quinta-feira, 7 de novembro de 2019

A Primeira Impressão de Dummy, disco do Portishead


Portishead redefine 'cool' com músicas angustiadas
Banda junta ritmo e depressão no melhor álbum de 95

ZECA CAMARGO
EDITOR DA ILUSTRADA

Já é maio, quase meio do ano, então já dá para usar aquele clichê favorito dos críticos de música: ``Se você tiver que comprar só um disco este ano, tem que ser este". No caso, o álbum é ``Dummy", do Portishead.
Por enquanto, ele só existe importado no Brasil. Custa um pouco mais caro, claro. Mas, para juntar R$ 25 ou até R$ 30 para este fim, qualquer esforço é justificado. Se necessário, roube.
Mas atenção: ouvir Portishead não é uma experiência das mais alegres.
Dá para dançar, é verdade -dentro do novo ritmo que a turma de Bristol acabou impondo à temporada (leia texto nesta página). Mas ouça ``Dummy" preparado para terminar em lágrimas.
Esta expressão, aliás, é tirada de um dos álbuns mais importantes dos anos 80, ``It'll End in Tears", do This Mortal Coil.
Fundamental para entender a melancolia das bandas inglesas da década passada, ``Tears" é uma boa referência para o trabalho da banda, ainda que só pelo teama.
Dez anos depois (``Dummy" foi lançado no segundo semestre de 94 na Inglaterra), o Portishead retomaria a depressão do This Mortal Coil, só que a elevando ao nível do ultra-sublime -quase à beira do suicídio.
E, só lembrando, mesmo com essa tristeza toda, é possível dançar ao som de Portishead.
Só nos Estados Unidos eles já venderam 400 mil cópias. Mais 250 mil na Inglaterra e algo como 200 mil no resto da Europa. Isto é, no mínimo, uma boa conta para quem não tinha a menor pretensão de fazer sucesso.
Aos 30 anos, a cantora Beth Gibbons já tinha certamente passado de qualquer pretensão adolescente de se tornar uma popstar.
Mais jovem, Geoff Barrow, 23, é um daqueles ratos de estúdio pouco interessados em colocar suas cabeças para fora.
Fora que eles vêm da cidade que dá nome à banda, a oeste de Bristol (costa oeste da Inglaterra).
Nos parâmetros normais do mercado de música pop, o apelo comercial do Portishead seria igual a zero. Sua melancolia não se refere à angústia calculada da corja pós-grunge americana.
Beth Gibbons também não tem nem um traço sequer de ``popstar".
Então uma das explicações possíveis pode ser a sua voz. Tem que ser.
As comparações na imprensa musical internacional não são muito criativas. Elas se repetem entre Edith Piaf e Billie Holliday. Mas você pode jogar qualquer outro elemento para descrevê-la.
Gibbons tem o ``non-chalance" de Debbie Harry (Blondie), a sofisticação de Sade, a distância de Tracy Thorn (Everything But the Girl), a clareza de Alice Statton (Weekend), a fragilidade de Dolores O'Riordan (Cranberries) etc.
É como se cada faixa de ``Dummy" sugerisse uma inspiração de Beth. Ela vem forte em ``Glory Box", quando canta o lugar-comum ``I just to be a woman" (``eu só quero ser uma mulher").
Ou vem indefesa em ``Sour Times" ao confessar ``nobody loves me just like you do" (``ninguém me ama como você"), sua voz é um convite à doce sedução da destruição emocional. Resista -é melhor para você.
Só que, se fosse só pela voz, Beth poderia entrar para a lista de talentos perdidos que gravitam no universo pop. Suas chances eram realmente poucas.
Mas a tristeza era profunda. E provavelmente a necessidade de milhares de pessoas de se identificar com isso também.
As músicas de ``Dummy" falam basicamente de solidão: ``Essa solidão que não me deixa só", como Gibbons canta na faixa ``Dumb".
O verso é obviamente cínico, já que a impressão é de que ela não quer deixar de sentir-se assim.
Solidão é a inspiração para o grupo. Mais que isso, é uma obsessão, um meio e um fim a ser degustado, um assunto do qual não se fala, mas se vive.
É uma maneira de preencher um vazio entre uma decepção emocional e a decisão de não viver mais.
O estado de espírito miserável das músicas do Portishead é tão invejável que, na esperança de ouvir novas composições no futuro, você até torce para que eles nunca encontrem alguém que os satisfaça.
Egoísmo explícito, correto. Mas tudo que você quer depois de ouvir ``Dummy" é que eles prolonguem esse clima, esse ``ennui". Pelo menos para você poder dançar um pouco mais.

