quinta-feira, 5 de maio de 2022

Nostálgico e Assustado

 

É óbvio que naquele tempo não havia computadores, nem quaisquer outras distrações virtuais. As pessoas tinham que beber e fumar para matar o tempo. Colocar um disco ou uma fita cassete para tocar e esperar. Pirão de Peixe com Pimenta, do Sá & Guarabyra. Era outra vida. Não era qualquer um que tinha telefone. E mesmo quem tinha, não era certo que atenderia do outro lado da linha. As pessoas, naquele tempo, faziam outras coisas. Não ficavam só coladas e vidradas em aparelhos. Era um período que não dava para dividir as frustrações em tempo real, por meio de redes sociais. Os homens eram mais homens, dizia meu avô – que sequer conheci. Porém, ele se referia aos anos 40… Estamos nos 80, agora. E meu pai está nitidamente alterado, falando coisas como essas que escrevo. Nostálgico e assustado. Bebeu demais. A música está alta. “Te amo espanhola…”. Sua mãozona preenche meu rosto e cabeça. Afagos, afagos. E ele, então, toma coragem para ficar quieto e chorar um pouco. Quase quarenta anos depois, tomo fôlego para admirar meu menino. O pequeno assiste a um desenho no celular. Comenta e analisa os poderes de um super herói. Ele me fala que o tal herói pode levantar e quebrar casas, se quiser. Eu dou um sorriso e afago seu rosto, sua cabeça. Minhas mãos são gigantes. Muito maiores que a de meu pai. Estou nostálgico e assustado. Porque tem tanta coisa acontecendo tão perto da gente… Mas o guri parece tão bem, tão sereno. Tadinho, ele não entende. Não. Ele entende. E vai entender. Certo que sim. 

“Pra que chorar? Te amo”. Era o que dizia o resto da canção. Eu lembro bem.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

O Ódio Como Tática Eleitoral


Na guerra fria da comunicação e do marketing político o ódio ao adversário sempre foi um fator preponderante. São estratégias de ataque pessoal que vão muito além de propagar os defeitos do outro para o eleitorado. 

A máquina de grande parte dos candidatos das eleições majoritárias opera e cria fake news, calúnias, injúrias e difamações em larga escala. Que se danem os fatos! O que importa mesmo, como em toda guerra de narrativas, é destruir o oponente.

Entende-se por oponente o político que está mais próximo, conforme as pesquisas e recortes do momento. Exemplos em nossa história não faltam. Só que esse tipo de estratégia pode abrir flancos para outros políticos crescerem, pois não é possível prender fogo a muitos inimigos ao mesmo tempo. 

Com isso, o eleitor pode migrar para outros candidatos. Em 2014, tivemos dois exemplos desse comportamento. Em nível federal, Marina Silva, uma das favoritas em pesquisas iniciais, ficou no caminho. Aécio Neves tomou seu lugar e perdeu para Dilma Rousseff por pouco. Já no RS, ocorreu o mesmo com Ana Amélia Lemos. Seu nome ficou desgastado e viu surgir a figura de José Ivo Satori, que venceu Tarso Genro.

Indiferente dos nomes e partidos envolvidos. O que fica claro é que as táticas seguem as mesmas. Com a popularização das redes sociais, elas estão mais agressivas nesse ano. Uma das tantas reflexões que se fazem necessárias está na máxima de que ódio só gera ódio. 

As pessoas não querem apenas não gostar de alguém. Quem vota, mesmo com número de votantes em queda, também quer se engajar, crer em propósitos e, principalmente, ter expectativas de mudanças para melhor. 

Então, que tenhamos uma eleição propositiva. Porque o país e o estado precisam de menos ódio e mais soluções reais para seus problemas. 

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Artigo publicado no jornal Diário de Canoas, dia 27 de abril de 2022.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Ninguém é Santo

 

Uma mulher resolve ter uma noite de prazer com um morador de rua. O marido dela descobre a traição e espanca o mendigo. O caso chama atenção da mídia.

