quinta-feira, 7 de abril de 2022

Ninguém é Santo

 

Uma mulher resolve ter uma noite de prazer com um morador de rua. O marido dela descobre a traição e espanca o mendigo. O caso chama atenção da mídia.

A sociedade, então, usa a imagem do morador de rua a exaustão. Sua vida tem uma guinada. Dinheiro. Mais mulheres. Drogas. Ele, nada santo, suga tudo que pode e o que não pode. Afinal, é o seu momento.

Até que algo inesperado (e triste) acontece. Uma reviravolta! Um soco no estômago. Não dá nem tempo de pensar sobre, porque a trilha sonora aumenta e sobem os créditos. Fim do filme.

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Resumo de Ninguém É Santo, filme brasileiro de 2022. 


quarta-feira, 9 de março de 2022

Dois homens se cumprimentam de manhã


Abri o container

Joguei o lixo dentro


Tinha um homem

Junto aos sacos


Ele tava vivo

E me deu bom dia


segunda-feira, 7 de março de 2022

E a vida vai...


Depois que morri
Nunca mais precisei
Fazer a barba

Muita coisa mudou
Depois que morri

Outras não mudaram
Por exemplo
Ainda tenho uma certa rotina

Ainda julgo relevante escrever 
De vez em quando

Mas depois que morri
Sei que minha opinião

É só mais uma
Entre tantas outras opiniões

Sei que meus sonhos
São só mais uns 

E muita gente não se importa
E muita gente não tem tempo
Ou interesse

É isso

Tem coisas que a gente só aprende
Depois que morre

(Porto Alegre, verão de 2022)  

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Conversa Com o Relojoeiro

Texto publicado no jornal Diário de Canoas, no dia 15 de fevereiro 

Se eu não tivesse me aposentado da escrita – cedo para uns, em tempo para maioria – escreveria que, dia desses, fui no relojoeiro. Porque eles ainda existem. Porque eles ainda resistem, na verdade. Estão perdidos em subsolos e em edifícios comerciais no Centro Histórico de Porto Alegre. Vasculhando bem, é possível encontrá-los. 

Sei fazer pequenos ajustes e arrumações em meus relógios. Contudo, vez por outra, tenho que ir no relojoeiro. Porque eles são interessantes. Porque eles são pessoas antigas, que conversam e interagem com seres de carne e osso – e aço, borracha, couro, vidro... afinal, relógios também são seres fascinantes. 

Obviamente, como bons entusiastas das máquinas do passado, o profissional das horas e eu criticávamos o mundo moderno. Enfileirávamos ranzinzices contra o novo. Foi então que o relojoeiro puxou uma gaveta. Ela estava abarrotada de modelos smartwatch. Deviam ter mais de trinta deles esparramados. 

- Olha só! Tudo quinquilharia moderna. Eles estragam rápido. São uma porcaria! E o pior: não tem conserto. Os fabricantes já os produzem com esse objetivo. As pessoas trazem aqui. Eu olho, digo que não tem jeito e devolvo. Elas me dizem “fica pra ti ou pode botar fora”. Agora, é assim.

E é mesmo. 

Enquanto isso, vários modelos em pleno funcionamento descansavam ali. Um Orient três estrelas fundo verde, um Seiko, um Casio G-Shock antigo... Nada de possíveis compradores. Porque as coisas que duram demais vão perdendo a graça. 

Foi o que aconteceu com nossa conversa. Fomos nos entristecendo com as conclusões que chegávamos sobre o mundo de hoje. Até que nos despedimos com um desolador “até mais”. 

No caminho, pensei que tenho que vasculhar a casa atrás de um relógio velho – nem que seja um de parede –, levar para o conserto e ter uma conversa um pouco mais esperançosa com meu amigo relojoeiro.


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Vá e Veja

 

Ou fragmento sobre a guerra cultural

Eles só querem sua atenção. Se aliste. Ame-o. Ou. Mas saiba. Os estampidos são de armas de festim. Tampe os ouvidos. E veja. Vá e veja. As minas terrestres são só palavras. Pode pisar. O estouro faz cócegas. Uma guerra é uma guerra. Mesmo que sejam só meninos brincando. Eu tenho certeza que você pode ver. Se não pode. Veja melhor. São só meninos brincando. São só meninos.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

O Intolerável Todes


As relações de amizades andam estremecidas por causa da política. Com a popularização das redes sociais, as pessoas acabam sabendo, meio que na marra, o que os conhecidos pensam em relação ao assunto. A trinca que antes era quase sagrada, da política, futebol e religião, hoje está exposta e banalizada. Ninguém tem mais receio de falar e criticar a posição do outro. Virtualmente, os temas são debatidos e discutidos à exaustão.

E daí é liberdade de expressão pra cá, boicote pra lá. Amizades que findam, cancelamentos que surgem, silenciamentos e até linchamentos... A impressão é que as pessoas são o que são e ponto. Estão marcadas a serem de direita, de esquerda ou qualquer outro carimbo que exista por aí.

