 

E ri diante do espelho


sábado, 19 de dezembro de 2020

O Som do Silêncio - Filme



Eu queria saber, todas as manhãs que passou naquele quarto, sentado, você teve algum momento de quietude? Porque você está certo. O mundo continua a girar e pode ser um lugar muito cruel. Mas para mim, esses momentos de quietude, esse lugar, esse é o Reino de Deus. E esse lugar nunca vai abandonar você. 

O Som do Silêncio (2020). 

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Amor de Mãe - Conto


Teve uma vez que um cliente pagou o programa com tíquete alimentação. Era lá pelo dia cinco do mês. O maço do cara, Ticket Alimentação, nem tava usado. Destacou os papeizinhos. Aceita no Zaffari? Aceita. Tem certeza? Claro, bota em fé em mim, mulher. E assim foi. Ela fez um ranchinho de cento e cinquenta conto. Chocolate pro guri. Um ovo com brinquedo dentro. Ele ficou o dia todo em função daquilo. Veio um macaquinho no brinde surpresa. Cacaco, mamãe! UU AA! É assim que faz o macaco, filho? É. UU AA! E pulava igualzinho. A vó ria. A velha ganhou aquelas bolachas que vêm numa lata. Produto importado. No fim, os tíquetes vieram a calhar. Se fosse dinheiro, uma boa parte ia pro pó. A noite pede um pó. Todo mundo na boate cheira. A grana que vem, vai rápido. Muito rápido. E tem outra: sempre pintam uns clientes com uns pinos. E dê-lhe raio! Olho de sapo. Garganta seca. Daí, dependendo, o programa sai de graça. Um dia, a gurizada tava pela maldade. Vieram de turma. Coparam o inferninho. Farinhada. Aquele entra e sai do banheiro. Pintou um apartamento de alguém. Proposta indecente. Não podia sair do bordel. Ia se incomodar, mas valia a incomodação. Foi. Uísque. Vodca. Cerveja. Pizza. Gaitada. Som alto. Quando viu, tinha uns quatro em cima. Aquele brilho na cabeça. Deu vontade. Azar. Foi. A gurizada não se aguenta. Na real, se for botar na ponta do lápis, não vale a putaria. Até é bom. Mas demora demais. Não gozam nunca. Pagam de super-herói. Uns com a pílula azul no sangue. E assim aconteceu. Ainda quatro em cima. Um tentou atrás. Desajeitado. Na força bruta. Sem conversa. E a foda tava ruim. Sai fora, otário! Deixa... Aí, não! Que que tu quer?! Já disse que aí, não! Vai te fazer? Vou! Deu pra vocês... Nessa ladaia, ela pulou. Se desvencilhou e meteu uma roupa. Não achava a saia e a calcinha. No pavor, se cobriu com o lençol. Dois vazaram. Tinha muita mulher. Ficar ali, naquela pilha fraca, não era. O que tava no bem-bom, ficou de cara. Porra, mina! Quero gozar! Olha aqui meu estado. A culpa é do teu amigo aí. Eu não tenho nada a ver. Já era. O que queria atrás, de pau ainda duro, olhava o teatro com nojo. Que palhaçada! Palhaçada nada. Tá aqui, na putaria, e quer o quê? Falei que atrás não! Ah, para! Baita puta e se fazendo... Só podia ser nego mesmo. Por isso, não gosto de fuder com nego. E tu é branca por acaso? Nego que nem tu, eu não sou. Terminou de falar e sentiu o tapa. Mão espalmada. Estalo. Com o solavanco, caiu. O amigo segurou o preto. Senão, ia não ser bem pior. Lá, tu não pisa mais, otário! Saiu esbravejando. Cara avermelhada. Choro preso. Fissura do pó. Eu marquei a tua cara, otário! Vou te dedurar pro segurança. É... Aquela gurizada ia se complicar. Leão-de-chacará. Polícia das antiga. Sabia fazer e fazia bem feito. Sabia, se fosse necessário, ser bandido duas vezes. No caminho, dentro