sábado, 1 de abril de 2017

Como Vovó Já Dizia


Eu perguntava como estavam as coisas e minha vó encarreirava problemas e brigas. O vizinho, o amigo, o parente. Um deles tinha lhe aprontado. E ela tinha sempre a razão. Segundo a velha, a atitude certa era sumir. Ir pra bem longe. Tinha certeza que ninguém daria falta.

Eu dizia pra ela não falar bobagem. A velha ia pra cozinha braba. Guardava umas louças, fazia uma bateção desgraçada nos armários e de lá comentava, naquele tom de quem fala sozinho.

- E tem mais. Eu não sou dinheiro pra todo mundo gostar de mim

sexta-feira, 31 de março de 2017

Ninguém Deve Ser Uma Ilha


Há um espírito de manada, de conexões e redes, pautando o modo de ver o mundo. As coisas que nos cercam devem ser observadas sob certos aspectos, por teses pré-determinadas. Algo como: “se você não sabe, jogue no Google e ele lhe dará a resposta” ou “vou atrás do que disse Fulano sobre esse assunto para ter uma opinião formada”. Como se houvesse apenas uma resposta pela qual optar.

É um sentimento comum, cosmopolita. Grandes cidades, pessoas conectadas, próximas (real ou virtualmente), vivenciando o caos, unidas por um ideal. Esse, em muitos casos, superado ou que não representa nada de novo.

Vivemos um período de embrutecimento dos debates. Parece ser uma marca de nosso tempo. O maniqueísmo a que estamos expostos é uma chaga antiga e que, mesmo na diversidade deste “novo milênio”, parece ser a única saída para se ter razão. O próprio conceito de “ter razão” ainda não ter sido superado é algo assustador. Por que é relevante ter razão, “vencer” uma discussão?

As visões políticas de esquerda e direita são apenas dois exemplos claros que nos rodeiam. Não há como evitá-los. Qualquer tentativa de junção ou afastamento dessas correntes mesquinhas significa fuga da realidade. Afinal, é inconcebível que algo convirja de lados opostos. Buscar aproximar esses paralelos resulta em uma pretensa neutralidade, imparcialidade ou isenção. Neste contexto de guerrilha que vivemos, de luta pela verdade, acaba se tornando uma péssima saída.

Seria como, retornando ao conceito de cidade, isolar-se no interior, onde só existe mato, em uma casa sem eletricidade e saneamento básico. À noite, nosso personagem hipotético deve acender uma fogueira com pedras e uivar para a lua.

O cenário é de brutalidade, e não estar em nenhum lado desse “bom combate” significa ser cúmplice do lado oposto. Como no clichê “quem cala consente”, ou no volta e meia lembrado “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Não há saída. Você terá que optar por uma das portas disponíveis. Ao abri-la, a impressão é de que tudo já está escrito e catalogado. Mesmo assim, você deve seguir. Escolha uma ideologia pronta para cada fenômeno que surgir. As cartilhas e lugares-comuns se tornarão mantras repetidos à exaustão. Pronto. Você é mais um na multidão. Do outro lado da rua existe a outra.

Quem adere a esses movimentos, além de obter um sentido para a vida, percebe o quanto essa vida é simples e repleta de significados “superiores”. Aliás, aí está um termo comumente utilizado por quem tem essa fé cega: simples. Há imigrantes ilegais? Simples. Construa-se um muro na fronteira. Não há mais segurança? Simples. Basta armar a população ou retomar a presença do Exército nas ruas. Seu partido sempre se disse “ético”, mas foi flagrado em operações criminosas? Simples. Diga que é tudo invenção da mídia.

Mesmo diante de um vasto mundo, repleto de possibilidades, nos sobram poucas alternativas. Temos as soluções fáceis e os discursos prontos à disposição para estarmos inseridos num contexto, para existirmos. Cabe a nós apenas compartilhar, curtir, registrar, pois ninguém quer ser só, pois ninguém deve ser uma ilha.

