quinta-feira, 17 de agosto de 2017
Até o Bom e Velho Barraco Se Atualizou
Curioso como tudo se atualiza. Antes, os barracos eram expostos pra vizinhança e algumas pessoas da rua. Fui criado num ambiente onde os problemas se resolviam, geralmente, com violência. Agressão verbal, na maioria dos casos, ou física. Porque os dias eram assim.
A gente até apagava as luzes lá em casa, que era pra ninguém notar que estávamos de olho na briga dos outros. Quando não éramos nós os que estavam no centro das atenções...
Mas, agora, mudou. Hoje, o escândalo mais eficaz não é berrar ofensas, chegar bebaço, quebrar coisas na parede ou nos outros. O que funciona é fazer um textão no Facebook ou em qualquer outra rede social. E como tem!
Depoimentos carregados de desprezo e nojo e raiva. Casos de família escancarados com indiretas (ou diretas), com ofensas sublinhadas, assim como intimidades de casal expostas a milhares de pessoas. Quanto mais curtidas melhor.
Porém, nem todo mundo aderiu.
Dia desses, minha vizinha tava berrando com o marido. "Marcelo, seu merda! Tu é um escroto! Es-cro-to!". E logo depois barulho de vidros quebrando e outras coisas jogadas na parede. Ele, que retrucava até então, ficou pianinho. Ela deu mais uns gritos e parou.
Como sou um sujeito antenado, fui vasculhar o Facebook dela. Nada de textão. Outro dia, fui de novo. Nada. Uma semana. Nada. Nenhuma queixa ao marido. Só fotos felizes. Família, viagens e animais fofos.
Minha vizinha tá desatualizada.
terça-feira, 15 de agosto de 2017
Reunião no Bunker e Uma Sugestão de Leitura
- Bom, gente! Agradeço a presença de todos. O tema Judeus já foi superado. A partir de agora, o esquema é o seguinte: vamos conquistar a Europa. No mapa que a turma do Goebbels fez aqui dá pra ver o trajeto das tropas. Quem não se aliar conosco, será considerado...
- Desculpe interromper, Führer.
- Sim?
- O senhor ainda não disse se somos de direita ou esquerda. Esse tema está pendente há quatro encontros. Acho relevante uma definição o quanto antes.
- Hum... Verdade. Falta essa definição. Mas depois que conquistarmos a União Soviética a gente vê isso aí.
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Sugestão de leitura
Nesses tempos tristes, de neonazistas em marcha pelos EUA, essa leitura é uma boa indicação. Personagem principal de Diário da Queda, de Michel Laub, é neto de um sobrevivente de Auschwitz.
quarta-feira, 9 de agosto de 2017
Anjo e Demônio - Armando Nogueira Recorda Heleno de Freitas
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| Jornalista Armando Nogueira (1927 - 2010) |
Viveu em conflito com o universo do futebol, amado como um Deus, renegado como o demônio: era o espantalho dos árbitros, o gênio da bola, o desafeto das torcidas. Era, também, o galã irresistível das mocinhas de Copacabana que lhe namoravam a elegância, no traje, a rebeldia, o anel de doutor e a celebridade.
Em campo, tinha acessos de fúria, cuspia fogo nos rivais, nos próprios colegas de equipe, no juiz. Só tinha afagos pra conquistar a bola, em cuja convivência realizava sua face de anjo. Era um artista, jogando: driblava com esmero, corria em gestos perfeitos. Enriquecia o futebol com melodias corporais de raro efeito. Poucos craques na história do futebol conseguiram ou conseguirão jogar tão bem de cabeça quanto ele. Costumava dar cabeçadas homéricas.
Heleno de Freitas realizava todas as virtudes de craque com um toque de beleza. Tinha, contudo, a psicose da perfeição: o erro do homem derrotava o artista - e Heleno perdia a cabeça, perdia a razão, perdia o jogo. Transtornado, acabava expulso. Fora de campo, era um cavalheiro, apesar de ter sido sempre marcado por uma sombra de narcisismo que é, por sinal, um dos grandes abismos do ídolo.
