terça-feira, 7 de julho de 2020

Dois Poemas na revista Ruído Manifesto


São tão raros os espaços para divulgar literatura que, quando se consegue um deles, vale comemorar.

Saiu na revista Ruído Manifesto dois poemas meus: "A mulher tinha ido embora há três semanas" e "Estamos em guerra, você não viu?". Ambos, estão no meu livro mais recente, O Tempo Já Não Importa (editora Artes & Ecos).

Link - http://ruidomanifesto.org/dois-poemas-de-lucas-barroso/?fbclid=IwAR2cLjWL1E_oyWUxV08U8G8gj5tTBQdh-RWLcUQUgqQ0XNXYmrxdLzZc8Po

terça-feira, 16 de junho de 2020

Entrevista para o Tons e Letras, da FM Cultura - O Tempo Já Não Importa


Entrevista com Luis Dill, para o programa Tons e Letras, da FM Cultura. Em um momento aí, conto como um livro meu (que acabou nunca sendo lançado) foi parar num lixão por causa de um caso de amor fracassado.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

Ponto de Virada


Só quando se é pai e mãe é que se entende e se sente certas coisas. Eu jamais fui de chorar. Jamais cedi a pieguice. Isso até ter um filho. Quando meu guri nasceu, não chorei. Ao contrário, sorri. Mas quando a enfermeira do Hospital Conceição me mandou embalá-lo e cantar algo pra ele, não me aguentei. Ali, foi o ponto de virada. Uma parte de mim, dura e sisuda, ficou para trás.

Hoje, por exemplo, eu não consigo mais ouvir certas músicas sem ficar profundamente comovido. É o caso de Lady Laura. No clássico, de Roberto e Erasmo, o Rei diz que tem "às vezes, vontade de ser novamente um menino" e vai relembrando tudo que sua mãe, a Laura, fazia por ele.

Óbvio. Penso na minha mãe, penso na minha vó e choro. Tudo que elas fizeram, e que Lady Laura fez, é bonito demais. Se doar e se entregar para alguém. Alguém que não sabe, muitas vezes, o que fazer. Guiar uma vida e estar presente nos momentos difíceis. É uma dádiva.

Olho meu guri. Olho para trás. E, só agora, realmente compreendo tudo que se passou.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

'Aquele Gilberto Dimenstein de antes do câncer morreu'


Sonhei com uma mulher dizendo que eu estava com câncer. Sou super-racional, acredito na ciência, na lógica. Mas foi um sonho tão claro que fiquei encasquetado.

Fui aos médicos, fiz colonoscopia, endoscopia, ultrassonografia, não achavam nada, mas eu continuava impressionado. Um gastroenterologista pediu uma tomografia, "só para tirar a dúvida".

Fui às 22h, o resultado começou a demorar. Veio um enfermeiro e perguntou se não sentia muita dor, porque tinha pancreatite, mas eu não sentia nada. Não sentia nada. Procurei na internet: pancreatite dá em quem bebe —sou abstêmio há seis anos— e em quem tem vesícula —que eu já tinha tirado. Era câncer.

No dia seguinte, já estava no hospital. Tirei o tumor bem no comecinho, o que aparentemente era boa notícia.

Mas, passadas três semanas, ele estava no fígado. Fizemos quimioterapia para operar, mas, em vez de parar, o tumor cresceu. Passei quatro meses de tantas más notícias... muita febre todo dia, comecei a já me preparar para a despedida. Foi o meu período pessimista.

Hoje —é até difícil falar ​isso— estou vivendo o momento mais feliz da minha vida. Aquele Gilberto Dimenstein antes do câncer morreu. Nasceu outro.

Câncer é algo que não desejo para ninguém, mas desejo para todos a profundidade que você ganha ao se deparar com o limite da vida. Não queria ter ido embora sem essa experiência.

Grande parte da minha vida foi marcada pelo culto a bobagens: ganhar prêmio, assinar matéria na capa, o tempo todo pensando no próximo furo. É como se estivesse passando por um lugar lindo num trem em alta velocidade, vendo tudo borrado.

