quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019
Quando Tudo é Novo
Vou a pé com meu filho, o pequeno Murilo, no colo até a creche. Todo o dia o mesmo trajeto de seiscentos metros. Ele vai admirando tudo. Vira a cabecinha com agilidade. É sempre o mesmo mendigo, que diz "bom dia, amiguinho!", as mesmas árvores, as mesmas calçadas de basalto, os mesmos sabiás bicando os butiás caídos pelo chão. O poste de luz enferrujado, que ele insiste em colocar a mão, é o mesmo. Também são os mesmos ônibus que lhe assustam na avenida Protásio Alves.
E ele com aqueles olhinhos surpresos! De quem vê pela primeira vez. É uma cena bonita. Um dia, nessa breve caminhada, quis registrar. Desajeitadamente, tentei fotografar. Desisti. Nenhuma câmera captará isso.
Eu sei que o tempo vai tratar de tornar a vista do meu guri mais dura, infelizmente. Além disso, logo logo ele não se lembrará que olhou as coisas desse jeito, porque assim é a vida.
Já eu, se Deus quiser, ficarei velho e, quando um filme dos dias passar diante de minhas retinas cansadas, ainda terei comigo o olhar do menino Murilo.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019
O Advogado que Trabalhou Com Dolores Duran
Nesses restaurantes de mesas muito próximas, às vezes, acontece de alguém puxar uma conversa. E eu vi, no jeito dele me olhar, que o velho queria assunto. Ele se apresentou. Contou que era morador do Centro. Queria saber minha ocupação. Eu disse que era jornalista.
- Pois sabe que eu sou advogado. E ainda advogo!
- Qual a idade do senhor?
- Oitenta e um. Trabalhei muito tempo com o doutor Adalberto Campos. Não sei se é do teu tempo... Ele aparecia muito nos jornais.
- Não recordo.
- Um grande criminalista, sem dúvida. Trabalhei também com a Dolores Duran. Talvez, ela tu conheça.
- Dolores Duran?
- Sim.
- A cantora?
- Ela advoga até hoje.
- Hum... achei que fosse a cantora.
- Se tu quiser posso cantar uma dela.
- Ah... Não precisa.
- Na verdade, fiz boa parte da minha carreira em Santa Maria. Sou de lá.
- E quando o senhor veio à Porto Alegre?
- Em dois mil e vinte.
- Dois mil e vinte?!
- Apareceu uma oportunidade em um escritório e vim. Cheguei só com a roupa do corpo.
- Não deve ter sido fácil.
- Foi muito complicado. Mas tenho uma vida boa, hoje. Não posso me queixar. Só tô é sentindo falta de dirigir. Adoro carros. Tive que deixar o meu com a minha filha. Agora, é só táxi.
- O senhor tá certo. É mais seguro - e enfiei o garfo no prato cheio.
- Vou te deixar terminar o almoço. Não quero te atrapalhar. E o táxi que eu chamei acabou de chegar.
Nos despedimos. Ele se levantou, pagou a conta e saiu do restaurante. Não havia táxi nenhum lá fora.
terça-feira, 29 de janeiro de 2019
Felicidade é Bem Mais - Uma Espécie de Samba
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| Uma espécie de samba |
É coisa que nem sei
Se ela fosse um samba
Seria difícil de cantar
Mas não custa
A duras penas, tentar
Encontrar a felicidade
A verdade é que não se sabe
Onde ela está
Num sonho, num lugar?
Ou dentro da gente?
Onde a dor também se esconde
E se sente
Não é só mostrar os dentes
E fingir tão bem
Parecer contente
Esbanjando o que não tem
Felicidade é bem mais
É coisa que nem sei
terça-feira, 15 de janeiro de 2019
Top 10 Músicas de Pais e Filhos
Algumas são explícitas relações entre pais e filhos. Outras, não.
