sábado, 7 de janeiro de 2017

Colega de Trabalho


Ele sempre foi um chato. Um chato extremo. Desses que a única saída, numa conversa, é desligar o cérebro ou buscar pensar em outra coisa, enquanto ele tece suas teses diárias. E como a criatura fala!

Panorama político nacional. Macro economia. Situação atual dos Estados Unidos e Europa. Combates no Leste Europeu e Oriente Médio. Classificação do campeonato. Agenda cultural. Por essas e outras que já não leio os periódicos.

O problema é que não há opções de fuga, porque ele não é de deixar alternativas. Geralmente, tem por hábito embretar o interlocutor no corredor de um metro e meio de largura. Deixando-o impaciente, como um boi antes de acessar a arena - que é qualquer uma das saletas da firma.

Entretanto, nesse calor intolerável que anda fazendo, é uma boa topar com ele. Aturar sua chatice por instantes é refrescante. Pois ele, quando fala, lança uma porção de perdigotos. Tem altura média, cerca de 1.75 m. Então, seus mililitros de saliva alcançam a face de quase todos os interpelados.

Equivale a lavar o rosto antes de iniciar o dia de trabalho.

domingo, 18 de dezembro de 2016

A Vida


A vida não é um sopro. A vida é um bafo na nuca.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Grandes Livros Com Capas Feias - O Longo Adeus



Um dos melhores romances do Chandler. Virou filme cult nos anos 70. A capa entrega um pouco, afinal, tem uma mulher fatal no caminho do detetive Philip Marlowe.

Mas quando não tem?

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Lição Pra Toda Vida


"Apenas se contente em não foder quem não quer ser fodido".

BARROSO, Lucas (dezembro de 2016).

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Cena na Biblioteca Municipal


Hoje, fui na biblioteca municipal
E vi um mendigo
Sentado
Curvado
Cabeça repousava na carteira
Babava um pouco no canto da boca
E usava um livro como travesseiro

Porque os livros são feitos
Pra sonhar

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Os Idiotas


Há idiotas até em Águas Internacionais. Piratas lutam contra eles, diariamente. Em terra firme existe um sem-número. Eles têm bandeiras e cânticos. O mundo está infestado. Segundo consta, é a maior epidemia de idiotice de que se tem registro. Anos depois de Cristo, claro. Antes, nenhum idiota foi capaz de contabilizá-los.

Diante desse devastador cenário, os homens das Ciências Humanas, com suas bibliotecas abarrotadas, só serviram para apontar o problema. "Há muitos idiotas no mundo", concluíram, após longos estudos quantitativos e qualitativos. Porém, as metodologias utilizadas não levaram a soluções práticas.

Então, um dirigente eleito em um pleito confuso, repleto de regras idiotas, teve a ideia de emoldurar suas fronteiras, para impedir a chegada de idiotas vindos de fora de seus domínios. Foi assim que se construiu um muro. A metade do problema foi resolvido. Não foi possível eliminar a chaga por inteiro porque os que ergueram a muralha também eram completos idiotas: ficaram ilhados.

Por essa, ninguém esperava.

Mas não é simples conter o ímpeto dos idiotas. Mesmo com essa suntuosa medida de engenharia, só comparada às extintas pirâmides, alguns estrangeiros conseguiam adentrar à terra prometida. Optaram por invadir o espaço aéreo, onde ainda não havia barreiras. Ao desembarcar, eram cooptados à força por policiais, que questionavam a razão daquilo. A justificativa: fugir da idiotice. Acreditavam que, naquela ilha, estariam a salvos dos seus conterrâneos idiotas.

Quem propagou isso foi a Indústria do Sonho, que detinha alta tecnologia e suporte, interligando idiotas sem fronteiras. Com a epidemia avassaladora, a tal indústria se tornou uma das culpadas e teve de parar suas máquinas, para que essas ideias não mais fossem disseminadas. Os idiotas estão sempre preocupados com o bem-estar dos demais.

Acontece que a comunicação se tornou precária. Sem máquinas e sem tecnologia, a nova língua dos idiotas se resumia a "sim" e "não", somente. Esse fato gerou desconfortos diários. Pois quem afirmava sim diante de uma medida discordava de quem dizia o oposto. E não havia maneira de conciliar os idiotas, agora separados em dois grupos. O jeito mais fácil de resolver as coisas eram os embates físicos ou a desistência de uma das correntes.

Os serviços essenciais dos idiotas, como hospitais, escolas, plantações, segurança, ficavam paralisados por longos períodos, devido a esses conflitos. Os mais velhos, ou idiotas há mais tempo, até poderiam contribuir para uma solução, afinal, tinham um vocabulário amplo, considerado antigo, mas eram preguiçosos e temerosos.

Restou a Natureza. Ela resistia aos idiotas com caos e selvageria. Só assim que sabia responder aos acontecimentos. Contudo, como era de se esperar, os idiotas não compreenderam os sinais. E seguiram em marcha, destruindo os dias com a corriqueira idiotice do “sim” versus “não”.

O mundo era mesmo dos idiotas. Nem a Natureza tinha força para detê-los.

Sem ter pra onde ir, sem sombra pra descansar, um homem sem importância divagava sobre isso. Refletia sobre a peste em uma sorveteria. Tinha receio de que eles acabassem com tudo. Imaginou que, a qualquer momento, assistiria ao fim. Todavia, se isso acontecesse, seria idiota demais e a vida não teria sentido algum. Que bobagem! Ele era tão tolo quanto os demais. Riu da sua conclusão, enquanto o gelado do sorvete de morango percorria seu esôfago.

Fazia frio. E ele não entendia o motivo da sorveteria seguir funcionando naquele tenebroso inverno, que, na verdade, era verão. Tremenda idiotice!, pensou consigo mesmo.

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Texto originalmente publicado no site Mínimo Múltiplo - http://minimomultiplo.com/index.php?page=278

sábado, 26 de novembro de 2016

Vale-Refeição Não É Dinheiro


O letreiro diz Dominó Night Club. Uma casa de tolerância. Eles chegaram em um grupo de cinco amigos. Conversaram bastante. Riram um bocado. Beberam consideravelmente. E, como era de se esperar, se refestelaram também. Naquela noite, um deles teve um caso curioso.

Após o término do affair, esticou-se e pensou em descansar um pouco. A cama redonda era bem macia e havia um resto de tempo. A moça, um tanto pragmática e impaciente, lembrou dos valores acordados. “São 180 reais”. Estava se arrumando e queria, se possível, ver a cor do dinheiro o quanto antes. “Tá certo”, ele disse.

O problema é que não havia carteira alguma com ele. Procurou nos bolsos da calça. Revistou o quarto. Ligou para os amigos. Repensou o trajeto... Nada. Em sua posse só um bloco de vale-refeição, que recém havia recebido da firma. Jogou limpo com a garota.

- Vale não é dinheiro – ela retrucou.
- Eu sei. Mas dá pra trocar por comida no supermercado. Tu tem filho?
- Tenho um.
- Então, te dou um pouco a mais do que a gente tinha combinado e tu gasta no supermercado. Pode ser?

Ela fez um muxoxo e silenciou. Esperava uma ideia melhor. Porém, percebeu que não havia outra alternativa. Era pegar ou largar.

- E esse teu vale aceita no Big? – ela perguntou.
- Claro que sim!

E prontamente deu 200 reais em vale-refeição para ela.