Quando você tem um câncer (ainda mais como o meu, de metástase e de pâncreas, um tipo muito agressivo), não há alternativa. Ou vive o presente ou sua vida vira um inferno.

E aí começam a aparecer coisas incríveis. Gosto de andar de bicicleta, e comecei a sentir o vento no rosto, como se estivesse sendo beijado. Você vê seu neto deitado com você [Dimenstein tem um neto de dois anos e espera o segundo para daqui a seis meses]. Acorda com os bem-te-vis e escuta os bem-te-vis.

Falar em sentidos é importante, porque meu tratamento tira o gosto, até a água fica ruim. Com o tratamento, também acaba a vida sexual; você fica impotente.

É uma fase de muitos pesadelos, que melhoram com o canabidiol [composto químico derivado da maconha, liberado para uso medicinal].

Tudo isso poderia fazer um cara superinfeliz. Mas as relações emocionais se sofisticam. Descobri só agora a profundidade da relação homem-mulher. Você está com enjoos, dores não apenas físicas, e a pessoa do seu lado o tempo todo. Não conhecia essa cumplicidade nesse nível.

Nós vivemos nos meios digitais a era da indelicadeza, 500 mil pessoas criticando. Eu acabei entrando no mundo das gentilezas. Cada pessoa tem uma palavra, um chá, uma dica de oração, um olhar gentil. O outro mundo vai ficando ridículo.

Com ou sem câncer vamos todos morrer, e se pudermos antecipar essa sensação, vamos evitar várias bobagens. A clareza maior da morte é uma dádiva. Não é o fim, mas um começo.

Pode ser o começo de um belo fim de vida, viver esses momentos com a família, ou um pit stop para voltar melhor. O cara tem que ser muito, muito, muito idiota para não voltar melhor.

Não é que eu ache que morrer é bom, mas você começa a questionar por que existe, e a conclusão é que, se não podemos escolher como entramos na vida, podemos decidir como sair dela.

Quando o médico me disse que eu estava com câncer, passou um dia, dois, três, e não tive medo. Só temia o impacto da minha morte nos outros. Não me senti desesperado. Nada, nada, nada. Até me espantei comigo mesmo.

Em inglês se chama "surrender" [render-se]. Você não está mais no comando, e isso é motivo de alívio. De felicidade, até.

Descobri que meu pavor era passar a vida sem propósito. Olhei para trás, e, apesar de todas as minhas delinquências —que não foram poucas—, acho que fiz mais bem que mal. Mudei minha carreira para fazer um jornalismo que não é de filantropia nem altruísmo, mas de empoderamento, de usar a comunicação para promover causas.

Não inventei nada, o comunicador não faz o vinho. Mas tira a rolha.

Acabei sendo obrigado a deixar de ser aquele jornalista racional, imparcial. Deixei de ser um espectador e passei a ser torcedor. Você vira um eunuco como jornalista, porque passa a querer dar só boa notícia.

Já antes do câncer tinha começado minha "quimioterapia social", na Orquestra Sinfônica de Heliópolis [de cujo conselho Dimenstein é presidente], que esteve perto de fechar. Em nenhum momento neste ano parei de trabalhar, arrecadar fundos, promover esse e outros projetos que acompanho. Não é bondade, é conexão com a vida.

O evangelho segundo são João diz "No princípio era o verbo". É a palavra que gera o poder, e nós, comunicadores, trabalhamos com isso, podemos fazer as pessoas poderosas trabalharem juntas.

Hoje há um enorme desperdício. Há um ditado árabe maravilhoso, "gavião não voa em bando", ainda mais perfeito em inglês, "eagles don't fly together" —eagles tem o mesmo som de egos. Cada um quer ter seu legado, sua placa, seu projeto. Um secretário não trabalha com outro, a prefeitura não trabalha com o estado, um dinheiro enorme sai pelo ralo, sem meta, sem avaliação, sem trabalho articulado, uma catástrofe.