Perturbado mentalmente, em 1953, Heleno de Freitas sumia dos estádios. A família, a muito custo, arrancou-o das arquibancadas do Botafogo, onde costumava passar as tardes, sozinho, dia de treino, com o rosto enfiado numa toalha de banho, cheirando éter. Chorava. Quem saberia dizer de quê: saudade? amor? desamor? inveja? abandono? Heleno acabou louco internado no Sanatório de Barbacena.
Dormia abraçado com a bola delirante do jogo de ontem, de hoje, de amanhã, de sempre. Quando acordava, bola murcha, Heleno tornava ao delírio. Heleno de Freitas, o craque das mais belas expressões corporais que conheci nos estádios, morreu, sem gestos, de paralisia progressiva, e descansa, hoje, no Cemitério de São João Nepomuceno, onde nasceu um dia, para jogar a própria vida num match sem intervalo entre a glória e a desgraça.
Crônica publicada no Jornal do Brasil, dia 11 de novembro de 1970.
sábado, 5 de agosto de 2017
Um Livro Que Me Deixou Zonzo - Árvores Abatidas
Sempre tive inveja de quem consegue ler em carro ou ônibus. Comigo isso é impossível. Se eu passar os olhos numa notinha de jornal, já basta pra ficar enjoado e me estragar o resto do dia. Quando não acontece coisa pior.
Demorei pra descobrir a causa. Tá certo que o SUS não ajudou. Nas vezes que estive no Pronto Socorro me deram um Plasil e tchau e benção. Só acharam o problema quando comecei a cair sozinho. Daí, um médico cravou: “Tu tem vertigem posicional crônica”.
E completou: “Tem remédio. Tem tratamento. É uma doencinha. Não te preocupa”.
O curioso é que ler no trem eu consigo. Nos oito anos que fiz a rota Porto Alegre/São Leopoldo, li muita coisa boa – também detonei um discman, mas isso é outra história. Retirava os exemplares da biblioteca da Unisinos. Nos quarenta minutos do itinerário, conheci Albert Camus (A Peste), Murilo Mendes (As metamorfoses), Katherine Mansfield (Felicidade), Campos de Carvalho (A lua vem da ásia), John Fante (A caminho de Los Angeles)... e Thomas Bernhard.
Não sei como esse autor foi parar na minha mão – desconfio que tava procurando Thomas Mann... Árvores Abatidas era o título. O enredo era simplório: um jantar. O narrador-personagem fica sentado numa cadeira, observando os preparativos para o evento e divagando. Passa a trama toda espinafrando a Áustria, Viena, os artistas, os intelectuais, os dogmas europeus, as ideologias políticas. Bernhard não poupa ninguém. Claro, nem ele próprio. A edição não tem capítulos. Texto corrido em apenas um parágrafo imenso. Um jorro só. Um queixume.
Explicando assim não parece, mas é um grande livro.
Talvez, tenha sido o ideal para um jovem indignado como eu era. Um jovem que pegava o trem das 22h20 e tinha que correr para alcançar o ônibus das 23h20 para chegar em casa antes da meia-noite.
Entretanto, a qualidade estética de Bernhard está acima de qualquer experiência de leitor. Problema é encontrá-lo em livrarias ou sebos. É raro achar exemplar desse livro à venda. Os que existem, usados, ultrapassam os R$ 200. Há outros títulos mais em conta.
Enfim, retomando o causo do início. Árvores Abatidas foi o livro que me deixou zonzo, me tirou o prumo. Escancarou uma possibilidade, uma realidade, que é a vida, que é a arte. Essa doencinha, que tem remédio, que tem tratamento. E nos preocupa tanto.