Publicado originalmente em 1º de maio de 1995

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Ananda Daya - Conto de Antônio Carlos Viana



1944 - 2016

Seu Matias comia cuscuz seco há três dias e ainda achava bom. Só de uma coisa na vida seu Matias não gostava: a solidão depois que a Neusinha se fora. Lia anúncios de jornal onde mulher procura homem, homem procura mulher, mas nunca teve coragem de ligar para nenhum número, nem também de publicar um anúncio. Foi numa dessas leituras que ele leu "Ananda Daya, cura prânica". Seu Matias sempre fora dado a leituras esotéricas, mas desse tipo de cura ele nunca ouvira falar. Quem sabe ela não curaria daquele mal que era a sua falta de energia para procurar alguém? Achava-se velho e feio. Ninguém iria olhar para um homem tão sem graça que nem ele, de cabelos poucos e nariz desabando.

O anúncio falava prodígios feitos pela mulher que anunciava mãos capazes de energizar a alma mais anêmica. E seu Matias, depois de avaliar suas economias, lá se foi com a alma encolhida.
Esperava encontrar uma senhora de longas vestes, longas tranças, uma tiara na cabeça, incenso por todo o canto. Ao chegar lá, o que encontrou foi uma senhora madura, cabelos ralos amarelo-ovo, metida num bustiê vermelho combinado com calça de lycra justa, num tom mais vermelho ainda, com rendinhas laterais que davam pra ver que ela estava sem nada por baixo.

Ananda Daya, um boa tarde seco, abriu a porta fechada a cadeado. Ele se identificou. Era uma sala pobre mas ampla, onde secava num canto um lençol, e três toalhas de banho pingavam no taco escurecido. Ao pé da cama de massagem, um toca-fita, no outro canto um cabide de pé e uma mesinha onde havia cristais de todas as cores. Seu Matias sentiu um grande alívio, havia algo de espiritual, sim, naquela pobreza. Ele, que já estava fazendo mau juízo da mulher. Ela devia ser uma asceta, pouco ligando para os bens materiais.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Quando Pedro Perdeu a Paciência


Tive a sorte de trabalhar alguns anos com o mestre Pedro Farias, na Unisinos. Um exímio cinegrafista. Uma figura humana doce, que orientou milhares alunos nas cadeiras de televisão do curso de Jornalismo. De certa forma, era um professor.

E eu fui seu auxiliar de externa. Carregava aquele monte de tralha que fica atrás das câmeras. Cabos, microfones, maletas, tripés, luzes, monitor... Uma função! E das mais cansativas. Mas tinha 20 e poucos anos e precisava daquela bolsa-auxílio. Também me ajudava o fato de eu ter físico e fôlego de maratonista. Então, tirava de letra.

Gravávamos documentários e grandes reportagens com frequência. Só que no Jornalismo, como na vida, as coisas não acontecem como o planejado. No dia de filmar na rua, chovia. Ou, quando a entrevista estava agendada, a fonte sumia. É assim. E Pedro não se enervava com nada disso. Aguardava as novas definições e refazia o trabalho. Tudo bem se ficasse para outro dia e atrapalhasse seus compromissos. A maior virtude dele sempre foi a paciência. O homem tinha uma serenidade exemplar, digna de templo budista.

Mas teve um dia que Pedro perdeu a paciência. Um só.

Estávamos no Mercado Público de Porto Alegre acompanhando a rotina das pessoas e funcionários do local. Chegamos antes do Sol, dos peixeiros e dos entregadores. E a coisa foi indo. Dezenas de entrevistas, diversos pontos de captação de imagem. Sobe escada. Desce escada. Espera o entrevistado. Corre que o entrevistado só pode agora.

Horas e horas de fitas (ainda eram fitas). A coisa tava sem controle. Aparentemente parecia que o pessoal queria resolver o documentário em um dia apenas, de tanto material captado. Eu estava exausto. Só o monitor, que transmitia o que estava sendo gravando, pesava mais de 30 quilos. Sem contar os outros equipamentos que levava por todos os confins do Mercado.

Quando acabou, já era noite. Bancas fechadas. Ninguém circulando pelo local. O grupo responsável pelo documentário avaliou o conteúdo e disse que seriam necessárias mais duas externas. Tive uma crise. Juntei tudo, como um polvo louco, e fui em direção ao carro da tv. Indignado! Pedro veio atrás e ficou ouvindo meus impropérios.