O mundo é como um corpo humano. Há pessoas que espalham infecções, se xingam, se odeiam. [O presidente dos EUA, Donald] Trump e [o presidente brasileiro, Jair] Bolsonaro não criaram isso, mas sintetizam essa cultura da infecção, do ódio, do confronto. E há os glóbulos brancos, as pessoas que não deixam o mundo acabar, que inventaram a anestesia, o antibiótico, descobriram a hélice dupla do DNA.

Meu tumor passou por análise genética —recebi o resultado ontem [sexta, 27]—, e sou um caso de 1% cuja mutação talvez tenha um tratamento promissor. Em ratos, eliminaram o câncer de pâncreas, e estão começando a testar em humanos, procurando a dose certa. Já me dispus a fazer parte dos testes no Brasil.

É até meio canalha, mas penso "será que eu vou ajudar a encontrar a cura?". Para um jornalista que gosta de furos, você se transformar num furo de si mesmo é incrível, né? Mas para ajudar os outros.

Voltei a ficar otimista. Ganhei da minha mulher dois ingressos para ver o [músico] Bobby McFerrin nos EUA, em maio. Já estou com planos para o ano que vem. Você volta a ter projetos, é a vida voltando a circular. Eu acho que tenho muita chance, muita chance.

Vida após a morte? Se for igual a esta, prefiro que não exista. Se eu acordasse e estivessem lá Trump, Bolsonaro, [primeiro-ministro da Hungria, Viktor] Orbán, não sei se queria, não [risos].

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Texto publicado originalmente na Folha de São Paulo

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Pérolas negacionistas da quarentena


A perspectiva é assustadora. O Brasil ultrapassou as 25 mil mortes e 400 mil infectados pelo novo coronavírus. Infelizmente, mesmo após mais de dois meses em estado de calamidade pública (desde 20 de março, data da publicação do decreto federal), vivendo na popular quarentena – ou isolamento social, ou distanciamento, ou até mesmo lockdown em certas regiões – devido à pandemia, o país se tornou o epicentro da Covid-19, conforme divulgou a Organização Mundial da Saúde (OMS), no dia 22 de maio. O Sistema Único de Saúde (SUS) colapsou em alguns estados. Mortos são, diariamente, enterrados em valas comuns.

As causas para esse quadro são diversas. Cabe apontar algumas delas. Desde o princípio, em janeiro, quando só havia casos registrados em Wuhan, na China, o governo federal acionou o modo negação, deixando o planejamento em segundo plano. Foram dezenas (e continuam…) de falas absurdas do presidente Jair Bolsonaro ("Não é isso tudo", "Gripezinha ou resfriadinho", "Brasileiro não pega nada!", "Eu não sou coveiro", "O vírus está indo embora", “É uma histeria", "Sou Messias, mas não faço milagre", "E daí, quer que eu faça o quê?”, "Todo mundo vai morrer, um dia"), ações irresponsáveis como a abortada campanha #BrasilNãoPodeParar, a saída de dois ministros da Saúde, o descompasso e a falta de diálogo com governadores, assim como a ausência de um plano estruturante nas áreas de Saúde e Economia. Um completo desastre de gestão pública.

A nossa maior chaga também está presente. Pululam casos de corrupção. Em administrações estaduais e municipais, o Ministério Público identificou aquisição superfaturada de equipamentos para o combate ao coronavírus, desvios de verbas da máquina pública para outros fins, entre outros escândalos.

Como se não bastasse, temos a insistência de uma grande parcela da população em não levar o vírus a sério (influenciadas por quem será?), promovendo aglomerações, abrindo comércio onde não é permitido e teimando em não usar máscaras de proteção. Tudo em nome de uma pretensa liberdade. Um discurso batido e cansativo. O mesmo que ouvimos quando foi aprovada a Lei Seca, que proíbe aos motoristas dirigir depois de beber álcool. O bebum se acidentava, ou era parado numa blitz, e soltava o clássico “É um direito meu! Se eu quiser beber, eu bebo”.