Trago o exemplo de um amigo conservador. Por ter essa posição, ele se identifica com Jair Bolsonaro. Luta diuturnamente, em muitas frentes e batalhas campais nas redes sociais, pela permanência do atual presidente por mais um mandato. Contudo, esse meu conhecido não é um fanático.

Explico. Ele se vacinou contra a Covid-19. Está indignado com os rumos da economia nacional, com a inflação e o preço das coisas (gasolina, gás, itens da cesta básica). Ele também não tolerou o acordo com o Centrão. E tampouco atura as estripulias dos filhos 01, 02, 03 e 04.

Só que tem um detalhe. Esse meu amigo conservador não suporta o tal de todes. Ele odeia com todas as suas forças essa coisa de pronome neutro, sem gênero. Protesta. Bate-boca. Ofende. Se o tal todes virar regra da Língua Portuguesa, ele, bem provável, pegará em armas.

Pouco importa para ele se a gasolina está custando mais de R$ 7 reais o litro, o gás R$ 120 o botijão e R$ 50 o quilo da carne. Esses fatos ainda não são dignos de fazê-lo mudar de ideia em relação ao presidente. O que ele não tolera mesmo é o tal de todes.

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Artigo publicado no jornal Diário de Canoas, no dia 8 de dezembro de 2021.

domingo, 21 de novembro de 2021

Trilogia Suja de Havana - Salve-se Quem Puder

Malecón, em Havana

De novo o silêncio. Eu me concentrei no rum e na lagosta fervendo. Mas logo em seguida escutei a vizinha ao lado sapateando. Uma mulatinha linda, de uns vinte anos. Tem estilo. É puta, mas poderia ser modelo. É uma beleza. Ainda mora numa toca miserável que nem eu, mas é implacável: sem dinheiro nem olha pra gente. Às vezes, me cumprimenta, mas sem muita intimidade.

 – Bom dia, vizinho.

 – Bom dia, vizinha. Ficou até tarde na batalha, já é quase meio-dia.

 – E quem lhe disse que eu só trabalho de noite? Você é um pouquinho intrometido.

 – Olha, este seu perfume chega até aqui.

 – Bom, pode sofrer. Continua sofrendo, papito.

 – Abusada.

 – Isso é uma canção. Até mais tarde, vou dormir um pouco.

– Quando vou poder chegar mais pertinho de você, mamita? Já estou até de miolo mole.

– Quando você for um papirriqui com graniquiqui. Mas enquanto estiver na pior, nem chegue perto. Sai pra lá, sai pra lá, que esse mal pega!

– Bom, titi, pode continuar me maltratando. Durma bem.

– Tchau, papito.

– Tchau, mamita.

Entrou, fechou a porta e eu voltei para o meu fogareiro. É assim. Se você tiver dinheiro, pode, se não, foda-se. É como nos naufrágios: salve-se quem puder.

Gosto dessa mulher. Ela chegou do campo há um ano, com as mãos calosas e as unhas dos pés manchadas de terra vermelha. Diz que veio de Palma Clara. Sabe-sa lá onde diabos fica isso!

É muito desconfiada. Acha que todos vão lhe fazer mal, mas uma vez me contou uma coisa: aos doze anos largou a escola na quinta série e foi colher café para ter seu próprio dinheiro porque o pai bebia e fumava tudo o que ganhava “e em casa éramos sete irmãos comendo farinha de milho e inhame. Não sei como saímos fortes e saudáveis”, disse. Aos dezesseis viu que o café é trabalho para gente grossa e morta de fome. Uma tarde tomou seu banho, vestiu uma roupa limpa e sem se despedir de ninguém foi para a estrada e chegou a Havana. Assim, sem ter a menor ideia do que poderia ser Havana. Ouvia dizer que em Havana, sim, era possível viver bem porque havia mais dinheiro, e lá se foi. Quando me contava tudo isso, via-se força em seus olhos: “Eu sou muito bonita, papito, acha que não sei? Podem enfiar o café e a fome no rabo! Chega. Não volto para Palma Clara nunca mais na vida… Deus que me perdoe… quando minha mãe morrer vou ter que voltar porque ela é uma santa”.

Chegou assim, com uma mão na frente e outra atrás. Nos primeiros dias morou com um caminhoneiro que a trouxe de carona. Mas o largou na semana seguinte: o cara queria uma escravinha para trepar quando bem entendesse e mantê-la trancada em casa trabalhando e sempre entendiada. Mandou o sujeito à merda. Foi morar com uma vizinha. Começou a fazer programas no Malecón e em menos de um ano a roceirinha é outra pessoa. Já até fala diferente e caminha com estilo. Qualquer hora dessas ela se muda para um apartamento decente e deixa este terraço de merda. Eu gosto de gente assim. Forte. Os frouxos sempre se lamentam e choram. Os fracos acham que tudo termina hoje.

Na verdade é justamente o contrário: é hoje que tudo começa. 

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Trecho de Trilogia Suja de Havana, de Pedro Juan Gutierrez.