Lady Laura (Roberto e Erasmo Carlos) - Roberto Carlos
"Quando eu era criança podia chorar nos seus braços / E ouvir tanta coisa bonita na minha aflição/ Nos momentos alegres/ Sentado ao seu lado, sorria/ E nas horas difíceis podia apertar sua mão"
Naquela Mesa (Sérgio Bittencourt) - Nelson Gonçalves
"Naquela mesa tá faltando ele / E a saudade dele tá doendo em mim"
Poema (Cazuza e Frejat) - Ney Matogrosso
"Porque o passado me traz uma lembrança / Do tempo que eu era criança/ E o medo era motivo de choro/ Desculpa pra um abraço ou um consolo"
Minha História (Lucio Dalla e Paola Pallottino, versão Chico Buarque) - Chico Buarque
"E por não se lembrar de acalantos/ A pobre mulher me ninava cantando cantigas de cabaré"
Ovelha Negra - Rita Lee
"Foi quando meu pai me disse / Filha, você é a ovelha negra da família"
Tocando em Frente (Almir Sater e Renato Teixeira) - Almir Sater
"Penso que cumprir a vida seja simplesmente / Compreender a marcha e ir tocando em frente"
Sol de Maria - Gilberto Gil
"Que o mundo seja bom / Que o mundo seja bom pra nós / Seus pais, seus tios, seus primos, avós e bisavós / Que o mundo seja o que deseja a sua geração / Todos que estão aqui e mais todos os que virão"
Avôhai - Zé Ramalho
"Um velho cruza a soleira de botas longas, de barbas longas / De ouro o brilho do seu colar / Na laje fria onde quarava / Sua camisa e seu alforje de caçador/ Oh meu velho e invisível, Avôhai!"
Espelho (João Nogueira e Paulo César Pinheiro) - João Nogueira
"Num dia de tristeza me faltou o velho / E falta lhe confesso que ainda hoje faz / E me abracei na bola e pensei ser um dia / Um craque da pelota ao me tornar rapaz / Um dia chutei mal e machuquei o dedo / E sem ter mais o velho pra tirar o medo / Foi mais uma vontade que ficou pra trás"
De Janeiro a Janeiro (Roberta Campos) - Roberta Campos e Nando Reis
"Mas, talvez, você não entenda / Essa coisa de fazer o mundo acreditar / Que meu amor, não será passageiro / Te amarei de janeiro a janeiro / Até o mundo acabar"
segunda-feira, 14 de janeiro de 2019
Um Gato que se Chamava Rex no Jornal de Alagoas
Tem resenha de Um Gato que Se Chamava Rex no Jornal de Alagoas, coluna do escritor Adalberto Souza.
"A grande moral da bela fabula escrita por Lucas Barroso é o reconhecimento e o respeito às diferenças, as idiossincrasias de cada um. Ver o outro sem preconceito, e mais ainda mostrar para a criançada que somos todos iguais".
Link - https://goo.gl/56Ei74
domingo, 13 de janeiro de 2019
Literatura no Brasil
No Brasil, a Literatura não passa de ficção.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2019
Esse Tempo Não foi Feito pra Mim - José Cândido de Carvalho
Texto de abertura do livro Um ninho de mafagafes cheio de mafagafinhos (Contos, Editora José Olympio, 2011). Uma breve autobiografia de José Cândido de Carvalho.
(...)
Quanto à ficção, é mato brabo no qual rarissimamente circulo,
temente que sou de mordida de cobra e dente de lobisomem. Vejam que não
exagero. Publiquei o primeiro livro em 1939, e o segundo, precisamente 25 anos
depois. Entre Olha para o céu, Frederico! e O coronel e o lobisomem o mundo
mudou de roupa e penteado. Apareceu o imposto de renda, apareceu Adolf Hitler e
o enfarte apareceu. Veio a bomba atômica, veio o transplante. E a lua deixou de
ser dos namorados. Sobrevivi a todas essas catástrofes. E agora, não tendo mais
o que inventar, inventaram a tal poluição, que é a doença própria de máquinas e
parafusos. Que mata os verdes da terra e o azul do céu. Esse tempo não foi
feito pra mim. Um dia não vai haver mais azul, não vai haver mais pássaros e
rosas. Vão trocar o sabiá pelo computador. Estou certo de que esse monstro,
feito de mil astúcias e mil ferrinhos, não leva em consideração o canto do galo
nem o brotar das madrugadas. Um mundo assim, primo, não está mais por conta de
Deus. Já está agindo por conta própria.
Niterói, setembro de 1970.
José Cândido de Carvalho
(...)
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