- Porra! Hoje, foi foda! Vão tomar no cu! Tô moído, caralho! Quase quinze horas de gravação, Pedro! Eles acham que a gente é de ferro?! E ainda vão querer mais duas externas nessa pegada?! Vão se fuder!

A coloração do rosto do Pedro se alterou. Uma veia se sobressaiu em seu pescoço. Seus olhos em brasa. Estava nitidamente puto da cara e não se conteve.

- É... Tem vezes que é complicado mesmo.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Pato Fu Era Bom



Em algum momento da carreira, o Pato Fu meteu um sorvete na testa. Virou uma banda de abobalhados.

Mas, antes disso, eles faziam um som pra lá de bacana. Ou, talvez, na época do auge deles, lá por fim dos 90/início 2000, eu estivesse apaixonado por alguém e era mais tolerante e sensível com tudo ao meu redor. Vá saber...

Enfim, o fato é que ouvia esse ao vivo do Pato Fu direto. Boas baladas e experimentação na dose certa.

Hoje, ouvi de novo, mais velho e mais ranzinza, e o disco segue muito bom.

sábado, 28 de setembro de 2019

Os Melhores Livros Que (Ainda) Não Li



Lista baseada em recomendações eufóricas de amigos, pitacos da crítica especializada ou puro achismo mesmo.

Fup - Jim Dodge
Caninos Brancos - Jack London
A Alma Encantadora das Ruas - João do Rio
O Jovem Torless - Robert Musil
Os Meninos da Rua Paulo - Ferenc Molnar
Meus Lugares Escuros - James Ellroy
Big Loira - Dorothy Parker
Felicidade - Katherine Mansfield
Aberto Está o Inferno - Antônio Carlos Viana
A Estrada - Cormac McCarthy
Lugar Público - José Agrippino de Paula
Foi Apenas um Sonho - Richard Yates

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Daniel Johnston


22 de janeiro de 1961 | 10 de setembro de 2019

True Love Will Find You In The End

O amor verdadeiro irá te encontrar no fim
E você vai perceber que era seu amigo
Não fique triste
(Sei que você vai ficar)
Mas não desista
Até que encontre seu amor verdadeiro no fim
É uma promessa que deve fazer
Só vai achar se procurar
O amor verdadeiro também estará procurando
Mas como irá lhe achar
Se você não sai do escuro?
 

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Tive Razão


Hoje, as crianças sabem quase tudo. O que elas não sabem, procuram na internet. Antes, quando eu era piá, não sabia coisa nenhuma. Tempos sem internet. Um exemplo. Quando eu tinha 12 anos, foi lançado o filme The Wonders - O Sonho Não Acabou, um grande sucesso na época. A música tema,That Thing You Do!, foi primeiro lugar nas paradas mundo afora.

Meu amigo Pedro, que também era criança em 1996, jurava que a história do filme, de um grupo musical de um sucesso só, era “baseada em fatos reais”. Ou seja, para ele a banda The Wonders realmente tinha existido. Já eu achava que não. Nunca tinha ouvido falar nela. Não havia nada parecido nas fitas cassete lá de casa.

E o que as crianças faziam antes da internet existir? Pesquisavam em dicionários, enciclopédias ou saiam por aí perguntando. Questionavam os pais, irmãos mais velhos, tios, avós, vizinhos... Enfim, a gente enchia o saco dos adultos, porque eles tinham a resposta certa para tudo. Quando meus pais não sabiam de algo, eles me diziam assim: “Pergunta pra tua professora, então”.

Até minha professora foi sabatinada sobre a existência ou não da tal The Wonders. Mas ela não via muito televisão, nem gostava de cinema. O resultado da pesquisa é que metade das pessoas consultadas por mim e Pedro dizia que a banda existiu. A outra, que não. Fomos atrás e nada de provas cabais, nenhum documento que atestasse e definisse quem estava certo. Chegamos a cogitar ligar para os Estados Unidos. Mas quanto em fichinhas telefônicas daria? Abortamos a missão, pois antigamente era assim. Nós tínhamos que conviver com discussões sem vencedores. Algo impensável para tempos de Google.

Recordei toda essa história porque, dia desses, estava ouvindo a Continental FM no carro, enquanto ia do trabalho para casa, e tocou That Thing You Do!. Era o momento, 23 anos depois, de pôr fim à dúvida. Joguei no Google e encontrei a resposta.

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Crônica publicada no Mínimo Multiplo