do táxi, se acalmou. Não era a primeira, nem a última dessas. Foda-se. Não podia voltar pro puteiro. Amigo, esquece. Toca agora pro São Sebastião, rua Ministro de Oliveira Lima. Onde fica isso? Conhece o Lindoia. Sei. É do lado. Não tinha sono. Não tinha raiva. Não tinha assunto. O pó ainda na mente. Só ruas desertas. Só aquele pretume de sempre. Chofer calado. Homem velho. Curtido. Deu quinze reais, moça. Não tenho dinheiro. Como não tem? Achei que tinha e não tenho. Vai na tua casa, pega. Eu espero aqui. Não posso, moro com a minha mãe, não posso acordar ela agora. E como vamos resolver? Eu não tenho a noite toda. Sabia o que tinha que fazer. E fazia bem feito. Começou a função. O taxista não conseguia finalizar. Se amoleceu. Pediu que botasse o dedo atrás. O velho se ajeitou no banco. Deu espaço. Meteu um dedo. Meteu dois. E ele se acabou. Boca cheia. Cuspiu nos paralelepípedos sujos. Se limpou melhor e entrou. Tentou não fazer barulho. Primeiro, foi olhar o guri que dormia. Na luz fraca, uma brecha da persiana, apenas o bico se mexia na boca. Subia e descia, junto da respiração. Depois, abriu a geladeira. Uma sombra. A velha tava na cozinha. Tem café passado na térmica. Eu sei. Por que veio mais cedo? Tem noite que não vale a pena, mãe. E essa cara? Acontece. Vou pegar um gelo pra ti. Deixa, mãe. Eu pego. Vai dormir. Vou, mas aproveita e vai dormir também. Vou ficar mais um tempo, comer um pão, ver uma tv. Tá bem, filha. Boa noite! Boa noite, mãe! Bateção de obra na vizinhança. Sempre tem uma porra de uma obra. Não sabia a hora. Não viu o gurizinho ser levado pra creche. Não viu a mãe sair pro trabalho. Dia seco. Sem o frescor da noite. O Sol, assim de supetão, chegava a doer na cabeça. Saiu. Centro. Avenida Salgado Filho. Edifício comercial. De dia também tinha negócio. No intervalo dos seus trabalhos, muitos homens iam ali. Programas rápidos. Sem papo-furado. Hoje, tava ruim. Ruim sim, mas sempre tem um pó. Pouco. Buchinha. A amiga deu. Deu nada. Ia cobrar depois. Vagabunda. Coisa ruim. Fura-olho do caralho. Quem presta? Impaciente. Vazou. Partiu pro plano B. Cine Apollo. Fim de linha. Mas azar. Às vezes, dava jogo. Não dessa vez. Só pederasta. Só putão. Meia dúzia, na real. Encostou no Gerente. Tem um pó aí? Não tenho filha desse tamanho. Bah, tá assim, é? Tu sabe como conseguir. Te vira. Aguentou o desaforo. O filho da puta gerenciava uns dez inferninhos. Gerente... Um baita cu de cachorro! Isso sim. Se foi pra Praça XV. Tá e aí? Estamos aí, né. Que tu quer? Pastel, cachorro, sei lá... Traz alguma coisa. Trouxe e se sentou junto. Tá foda, parceiro. Tá nada. Tu que faz drama. Faço nada. É a real. Tá bom, sete e quinze sai o Pinheiro. Vamos lá pra casa? Riu. Que tá rindo? De graça, tu sabe que não vou, benzinho. Se levantou. Fez beiço. Tu vai se morder comigo? Não quero papo de amigo, pô. Então, tá. Deu um beijo nele e foi. Desistiu de pedir um troco emprestado pra matar a fissura. Ficou sem jeito. Homem é tudo trouxa. A fonte tava seca e o Sol começava a baixar. Dia ruim. Tem dia que é noite, diz o ditado. Chegou cedo na boate. Botou meia-calça. Preparava a maquiagem. Caiu da cama é? Aham. Tu viu que mataram um cara no Carrefour ontem? Qual Carrefour? O do Viaduto Obirici. Por quê? Sei lá. Os seguranças espancaram o cara. Alguma coisa ele deve ter feito. Pois é. E teu guri? Que