A sociedade, então, usa a imagem do morador de rua a exaustão. Sua vida tem uma guinada. Dinheiro. Mais mulheres. Drogas. Ele, nada santo, suga tudo que pode e o que não pode. Afinal, é o seu momento.

Até que algo inesperado (e triste) acontece. Uma reviravolta! Um soco no estômago. Não dá nem tempo de pensar sobre, porque a trilha sonora aumenta e sobem os créditos. Fim do filme.

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Resumo de Ninguém É Santo, filme brasileiro de 2022. 


quarta-feira, 9 de março de 2022

Dois homens se cumprimentam de manhã


Abri o container

Joguei o lixo dentro


Tinha um homem

Junto aos sacos


Ele tava vivo

E me deu bom dia


segunda-feira, 7 de março de 2022

E a vida vai...


Depois que morri
Nunca mais precisei
Fazer a barba

Muita coisa mudou
Depois que morri

Outras não mudaram
Por exemplo
Ainda tenho uma certa rotina

Ainda julgo relevante escrever 
De vez em quando

Mas depois que morri
Sei que minha opinião

É só mais uma
Entre tantas outras opiniões

Sei que meus sonhos
São só mais uns 

E muita gente não se importa
E muita gente não tem tempo
Ou interesse

É isso

Tem coisas que a gente só aprende
Depois que morre

(Porto Alegre, verão de 2022)  

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Conversa Com o Relojoeiro

Texto publicado no jornal Diário de Canoas, no dia 15 de fevereiro 

Se eu não tivesse me aposentado da escrita – cedo para uns, em tempo para maioria – escreveria que, dia desses, fui no relojoeiro. Porque eles ainda existem. Porque eles ainda resistem, na verdade. Estão perdidos em subsolos e em edifícios comerciais no Centro Histórico de Porto Alegre. Vasculhando bem, é possível encontrá-los. 

Sei fazer pequenos ajustes e arrumações em meus relógios. Contudo, vez por outra, tenho que ir no relojoeiro. Porque eles são interessantes. Porque eles são pessoas antigas, que conversam e interagem com seres de carne e osso – e aço, borracha, couro, vidro... afinal, relógios também são seres fascinantes. 

Obviamente, como bons entusiastas das máquinas do passado, o profissional das horas e eu criticávamos o mundo moderno. Enfileirávamos ranzinzices contra o novo. Foi então que o relojoeiro puxou uma gaveta. Ela estava abarrotada de modelos smartwatch. Deviam ter mais de trinta deles esparramados. 

- Olha só! Tudo quinquilharia moderna. Eles estragam rápido. São uma porcaria! E o pior: não tem conserto. Os fabricantes já os produzem com esse objetivo. As pessoas trazem aqui. Eu olho, digo que não tem jeito e devolvo. Elas me dizem “fica pra ti ou pode botar fora”. Agora, é assim.

E é mesmo. 

Enquanto isso, vários modelos em pleno funcionamento descansavam ali. Um Orient três estrelas fundo verde, um Seiko, um Casio G-Shock antigo... Nada de possíveis compradores. Porque as coisas que duram demais vão perdendo a graça. 

Foi o que aconteceu com nossa conversa. Fomos nos entristecendo com as conclusões que chegávamos sobre o mundo de hoje. Até que nos despedimos com um desolador “até mais”. 

No caminho, pensei que tenho que vasculhar a casa atrás de um relógio velho – nem que seja um de parede –, levar para o conserto e ter uma conversa um pouco mais esperançosa com meu amigo relojoeiro.


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Vá e Veja

 

Ou fragmento sobre a guerra cultural

Eles só querem sua atenção. Se aliste. Ame-o. Ou. Mas saiba. Os estampidos são de armas de festim. Tampe os ouvidos. E veja. Vá e veja. As minas terrestres são só palavras. Pode pisar. O estouro faz cócegas. Uma guerra é uma guerra. Mesmo que sejam só meninos brincando. Eu tenho certeza que você pode ver. Se não pode. Veja melhor. São só meninos brincando. São só meninos.