terça-feira, 7 de junho de 2016
O Sol da Velhice
Aos poucos, as lembranças ruins sumiram. Restou o lado bom do que foi vivido. Sabia a cor e o cheiro do passado. Muitas vezes, não conseguia descrever. Porém, o sentimento era nítido. O tempo se encarregou de tornar seus dias saudosos.
Não tinha mais raiva do pai sisudo em demasia. O ciúme da irmã que desapareceu. O mais recente esquecimento foi sua esposa. Passara bons momentos com ela. E isso bastava. Sua precipitação e consequente fuga de casa, com os filhos à tiracolo, eram uma névoa que tinha se dissipado com o Sol da velhice.
Ele não vivia mais a perigo. Tampouco tinha demônios para domar. A única questão era: o que ele faria com esse tratado de paz que acabou de assinar com a vida?
sexta-feira, 3 de junho de 2016
"O Artista Paga Alto Preço Por Levar Uma Vida Não Convencional"
Por Vitor Ramil
A história é mais ou menos assim: Mark Twain, o escritor norte-americano, estava sentado na varanda de sua casa quando passou um vizinho e perguntou "Descansando, vizinho?", ao que ele respondeu, "Não, trabalhando". Outro dia o mesmo vizinho o viu cortando a grama do jardim e perguntou "Trabalhando, vizinho?", e Twain respondeu, "Não, descansando".
Lembrei dessa historinha para exemplificar a ideia de que o trabalho e o descanso do artista não se parecem com os das demais profissões. Para o senso comum, "artista" nem mesmo parece ser profissão. Para que serve o artista afinal? O sistema não tem, a priori, um lugar para ele. O pintor francês Paul Gauguin trocou uma profissão "de respeito" e rentável para se tornar um pintor destinado a viver e morrer na pobreza e sem reconhecimento. Que julgamento esperar dos contemporâneos de Gauguin senão o de que ele havia enlouquecido, que era um misantropo, um inadaptado?
A sociedade está sempre pronta para receber os engenheiros, os médicos ou os advogados, nunca os artistas. Se um médico pendurar seu diploma em uma parede, entrar e sair rotineiramente pela porta de um consultório em que estiver afixada uma placa com seu nome e especialidade, ninguém dirá que ele não é um médico, seja ele bom ou mau profissional. Para o artista, um diploma e uma porta com seu nome nunca serão o suficiente. Seu reconhecimento dependerá sempre de critérios subjetivos. O que ele faz é artístico? O que é arte afinal? O próprio artista pode passar a vida fazendo-se essas perguntas. O dilema começa cedo. Ninguém pode dizer a uma criança ou a um adolescente se ele é ou será um artista. O artista só ouve a própria voz. Nos tornamos aquilo que somos, disse outro escritor. Mas que difícil é escutar a própria voz, dizer para si mesmo: sou um artista, serei um artista.
Em minha casa, estimulamos muito nossos filhos a seguirem o caminho da arte caso se sentissem vocacionados para tal. Para a nossa alegria e a deles, Ian e Isabel são hoje artistas que muito nos orgulham. Mas sei que na maioria das famílias os pais tremem diante do projeto ou da decisão dos filhos adolescentes de quererem seguir esse caminho. O medo dos pais talvez se origine da percepção de que os jovens não têm experiência de vida suficiente para medir os riscos de uma escolha profissional equivocada ou de difícil trajetória – sem falar que, para muitos, escolher a arte significa simplesmente abrir mão de ter uma profissão "de verdade".
A difícil trajetória para um artista pode ser consequência do valor intrínseco do que ele produz, mas pode também, e talvez principalmente, resultar da dificuldade de inserção num sistema em que a arte é menos necessária que supérflua – daí a importância, para todas as sociedades, da existência de instituições culturais sólidas, aquelas que ambicionam dar à arte seu devido e digno lugar no sistema. Mesmo atuando num contexto adverso, o artista pode ser tido em alta estima. Mas é mais comum que enfrente preconceitos de toda ordem. É moeda corrente que seja taxado como vagabundo, boêmio, preguiçoso e/ou desregrado, por exemplo.
