quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A Mulher Tinha Ido Embora Há Três Semanas


Não vi conhaque de alcatrão no bar. Mesmo assim, questionei o atendente. Ele foi direto.
- Teu compromisso é com a escrita.

Na rua, dois policiais me abordaram e mandaram encostar na parede. Um deles me revistou, depois pediu meus documentos e disse.
- Teu compromisso é com a escrita.

Na outra quadra, um ladrão calçou seu trinta e oito em minha costelas. Pegou minha carteira, meu relógio – herança de meu avô – e complementou.
- Teu compromisso é com a escrita.

Da sacada de seu apartamento, uma senhora viu o assalto e berrou – todos abriram suas janelas e ligaram as luzes.
- Teu compromisso é com a escrita.

Sem dinheiro, pedi ao motorista do ônibus se poderia me dar uma carona. Ele fez sinal de positivo, falou da violência da cidade e acrescentou.
- Teu compromisso é com a escrita.

Em casa, não tinha bebida alguma. Também não havia ração para os gatos, que miavam sem cessar. A mulher tinha ido embora há três semanas. E a vizinha deixou um bilhete embaixo da porta.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Tudo Que Passa na Cabeça Antes de Uma Noite de Amor - Conto


A Editora Moinhos acabou de disponibilizar um dos contos de Um Silêncio Avassalador (já em pré-venda no site). Relendo-o, recordei uma pergunta que respondi há tempo, em um curso na Unisinos.

"Se tu tivesse só uma opção, tu priorizaria o estilo da escrita ou a história?".

Esse conto (link abaixo) responde o que penso: a história é mais importante. Lógico, não há regras, nem fórmulas para se atrelar. A Literatura aceita tudo.

E a minha tá sendo essa busca por contar histórias.


Tudo que passa na cabeça antes de uma noite de amor - http://editoramoinhos.com.br/wp-content/uploads/2016/08/Conto-de-divulga%C3%A7%C3%A3o-Um-sil%C3%AAncio-avassalador-Lucas-Barroso.pdf

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Nossa Única Resposta



"O acontecimento ainda está à margem da cultura. E a nossa única resposta é o silêncio. Fechamos os olhos como crianças pequenas e acreditamos que assim nos escondemos, que o horror não nos alcançará. Há alguma coisa que assoma do futuro, mas é algo que não sintoniza com os nossos sentimentos. Nem com a nossa capacidade de sentir".

Svetlana Aleksiévitch, no livro Vozes de Tchernóbil

Um Silêncio Avassalador - Trechos


Trechos selecionados de contos do meu terceiro livro, Um Silêncio Avassalador, pela Editora Moinhos (http://editoramoinhos.com.br/). 




quinta-feira, 21 de julho de 2016

Projeto Tu Conhece?


Pessoal da Universidade Feevale tá mapeando alguns artistas independentes do RS. Tem Literatura, Música, Cinema, Quadrinhos... Vai rolar um documentário. Coisa fina!

Fiquei contente ao ser encontrado e participar do Tu Conhece? https://www.catarse.me/pt/tuconhece

Quem der uma força ao projeto recebe livro exclusivo, o próprio documentários e outras coisas bacanas.

Uma prévia do meu depoimento.


domingo, 17 de julho de 2016

20h30, Hospital Conceição


É tudo muito triste.

20h30. Hospital Conceição, Zona Norte de Porto Alegre. Hora da visita. Pacientes empilhados em um corredor. Eram quantos? 20? Ninguém sabe ao certo. Internados em bancos, cadeiras de rodas, macas. Uma senhora pequena ocupa três assentos, está deitada de lado. Veste a roupa azul do hospital. Sofre calada. Caminhar é difícil. A passagem é bloqueada constantemente por um corpo enfermo. É necessário desviar com cuidado para não derrubar o soro de alguém. Familiares de cócoras, outros em pé. Falam sem parar. 30 minutos é pouco para colocar a conversa em dia. Para animar. Para esquecer a dor. Para falar com o médico. Para explicar o problema.

Na ala amarela, um paciente em coma e desacreditado repousa ao lado de outro consciente e que tem o quadro estável. A CTI está lotada. A UTI também está. Lá fora, faz 5 graus. Venta muito. Mais doentes estão chegando e não há vaga no corredor. Enfermeiros e médicos exaustos. Caminham enlouquecidamente. Tem o mesmo semblante dos doentes. Na recepção, é possível ouvir os vigias repetindo a mesma ladainha. "Só um parente por vez". Então, familiares e amigos se revezam. Contam o tempo. É só o que interessa: tempo.

Surge uma senhora, trazida pelo filho. Treme muito. Urra. Tem espasmos. "Ela tem pressão alta!". Abre-se espaço onde não existe e aparecem os enfermeiros.

Acaba o período de visita. Há uma debandada. O silêncio de quem sofre toma a avenida Francisco Trein, em frente ao hospital. Um homem o interrompe. "Ninguém quer morrer assim", diz. "Se a gente pudesse escolher...", responde uma senhora.

É tudo muito triste.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Muito Além do Futebol: Complexo de Vira-Latas

Muito além do futebol. O Complexo de Vira-Latas - termo cunhado em uma crônica de Nelson Rodrigues - é cíclico no brasileiro. Ele está conosco desde o primeiro choro. Esse sentimento de inferioridade, em relação ao estrangeiro, reside em nosso âmago. A alma do "homem cordial" traz essa dor, essa angústia latente. Entre a casa grande e a senzala, o brasileiro é alguém embasbacado com o outro, com o de fora.

Abaixo, a crônica na íntegra.


Complexo de Vira-Latas
Nelson Rodrigues

Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto:

— Não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

Eis a verdade, amigos: — desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo passou em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: “extraiu” de nós o título como se fosse um dente.

E hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: — é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: — o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: — se o Brasil vence na Suécia, se volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.

Mas vejamos: — o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade:

— eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: — sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto joga dores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado do Flamengo. Pois bem: — não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.

A pura, a santa verdade é a seguinte: — qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma:

— temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “com plexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: — “O que vem a ser isso?” Eu explico.

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Por que, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo.

O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota.

Insisto: — para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.

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O texto foi publicado originalmente na revista Manchete Esportiva, em 1958, após o título mundial daquele ano.

Esse vídeo (link ao lado), amplia o tema - https://www.youtube.com/watch?v=2_WD7dqGbzk