que tem? Conseguiu comprar os óculos? Ah, comprei, sim. Tadinho. Tão cedo e ter que usar óculos. Peguei um bom. Dei o dinheiro pra minha mãe comprar. Ainda não vi se deu certo. Mas a mãe disse que ficou certinho no rostinho dele. E ontem? Que que tem ontem? Tu saiu e não voltou. Vai te incomodar. Azar. Se eles me encherem o saco, eu saio fora. Sei... Queria um pó. Tem aí? Não. Mas vai chegar. Sabe o Décio? Aquele altão moreno? Isso. Se apegou de um jeito... Risos. Diz que vem me ver hoje e vai me trazer. Risos. Homem é tudo trouxa mesmo. Tic tac nervoso. Foi pro salão. Puxou a fila. Vontade enorme de dar um teco. Movimento fraco. Queria o quê? Horário de novela. Uma mulher entra. Garçom atende. Conversa comprida. Garçom faz sinal. A situação era a seguinte: queria um programa para o filho. Não faço com menor. Ele não é menor. É que é assim ó... E contou a mesma história que relatou pro garçom. E completou dizendo que pagaria um extra de cem conto se desse tudo certo. Ok. Topou. A própria mãe subiu junto. Deixou o filho na porta do quarto. Tchau, mamãe! Tchau! Fica aí com a moça que a mãe já volta. Antes de fechar a porta, pediu confiança. Por favor, se der algo errado, me liga. Certo, pode deixar. Ele tinha 25 anos, segundo a mãe. Gordinho. Barba rala. Cabelo ensebado. Estava sentado na cama redonda. Tinha síndrome de down e olhava admirado o globo no teto. Que legal isso! Tu gostou? Aham, muito. Ela, então, ligou. As luzes coloridas em profusão. Aquele movimento todo. Nossa! Parece uma festa. Sabia que eu já fui numa festa? Se levantou e tentou tocar. Se desequilibrou. Rápido, ela o segurou. Eu quase caí. Tu que me salvou, moça. Aham, eu te salvei. Eu ia bater com a cabeça no chão. Sabia que já bati com a cabeça no chão? Doeu muito, moça. E onde foi que tu bateu? Aqui atrás, ó. Ela passou a mão na nuca e seguiu pelas costas. Ai, ai, coceguinha, moça. Tu tem namorada? Eu não! O pai disse que mulher não vale nada. Nunca teve? Tive só a Marília. E como foi? Ela não gostava de mim e tinha outro namorado. Seguiu a conversa infrutífera até perguntar se ele já tinha visto uma mulher sem roupa. Eu já vi a minha mãe e a Taís. Quem é a Taís? Taís é minha prima por parte de pai. Tirou a roupa. A Taís era assim? Ele enrubesceu. O programa continuou com pega-pega e muita brincadeira de cócegas. Na metade do tempo previsto, ligou para a mãe do rapaz e informou que tinha dado tudo certo. Graças a Deus! E o que eu faço agora? Espera que tô indo aí pra buscar ele. Se despediu e agradeceu bastante. Voltou pro salão. Não aconteceria mais nada naquela noite. A fissura milagrosamente havia passado. Inventou uma dor de cabeça. Avisou o pessoal. Já é a segunda noite seguida que tu sai assim. Eu sei. Tu vai te incomodar. Cagou pra advertência. Juntou as coisas. Vazou. Pegou um taxi e foi pra casa. Dessa vez, seu filho estaria acordado e eles iriam se ver. 


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Agradeço ao amigo Caco Belmonte (escritor, ghost writer, jornalista) pelas sugestões valiosas na edição do texto.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

O Tempo Já Não Importa na Quatro Cinco Um


O Tempo Já Não Importa na edição de outubro da revista Quatro Cinco Um. Uma das boas publicações brasileiras com foco na Literatura. 

https://quatrocincoum.folha.uol.com.br/br/listao/poesia