--------------------------

Texto originalmente publicado no site Mínimo Múltiplo - http://minimomultiplo.com/index.php?page=283 

Sobre esse mesmo assunto, há uma ótima esquete do Monty Python: A vantagem de ser um extremista - https://www.youtube.com/watch?v=IfxewiOu9_k

sábado, 11 de março de 2017

Dia dos Pais


- Meu pai era horrível. Me ofendia de tudo quando era pequeno.
- O meu era pior. Me batia.
- Mas o meu também me batia. Me surrava com tapa na cabeça.
- Isso não é nada. Eu apanhava de relho.
- Falei dos tapas. Mas ele me espancava mesmo era com um pedaço do pau. 
- Já levei com as costas do facão no lombo.
- Eu tomei até tiro do meu velho.
- Se é por isso, eu fiquei em coma um mês depois duma tunda.
- E eu morri uma vez. 
- É... teu pai era mesmo muito ignorante. O meu nunca chegou a tanto.

terça-feira, 7 de março de 2017

Ervilhas


Eu tava na outra fila do buffet, quando vi uma senhora, aparentando mais de 90 anos, encher seu prato de ervilhas. Foram seis colheradas.

- Não sabia que tu gostava tanto de ervilha assim, vó - disse o homem, já grisalho, que a acompanhava.
- Sim. Como desde sempre.

Voltei uns passos e, prontamente, toquei ervilha por cima de tudo que tinha servido. Porque eu quero viver bastante.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O Azedume no Rádio - Crônica de Paulo Sant'ana


Hoje vou falar sobre um fato que me provoca engulhos: os apresentadores de programas de rádio que são mal-humorados, azedos.

Houve recentemente um apresentador de programa de rádio que passou xingando, durante 15 anos, todos os ouvintes que ele entrevistava.

Isso devia causar revolta nos entrevistados, mas nos ouvintes em geral causava espanto que se entregasse o microfone de uma rádio para um profissional desancar os entrevistados em todas as entrevistas.

Durante 15 anos, foi aquele mal-estar entre os ouvintes daquele programa. Era pau e pau no ouvinte, mas não era um pau e pau cordial, tipo brincadeira. Era pau e pau severo, pancadaria verbal amaríssima (vem de amargo) sobre os entrevistados.

Foi uma página triste do rádio gaúcho.

Mas há ainda muitos outros apresentadores de programas mal-humorados. A gente está engarrafado no trânsito e fica ouvindo os mal-humorados do rádio espalhando com metástase o seu azedume entre os ouvintes.

Não há nada pior do que estar engarrafado numa das avenidas porto-alegrenses e receber no rádio aquela onda de acidez humoral despejada no microfone pelos mal-humorados que apresentam certos programas. O engarrafamento fica mais longo, penoso e insuportável.

Não posso entender, sinceramente, que se utilize o rádio para transmitir amargor permanentemente.

Rádio não é lugar para mal-humorado trabalhar. Que busque outra atividade, talvez como segurança, mas não infringindo o apostolado de alegria e cordialidade que deve caracterizar as transmissões radiofônicas.

Há dias, eu tinha de ir a Esteio para uma reunião com membros de uma imobiliária que me fizeram uma trampolinagem.

Eu estava decidido a botar pra quebrar nessa reunião. Queria lascar o pau verbal nos autores da falsa esperteza em que quiseram me envolver.

Então planejei o seguinte: marquei a reunião lá para Esteio para um horário logo em seguida a um programa de rádio apresentado por um desses azedinhos que não têm jogo de cadeiras e inculcam seu mau humor nos ouvintes.

Fui ouvindo durante 50 minutos o programa do apresentador mal-humorado. Fui me irritando pela BR-116 e, quando cheguei à reunião, eu estava no ponto, na ponta dos cascos para a intervenção severa e mal-humorada que eu tinha de apresentar na reunião.

Em meio ao meu discurso ácido, as pessoas que eu xinguei impavidamente chegaram a me oferecer um sal de frutas para tentar me suavizar.

Mas consegui me safar da encrenca de Esteio massageado pelo programa mal-humorado que fui ouvindo até lá.

Por outra parte, para ser justo, há muitos apresentadores de programas de rádio que são alegres e cordiais, infundem otimismo nos ouvintes, principalmente pelas manhãs, quando todos estão iniciando o dia e necessitam levantar o astral.