Particularmente considero da maior importância a vagabundagem, a boemia, a preguiça e o desregramento para o fazer artístico. Mas sei que um só desses adjetivos poderia destruir a reputação dos profissionais "respeitáveis" das profissões, digamos, convencionais. O artista paga alto preço por levar uma vida não convencional. Além disso, como para as pessoas em geral a arte está ligada aos momentos de entretenimento, prazer ou mesmo de descanso – aos momentos em que saem da "rotina" –, impõe-se a ideia de que o artista vive só nesses, por esses e desses momentos de lazer, que sua vida é uma festa permanente. Pouco se sabe do fazer artístico, do quão difícil e complexo ele pode ser, de quanta transpiração existe para cada inspiração. Quem não conhece a fábula da cigarra e da formiga?
Por mais que pensemos em culturas diferentes, em países em que a arte seja mais ou menos valorizada, nos EUA de Twain, na França de Gauguin, no Brasil de Noel Rosa – aquele boêmio incorrigível que, tendo vivido apenas 26 anos, criou uma obra genial com potência suficiente para moldar nossa identidade nacional –, não acredito que o papel do artista na sociedade mude muito de um lugar para o outro. No caso do Brasil atual, a dita demonização dos artistas me parece pontual, diz respeito à política. As pessoas estão demonizando umas às outras de um modo que acena com a barbárie, com a falência de um projeto democrático para o país. Por que os artistas seriam poupados dessa insanidade se, em sua maioria, eles se situam no espectro político mais à esquerda, justamente o que agora está sendo julgado?
Mas estou seguro de que aqueles que hoje insultam um Chico Buarque ou um obscuro grupo de teatro de vanguarda sabem, no fundo, que o trabalho desses artistas é da maior importância; sabem que, produzindo cada um a seu modo e com liberdade, eles são fundamentais para a nossa constituição como nação. Uso a expressão "no fundo" de propósito. Talvez o foco agora devesse estar no fundo, talvez precisássemos ir fundo nisso tudo. Que tal irmos e sairmos de lá compartilhando a mais legítima alegria cidadã?
Artigo publicado originalmente em Zero Hora.
sexta-feira, 27 de maio de 2016
Novo Livro - O Ano dos Mortos
Pessoal,
Saiu meu segundo livro, O Ano Dos Mortos (poesia), editora Bartlebee. A capa e a edição, por Daniel Valentim, estão no capricho. Deu trabalho e gostei do resultado.
Espero que vocês curtam também. Logo, logo estará à venda no site da editora. Mas é possível adquirir comigo. R$25 pessoalmente e R$30 via Correios (para todo o Brasil).
Outras informações por email lsbarroso84@gmail.com ou via Facebook https://www.facebook.com/lucasbarroso84
Apresentação
"Então, será esse o Ano dos Mortos? O que será esse Ano dos Mortos? Um atropelo lírico nos amontoados modorrentos dos dias comuns. Lucas Barroso escreve como se as “belas e sujas” coisas, finalmente encontrassem seu destino, surgindo no seu papel em branco. Uma antevisão através das perdas, das palavras-bombas, explodindo em cada verso.
Nesse Ano, o desses Mortos, ganhar ou perder não tem importância, o que realmente importa é seguir a trilha traçada no meio dessa cidade, imensa de silêncios, como um rasgo na “face ruborizada” de quem se atreve a seguir os passos do autor.
Em tempos de buscas e procuras desenfreadas e desesperadas para breves e poucas respostas, parar e ler Lucas Barroso é um exercício de ressignificação, de treinar o olhar para o que realmente importa, o que realmente anda pulsando, inquietante, assombroso grito silencioso desse Ano dos Mortos".
