sexta-feira, 10 de julho de 2015

Artigo Publicado no jornal Zero Hora: O 7x1 Não Foi Só Culpa da CBF


Texto foi publicado no caderno de Esportes, página 50

O 7x1 não foi só culpa da CBF

Quando ocorre uma tragédia é natural procurar e apontar culpados. Faz parte de nossa cultura. O 7x1 fatídico contra a Alemanha, em casa, foi uma tragédia. A culpada, agora, um ano após o acontecimento, parece ser a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), segundo avaliação dos maiores especialistas da área.

Eu discordo. Se acreditar somente nisso, terei de fazer o raciocínio inverso e crer que as cinco conquistas mundiais foram responsabilidade da entidade, já que desde 1958 – pelo menos – é notório que pouca coisa mudou na gestão do nosso futebol. Assim, Pelé, Didi, Garrincha, Jairzinho, Romário, Bebeto, Ronaldo e Rivaldo teriam de ficar em segundo plano, o que seria um absurdo. 

Com isso, não quero dar a entender que apoio a CBF, que está, volta e meia, envolvida em casos de corrupção – como o que resultou na prisão de José Maria Marin, seu ex-presidente. Falo do jogo nas quatro linhas, da responsabilidade dos jogadores e comissão técnica que, ao meu ver, são sempre os protagonistas em qualquer vitória ou derrota.

Vimos, nas oitavas de final, no estádio Beira-Rio, a seleção da Argélia encarar a Alemanha de igual para a igual, fazendo o craque goleiro Neuer trabalhar um bocado e ser escolhido o melhor em campo. Os argelinos só cederam na prorrogação. Então, por que o Brasil, em uma semifinal, já como um dos quatro melhores do mundo, conseguiu a façanha inédita de tomar 7x1? Não somos piores que a Argélia, não é mesmo?

Uma das respostas, a mais simples, é que a Alemanha tinha mais time que o Brasil. Temos a tendência a achar que somos os melhores sempre, afinal, somos pentacampões. Entretanto, quem acompanha futebol sabia que a geração deles era melhor. Mas a diferença não era tão abismal assim a ponto de achar que 7x1 seria justo – na partida, realmente o placar foi justo, porém, antes dela era algo inimaginável.

O lado psicológico pesou bastante e ficou evidente nos chororôs sem fim dos jogadores a cada partida. As escolhas erradas de Felipão e sua comissão técnica também foram cruciais – Daniel Alves, o lateral-direito, chegou a dizer que o elenco carecia de conceitos táticos –, assim como a ausência de Neymar, lesionado nas quartas de final, contra a Colômbia.

Enfim, um jogo. Noventa minutos que ficaram para sempre em nossa memória como o maior fracasso do futebol brasileiro. Podemos buscar e caçar os culpados, entretanto, o ideal nesses casos é colocar em prática a lei da Física: “A única forma dos homens chegarem a algum lugar é deixando algo para trás”. Que o 7x1 fique para trás e um novo futebol renasça dessas cinzas.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A Hora e a Vez dos Clásssicos: Um Artista da Fome - Franz Kafka

Autor de A Metamorfose, O Castelo, O Processo, entre outros

UM ARTISTA DA FOME
Franz Kafka

Nas últimas décadas o interesse pelos artistas da fome diminuiu bastante. Se
antes compensava promover, por conta própria, grandes apresentações desse
gênero, hoje isso é completamente impossível. Os tempos eram outros.
Antigamente toda a cidade se ocupava com os artistas da fome; a participação
aumentava a cada dia de jejum; todo mundo queria ver o jejuador no mínimo
uma vez por dia; nos últimos, havia espectadores que ficavam sentados dias
inteiros diante da pequena jaula; também à noite se faziam visitas cujo efeito
era intensificado pela luz de tochas; nos dias de bom tempo a jaula era levada
ao ar livre e o artista mostrado especialmente às crianças. Embora para os
adultos ele não passasse de um divertimento, no qual tomavam parte por causa
da moda, as crianças olhavam com assombro, de boca aberta, uma segurando
a mão da outra por insegurança, aquele homem pálido, de malha escura, as
costelas extremamente salientes, que desdenhava até uma cadeira para ficar
sentado sobre a palha espalhada no chão: ora ele acenava polidamente com a
cabeça, ora respondia com um sorriso forçado às perguntas, esticando o braço
pelas grades para que apalpassem sua magreza e mergulhando outra vez
dentro de si mesmo, sem se importar com ninguém, nem mesmo com a batida
do relógio - tão importante para ele e a única peça que decorava a jaula -, mas
fitando o vazio com os olhos semicerrados e bebericando de vez em quando
água de um copo minúsculo para umedecer os lábios.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Ninguém Gosta de Ficar Sozinho Quando Está Numa Pior


Esses bichos de estimação jamais nos decepcionam. Por isso, compreendo os que preferem animais a pessoas. Os animais não destroem a gente. Os animais não nos prometem nada além de companhia.