Portanto, abaixo o mau humor no rádio, viva o contentamento no rádio. Sejam otimistas e alvissareiros os apresentadores de programas de rádio, espalhem bom astral para seus ouvintes, já que na maioria das vezes as pessoas ligam o rádio para ver se ele as ajuda para saírem de sua aflições.

E um dos deveres principais do rádio é o de socorrer as pessoas preocupadas ou aflitas.

---------------------------

Crônica de Paulo Santana. Publicada originalmente no jornal Zero Hora, em 23 de setembro de 2012.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Piá Injuriado


Aconteceu na linha T6.

O piá trazia um caminhãozinho nos braços. Quieto, tava sentado com a vó no banco vermelho, o assento preferencial dos idosos, obesos, grávidas. Com o ônibus cheio, logo uma velha encostou próximo a dupla.

- Cléverson, deixa a senhora sentar.

Cléverson saiu. Ficou em pé. Mas segundos depois soltou essa.

- Mas isso é injusto.
- É injusto o quê? – perguntou a vó.
- Eu cheguei primeiro.
- Tu tem que dar lugar pros mais velhos, sabia?
- Eu sei. Mas é que eu cheguei primeiro.
- Não interessa quando tu chegou. Os bancos vermelhos são pros  idosos sentarem.
- Mas eu já disse que cheguei primeiroooooooooooo!

A velha que acabara de sentar, manteve o rosto firme. Sequer olhava a birra. A vó ralhou com seu netinho.

- Fica quieto! Esse lugar é da senhora aqui, viu? Seu mal criado!

Com a voz murcha o moleque rebateu.

- Eu sei que sou mal criado... mas é que eu cheguei primeiro, vó.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

A Vida É Assim Mesmo


Melhor é comprar dos dogrados. É menos da metade do preço. Se pechinchar, sai uns 10% do valor da loja. Era sua justificativa quando aparecia com algo de segunda mão em casa.

Dessa maneira, já tinha adquirido um ventilador de teto, computador, som 3 em 1, processador de alimentos, barbeador elétrico, escova alisadora e chapinha, ocúlos de sol, roupas, sapatos... Produtos de última geração e marcas de qualidade.

A esposa ficava chateada, mas utilizava as bugigangas. Um tanto a contragosto, é bem verdade, pois sua consciência pesava, principalmente, à noite, antes de dormir. Nesses momentos, cutucava o marido e puxava assunto. Dividia sua angústia. Mesmo se fosse às duas da madrugada.

- Hoje, uma senhora desesperada veio até aqui tentar recuperar uma panela de pressão.
- O quê?!

A velha afirmou que seu neto tinha vendido a tal panela "novinha". Desconfiava que eles eram os compradores.

- Temos a mesma panela há um tempão! - ele disse.
- Eu sei, amor.
- E o que tu fez?
- Falei que não compramos. Mas coitada... tu tinha que ver a cara da senhora. Tava acabada.
- Coitado de mim, que me ralo o dia inteiro trabalhando e não ganho merda nenhuma.
- Imagina ficar sem panela de pressão...
- Para com isso! Tu não quer que compre mais coisas de drogados, é isso?
- Não é isso...
- Tu quer ficar pagando carnê, tu prefere não ter porra nenhuma em casa, é isso?
- Tá bom, chega dessa conversa. Vamos dormir, amor. Desculpa por ter te acordado - ela concluiu, porque tinha trauma de contas e seu nome estava sujo há anos.

Virou pro lado e pensou que, no fundo, seu marido tinha razão. Azar dos crackeiros, que se fudessem. Eles e suas famílias. Estava se lixando. Não mandou ninguém se meter com droga. As mães e vós deles que se virassem. A vida é assim mesmo. Pensava isso de coração, pois primeiro queria o melhor para si. Sofreu demais com a pobreza. Agora, merecia desfrutar as coisas boas da vida, em sua casinha e com seu homem.

E que Deus tratasse de lhe perdoar e, também, de lhe devolver o sono, que ela havia acabado de perder.