quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019
O Preço da Literatura
Quadro é diferente. Estátua é diferente. Grafite é diferente. Cinema é diferente. Música é diferente.
Literatura não.
Na Literatura, o valor do livro é o valor que ele custa pra ser feito. Ponto.
Tá tudo discriminado na nota fiscal.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2019
Uma Noite que Eu Lembrei
Arlindo Sassi tocou Do You Wanna Dance, do Johnny Rivers, na Continental FM e eu lembrei de uma noite. Os garçons impacientes recolhiam as cadeiras da boate La Barca. Devia ser quase 7h. Um casal dançava coladinho. Olhos fechados. Obviamente, não era um casal de verdade. O fato é que eles estavam sozinhos no salão. Dançando lentamente.
Foi bonito. E triste.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
Top 5 Caetano Veloso
Cinema Transcendental (1979)
Irretocável. Praticamente uma coletânea.
Cê (2006)
A retomada criativa depois de um insosso e careta anos 90.
Caetano Veloso (1969)
O álbum que melhor soube dosar psicodelia e música popular. O conceito é o mesmo do irregular Tropicália, lançado um ano antes.
Bicho (1977)
A figura do Caetano riponga vêm desse período. Bicho é o melhor dessa fase.
Cores, Nomes (1982)
Chegou a maturidade. A partir daí, Caetano virou o intelectual que palpita sobre tudo nos jornais. As letras das músicas foram ficando mais difíceis de entender, a vocalização característica (aquela tremidinha na voz) virou marca registrada. Caê já não seria mais tão legal. Contudo, esse disco envelheceu bem.
- BÔNUS -
Eu Não Peço Desculpa (2002) - com Jorge Mautner
A parceria dos dois já vinha de longa data. Faltava um disco juntos. Descontraído e divertido como esse.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019
Breve Resenha do Filme Roma
Os gringos até podem cair nessa de que Roma, lançado recentemente pela Netflix e concorrente ao Oscar, é uma obra-prima do cinema moderno. Não é. Mas eles acreditarem nisso, tudo bem. O que assusta é que nós estejamos repercutindo essa falácia. No Brasil, temos diversos exemplares de Roma. É um filme que reproduzimos aos montes, desde o Cinema Novo. Todo ano tem uns dez, no mínimo. Recentemente, tivemos os didáticos Que Horas Ela Volta e Casa Grande, descrevendo a relação entre pobres e ricos.
A história de Roma é a batida via crúcis do miserável. Em que ele é, acima de tudo, um forte. O desafortunado suporta as agruras do mundo, sempre meio alienado, e segue em frente. Pois a vida é assim mesmo. Os bem vividos são os culpados, os alienados de verdade, que não enxergam a real situação das coisas. O pobre vive a História. O rico só serve para narrá-la.
Roma é um dramalhão frio, que se passa na Cidade do México, década de 70, durante o truculento governo do presidente Luis Echeverría Álvarez, considerado uma ditadura perfeita por Mario Vargas Llosa. Narra a rotina de uma empregada doméstica de família. O pai do clã some, restando às mulheres da casa tomarem conta de tudo. O motivo da fuga só é explicitado no fim. E aí está uma boa sacada. Somente aí. Todo o resto é lugar-comum para nós, terceiro-mundistas.
Ao longo de duas horas, ficamos diante da mesma estética de um filme nacional típico. A lentidão de acontecimentos, a trilha insignificante, a culpa burguesa do diretor (o mexicano Alfonso Cuarón, mas poderia ser algum Moreira Salles, não faria diferença), pesando no roteiro. O diferencial para nossos filmes, e que piora as coisas, é que Roma é rodado em um cafona preto e branco. Aquela fotografia pretensiosa (Salve, Sebastião Salgado!).
Entretanto, nem tudo é negativo. É preciso também ver o lado bom. E a vantagem de Roma para outros filmes enfadonhos é que ele está disponível somente no catálogo da Netflix. Basta dar um stop e escolher outro.
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Texto publicado originalmente no Mínimo Multíplo
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019
Negrinha - Conto de Monteiro Lobato
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| Conto foi publicado no livro homônimo, em 1920. |
Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.
Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.
Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo.
Ótima, a dona Inácia.
Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa:
— Quem é a peste que está chorando aí?
Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero.
— Cale a boca, diabo!