Somada a isso, uma fábrica fumegante de produção em massa de fake news polui o nosso ar e o deixa irrespirável. As mentiras se dissipam em grupos de WhatsApp e nas tais “mídias alternativas” (uma praga que não vem de agora). O resultado? Polarização e embates diários. Uma grande energia é gasta para desmentir factoides sem pé nem cabeça. O governo federal, é claro, não poderia ficar de fora dessa. No dia 20 de maio, o Ministério da Saúde ampliou o acesso de pacientes, nos primeiros dias de sintomas, à cloroquina, uma medicação até o momento sem nenhuma eficácia comprovada para a Covid-19. É a oficialização das fake news!

Mas o melhor, e o pior, desse cenário grotesco são os pensamentos originais de pessoas que ultrapassaram o nível da negação e atingiram o de delírio. Uma espécie de estado mental zumbi, só que com uma brecha para a, digamos assim, “criatividade” em propor soluções e/ou identificar complôs ativos durante a pandemia. Separei para vocês algumas dessas pérolas que pesquei no WhatsApp (sim, eu não saio dos grupos, sou do tipo que lê tudo):

"O brasileiro é mais resistente. Aqui vai morrer menos gente"

"Tem que liberar o isolamento no começo, para as pessoas criarem anticorpos"

"O governador está quebrando a economia para se reeleger"

"A quarentena só serviu para destruir empresas"

"Para mim, está provado que a quarentena mata mais"

"Se tu for ver, dez mil, em menos de dois meses, são poucas mortes"

"Morreram muito mais de H1N1 no Brasil e ninguém falou nada"

"Os hospitais estão vazios"

"Tem milhares de pessoas morrendo porque não vão ao hospital"

"Vão esperar morrer mais gente só porque a cloroquina não tem homologação da OMS?"

"Milhares de mortes poderiam ser evitadas se não fosse o complô da indústria farmacêutica que é contra a cloroquina, um remédio com patente brasileira"

"Obrigar as pessoas a usarem máscara é tirania"

"Se tudo fosse liberado desde o começo, quem garante que teria mais mortes?"

"Sem liberdade, estamos vivendo exatamente como viviam durante o comunismo"

“Cadê as notícias positivas? A maioria se cura ou nem pega esse coronavírus. Isso, sim, deveria ser manchete”

E tem muito mais. Como dizia a ufanista marchinha da Copa do Mundo de 1958: "Com brasileiro, não há quem possa!".

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Texto publicado originalmente no site Mínimo Múltiplo.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Um Gato que Se Chamava Rex no jornal Zero Hora


Um Gato que se Chamava Rex é uma das dicas de leitura para as crianças na matéria assinada por Ticiano Osório ("15 livros que lemos com as crianças lá em casa"), no Segundo Caderno, do jornal Zero Hora.

Matéria completa no link https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/ticiano-osorio/noticia/2020/05/15-livros-que-lemos-com-as-criancas-la-em-casa-cka70reqn001g015n8efrje46.html

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Trecho de O Invasor, de Marçal Aquino


Uma histerectomia pôs fim ao sonho de Cecília ser mãe. E, a partir daí, alguma coisa se rompeu entre nós. Ela pareceu ter perdido o viço, a força que me atraíra quando a conheci. Tornou-se uma mulher frágil e se contentou com o papel de coadjuvante, sem direito a muitas falas, na farsa que passamos a encenar.

Às vezes, ainda trepávamos – é impróprio dizer que fazíamos amor.

Houve um momento em que eu e Cecília percebemos que nossa relação estava morta. Mas nenhum de nós reagiu. Há certos cadáveres que, por razões que ignoramos, não se decompõem. E não havendo mau cheiro que incomode os vizinhos, não há necessidade de chamar o IML.

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Trecho de O Invasor, de Marçal Aquino (romance, Cia das Letras, 2011)