Ontem, no bairro Jardim Botânico, indo pra casa, assisti uma senhora arrastar seu cão cego e manco das patas traseiras. Em certo momento, ela parou e o ajudou a urinar.

Seus olhos diziam “aguenta firme, meu amigo”. Os olhos do cachorro estavam consumidos por uma névoa branca, não diziam nada, ele apenas farejava, para ter certeza que não estava sozinho. Acho que ninguém gosta de ficar sozinho quando está numa pior.

Foi uma cena triste, mas bonita.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Um Epitáfio


Sou o cachorro do mendigo

e o mendigo é a Literatura

..................

Foto: Felipe Daroit

terça-feira, 30 de junho de 2015

O Último Suspiro do Futebol Arte Brasileiro


Eu vi o último suspiro do futebol arte brasileiro. Chamavam de "quadrado mágico". Tinha Kaká, R10, Robinho e Adriano. Às vezes, aparecia um já gordinho (e lesionado) Ronaldo Fenômeno no lugar de Robinho.

Os "entendidos" em futebol não compreendiam como era possível um time tão descompromissado taticamente (leia-se: faceiro) ganhar tantos jogos.

A resposta estava na qualidade, no dom daqueles moços. Mas pouco importam as respostas.

Atrás do quadrado, havia o cão de guarda Emerson e o lépido Zé Roberto (ninguém até hoje sabe qual era sua posição em campo, pois ele estava em todos os lugares). Para você ter uma ideia, Juninho Pernambucano era reserva, e também fazia de conta que era volante.

Também tinha Lúcio, o zagueiro mais veloz do mundo; Cicinho, o lateral que nunca marcou; Roberto Carlos, quase no fim, mas com a esquerda sempre calibrada; e o goleiro Dida, elástico, com seus 2,25 metros de altura.

Que time, meus amigos!

O resultado foi um "fracasso" na Copa de 2006. Perdermos por 1x0 para a França, de Zidane e Henry (um grande time), e não só fomos eliminados daquela copa, fomos eliminados para sempre. Na ocasião, o diagnóstico (de todos!) é que os jogadores faziam muita festa. Então, nosso futebol ficou sério (aqui é trabalho!), pois festa não combina com títulos.

Vencemos mais duas Copa das Confederações (2009 e 2013) e uma Copa América (2007). Comemoramos, afinal, ganhar é sempre bom. Entretanto, as vitórias foram opacas, paliativas. E o pior, que estava por vir, como uma lei de Murphy, veio.

Agora, depois de mais um revés (a eliminação para o Paraguai, pela segunda vez consecutiva na Copa América), o futuro de nosso futebol é nebuloso. A previsão é de tempo ruim. Muitos temem ficar fora, pela primeira vez, de uma Copa do Mundo. E o temor faz todo sentido.

Mas aqueles que viram aqueles mágicos (faz só 10 anos) não conseguem entender...


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Entrevista de Emprego


- Qual seu principal defeito?
- A sinceridade.
- Tem outro?
- Perfeccionismo.
- Que animal você tem mais semelhança: coelho, bicho preguiça, cobra coral ou jacaré?
- Nenhum desses.
- Mas tem que escolher um.
- Jacaré.
- O que você vê nesse desenho?
- Sinceramente?
- Sim.
- Me parece um quadro do Romero Brito.
- Ok. Agora, vamos para a parte que a empresa precisa saber se você é de direita ou de esquerda.
- Só quero trabalhar, não vejo necessidade...
- Eu sou só um funcionário do RH. Posso seguir a entrevista?
- Desculpe. Pode, sim.
- Você curte os textos do Gregório Duvivier?
- Não curto.
- Você já comentou algum deles demostrando seu descontentamento, naquele espaço de comentário dos leitores?
- Sim, várias vezes.
- Então, você é de extrema direita.
- Sério?!
- Me desculpe, mas estamos procurando alguém de esquerda. Fica para uma próxima oportunidade.
- E o que eu faço agora?
- Sugiro que procure uma vaga na Gerdau, li em um site que todo mundo lá é de direita. Boa sorte!

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Verde-Oliva e Vermelho


Eles ficam nesse joguinho de gato e rato, fingindo que há uma ideologia de direita e esquerda, pois é conveniente ter um inimigo na trincheira, senão não há guerra, não é mesmo?

Daqui do front, nada mais me assusta. Só me impressiono com os tolos, soldados com .38 em punho, que realmente acreditam que vão sair vivos dessa. Eles disparam com gana, enquanto os generais, em seus Q.Gs, contentam-se em movimentar os pelotões. No fundo, eles têm com um certo pavor nos olhos. Aliás, pavor não é a palavra. A palavra é tesão.

Há uma bandeira hasteada. Ela deve ser mantida. Ela teve ser saqueada.

E eu? Bom, eu tenho duas pátrias, sei atirar e posso matar qualquer um. Quando a poeira baixar, eu deserto.