Adalberto Souza é escritor e psicólogo. Autor dos livros de poesia "Contando Solidões", "Das Coisas Que Esquecemos Pelo Caminho" (Prêmio Lego Ufal/2011), "Fantasmas Não Andam de Montanha Russa" e "Toda Aquela Inevitável Pressa De Te Dizer Nada".
quinta-feira, 19 de maio de 2016
Vagabundos Iluminados
Esse papo que artista é tudo vagabundo não deve ser em tom de ofensa ou má fé. Não pode ser. Estou entendendo tudo errado.
Deve ser porque artista não bate ponto e não tem carteira assinada. Deve ser porque artista é um ser livre. Só pode.
Pois quando solidão aperta ou quando as portas se abrem ou quando os caminhos estão turvos, são esses vagabundos que estendem a mão. São esses vagabundos que iluminam tudo.
Feliz do povo que cultiva essa gente. Feliz do povo que valoriza esse bando de vagabundos.
sexta-feira, 6 de maio de 2016
Livro Novo No Forno - Um Silêncio Avassalador
Então, é o seguinte:
Meu livro de contos, Um Silêncio Avassalador, vai ser publicado pela Editora Moinhos, que é coordenada pela Camila Araujo e Nathan Matos. Dupla que entende do riscado e também é responsável pelo reconhecido site Literatura BR.
Agora, estamos naquela fase de edição, criação de capa e tudo mais. Quando tiver mais informações, aviso a todos.
Site da editora - http://editoramoinhos.com.br/
terça-feira, 3 de maio de 2016
O Pouco Que Satisfaz
Não tem solução. Alguns, só leem manchetes. Uma frase basta. Que trabalho árduo informar hoje em dia!
E a culpa é nossa. Nossa mesmo, sem hipocrisia (sou um dos culpados, sim!). Nós que vamos empacotando tudo. Resumindo. Triturando pra caber em cápsulas para serem digeridas em jejum.
Não é só o jornalismo. São os poemas no Twitter. São os filmes de 10 segundos no Snapchat. São os resumos dos livros baixados para passar de ano.
Essa pressa em ter mais. Em ler mais e pior. É a sina de nosso tempo. E nos faz um mal danado.
segunda-feira, 2 de maio de 2016
O Coração É Um Caçador Solitário - Trecho
Trecho do livro O Coração É Um Caçador Solitário, da escritora norte-americana Carson McCullers (1917-1967).
(...)
Já era tarde quando ele deixou o terreno baldio. O céu duro e azul empalidecera e no leste via-se uma lua branca. O crepúsculo suavizava as silhuetas das casas ao longo da rua. Jake não voltou logo pela Weavers Lane, mas vagueou pelas vizinhanças próximas. Certos cheiros, certas vozes ouvidas à distância faziam-no parar de chofre de vez em quando à beira da rua poeirenta. Andava sem destino, mudando de direção sem qualquer sentido. Sentia a cabeça muito leve, como se fosse de vidro fino. Operava-se nele uma mudança química. As cervejas e uísques que armazenara tão continuadamente sem seu sistema provocavam uma reação. Era atingido de raspão pela embriaguez. As ruas, que haviam parecido tão mortas antes, fervilhavam de vida. Uma faixa de grama irregular bordejava a rua, e enquanto ele andava o chão parecia subir-lhe em direção ao rosto. Sentou-se na grama e encostou-se num poste telefônico. Ajeitou-se confortavelmente, cruzando as pernas à moda turca e alisando as pontas do bigode. As palavras ocorriam-lhe e ele dizia sonhadoramente em voz alta.
- O ressentimento é a flor mais preciosa da pobreza.
Era bom falar. O som de sua voz dava-lhe prazer. Os tons pareciam ecoar e pairar no ar, de modo que cada palavra soava duas vezes. Ele engoliu em seco e umedeceu a boca para tornar a falar. De repente, sentiu vontade de voltar ao silencioso quarto do mudo e falar-lhe dos pensamentos que lhe cruzavam a mente. Era uma coisa esquisita querer falar com um surdo-mudo. Mas sentia-se solitário.
(...)
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