Mais sobre o autor nesse artigo de Antônio Xerxenesky -
http://blogdoims.com.br/thomas-bernhard-repeticao-e-aniquilacao-por-antonio-xerxenesky/
A imagem com a citação é do livro O sobrinho de Wittgenstein.
terça-feira, 18 de julho de 2017
Algumas Leituras de Um Silêncio Avassalador
Após um ano do lançamento, separei algumas leituras de Um Silêncio Avassalador, que foram publicadas em jornais, sites e blogs literários.
"A obra é dessas
leituras que você faz numa tarde, tornando o dia preenchido por algum tipo de
texto que faz tudo ficar um pouco melhor"
Até Que Um Ponto, blog
“A escrita do autor
flui de maneira primorosa, com uma linguagem versátil que transita desde o vulgar
até o poético”
Toque Literário, blog
“Tristeza, melancolia
e a ferocidade dos personagens em se encontrar em algum lugar no mundo e na
sociedade é o ponto alto desse livro”
Lendo 1 Bom Livro,
site
“Bem escrito, a obra
surpreende pela honestidade”
Duas Estantes, site
“Com uma sinceridade
que chega a ser chocante, o autor cria uma conexão personagem-leitor,
convidando a todos a realizar uma reflexão intensa a respeito da frágil
natureza do ser humano”
Livro In Cena, blog
“A escrita de Lucas
Barroso não perde em nada para os autores nacionais contemporâneos de peso. É
uma bela surpresa ver um livro brasileiro publicado com tantos cuidados”
Pandamônio, site
“Alternando
personagens de diferentes meios, idades, homens ou mulheres, o autor escreve
com agilidade e consegue extrair deles sempre algum deslocamento e uma certa
dificuldade de viver em sociedade”
Diário de Pernambuco,
jornal
“São histórias de sexo
e violência - simbólica ou não - que põem em cheque nossa humanidade”
O Povo, jornal
“Uma leitura que irá
ecoar por um bom tempo. Lucas Barroso é esse tipo de escritor, que irá te
acompanhar por muitos dias depois da última página de seu inquietante livro”
Adalberto Souza,
Jornal de Alagoas
“Os personagens vão
mostrando suas motivações e sentimentos no decorrer dos textos e é tão palpável
que o leitor pode se sentir como se fizesse parte daquela história”
Minha Contracapa,
site
“O ritmo das histórias
convida o leitor a permanecer focado no livro até a última página”
Marcelo Kenne
Vicente, Medium
“O autor não faz
concessão em momento algum da obra. (...) Os contos lembram bastante as histórias de
Raymond Carver, sempre terminando de uma forma incomum, como se continuassem
depois do ponto final”
Angústia
Criadora, site
.........
No link, dá para ler as resenhas na íntegra, além de entrevistas para rádios e comentários em canais do Youtube (http://lsbarroso.blogspot.com.br/p/livros-publicados.html).
O livro está à venda (e-book e físico) no site da editora Moinhos - http://editoramoinhos.com.br/loja/um-silencio-avassalador/. É possível adquirir também no site da livraria Cultura, Google Play, Amazon e Estante Virtual.
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O livro está à venda (e-book e físico) no site da editora Moinhos - http://editoramoinhos.com.br/loja/um-silencio-avassalador/. É possível adquirir também no site da livraria Cultura, Google Play, Amazon e Estante Virtual.
quinta-feira, 13 de julho de 2017
A Razão Para Se Manter Vivo
Quem acredita em Deus, precisa de Deus para viver.
sexta-feira, 16 de junho de 2017
Os Cães São Fiéis Até Aos Homens Maus
Deixa esses versos envelhecerem
Sem companhia
Deixa assistirem mais uma guerra
E mais quantas forem preciso
Até que esses versos
Tenham um sentido
Maior que essa destruição
Maior que esse novo mundo
Que renasce
Da guerra
Que esses versos
Estão cansados
De ver
Deixa esses versos
Nas mãos dos soldados derrotados
Bata em retirada
E veja tudo
De algum lugar
Ao longe
De algum lugar
Onde os animais selvagens fiquem a sós
Com seus pensamentos
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