No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer…
Assim cresceu Negrinha — magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019
Maria Bethânia, Uma Cantora de Churrascaria
Essa foi a descrição de Maria Bethânia por Miguel de Almeida, jornalista do caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo, em 27 de novembro de 1982.
Essas e outras histórias do período, onde o jornalismo cultural não tinha o menor interesse em cativar amizades, são contadas em no documentário Não Estávamos Ali Para Fazer Amigos.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019
Chuva de Estrelas - Conto de Antônio Fraga
Ao
bom amigo e pintor Pancetti
Poeta.
Os olhos melosos, a juba leonina e o ar
distante e vago, denunciam-no.
Comprova-o, a roupa mal amanhada,
descolorida, imunda.
E para que não sobrem dúvidas, vejam-lhe
o nome, muito ridículo é certo, mas poético à beça - Cândido Gentil.
Nasceu poeta como quem nasce corcunda,
por fatalidade. Fatalidade genealógica.
O avô, nos tempos de Dom Pedro II,
amerceou as damas da corte com galanteios rimados e, não satisfeito com isso,
irmanou-os num volume - Gentilezas.
O pai contou sílabas pelos dedos e botou
mais estrelas nos seus versos que o bom Deus no infinito.
Ele, zeloso como um chinês pelo fulgor
da tradição familiar, "musicará idéias que elevarão à estratosfera o
glorioso nome dos Gentis" - poetas incompreendidos e hereditários.
O instinto segredou-lhe algo sobre os
estilos decadentes. Os cabeçalhos dos pasquins, sempre enlutados com o carvão
das letras quilométricas, mostraram-lhe que o mundo tem sede de novidades. E um
intelectual de vanguarda explicou-lhe que "para ser modernista basta virar
as coisas pelo avesso".
Não sabe que a originalidade é aquela
"outra história" que o Kipling não contou; que os Baudelaire não
tingem mais os cabelos de verde; e que escrever coisas sem nexo não é
"mariodeandradismo", é burrice.
Vamos surpreendê-lo em ação.
Masturba-se - quero dizer, pensa. Olha
para o teto, na falta de céu, em busca de inspiração. Só vê sujeira de moscas,
mas persiste.
A inspiração desce do teto. Trepa na
perna. A pena desliza no papel, desenhando, num cursivo que três anos de
caligrafia aprimoraram as palavras.
Pronto. Já temos um título - Chuva de
estrelas. - Que título! Vai causar inveja a muita gente boa. Ora se vai!
Destaca as sílabas, vagarosamente,
saboreando-as:
- Chu-va de es-tre-las.
Bota reticências depois de estrelas,
para o título ficar mais engraçadinho. Sublinha o título. Beija o título.
Que diabo! Não é que ia esquecendo a
ilustração? É preciso de fato pensar na ilustração.
Coça a cabeça. Uma mulher nua? Sim, uma
mulher nua e as estrelas prateadas escorrendo pelo corpo. Esvazia a unha do
excesso de caspa. A ilustração é caso resolvido.
Agora, espreme o cérebro em busca de um
poema que concorde com o título. Fica penando um quarto de hora à cata do
primeiro verso. Nem pingo de idéia!
Enquanto o verso não vem, namora um
pensamento. Ei-lo: chuva de estrelas dá um ótimo título de livro. É. Está
resolvido. Escreverá um livro.
E o editor? E a crítica?
Nada de editores. Os editores são uns
piratas. Nem um exemplar para a crítica. A crítica é incompetente.
Mastiga as palavras piratas e,
incompetente como um homem superior, como um gênio!
Começa a ser consagrado - na imaginação,
por enquanto. Solicitam-lhe autógrafos, entrevistas - como os repórteres são
cacetes! - e é confidente de ministros. Ministros? Ministros? Ministros nada!
Vê lá se vai dar confiança a ministros. O ditador? Sim, confidente do ditador.
Ali na batata!
Ensaia sorrisos hipócritas, protetores,
compassivos.
- Seu Cândido, vou desligar a luz. Tá na
hora.
É dona Maricota, a proprietária da
pensão, sempre preocupada com o gasto de energia elétrica.
Coitada, ela não sabem quem hospeda,
pensa. Olha mais uma vez o título, despe-se e deita-se, ferrando logo no sono.
E é assim que Cândido Gentil, último do
seu nome, "publica" diariamente um livro.
Rio de Janeiro, 1939
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Esse conto de Antônio Fraga está publicado no livro Desabrigo e Outros Trecos, editora Relume Dumará (1999).
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