segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Trecho de Homens sem Mulheres, de Haruki Murakami

Quase todos os amigos de Tokai eram casados. Tinham filhos. Tokai visitava a casa deles algumas vezes, mas nunca sentia inveja. As crianças eram graciosas à sua maneira quando pequenas, mas no fim do ensino fundamental ou no ensino médio quase sempre passavam a odiar e insultar os adultos e, como se fosse vingança, causavam sérios problemas, dilacerando sem piedade os nervos e o sistema digestivo dos pais. Por outro lado, os pais só pensavam em matricular os filhos em escolas reconhecidas, estavam sempre irritados por causa das suas notas, acusavam um ao outro, e as brigas conjugais pareciam não cessar. Os filhos, por sua vez, quase não abriam a boca em casa, enfurnavam-se no quarto e não paravam de conversar pela internet com os colegas de escola ou ficavam absortos em estranhos jogos pornográficos. Tokai não desejava de jeito nenhum ter filhos assim. Os amigos eram unânimes em afirmar: “Filhos dão trabalho, mas é bom tê-los”, porém ele não podia confiar nesses clichês, não mesmo. Provavelmente os amigos só queriam que Tokai carregasse o mesmo fardo que eles. Apenas acreditavam, sem fundamentação alguma, que todo mundo tinha a obrigação de passar pelo mesmo calvário que eles.

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Trecho do livro Homens sem Mulheres, de Haruki Murakami (faz parte do conto Órgão Independente).

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Anthony Bourdain, sonhos e Miami

 

Iggy Pop e Bourdain

"E acho que tudo se resume a isso. Cheguei até aqui, escrevi um livro, consegui um programa de tv, vivi meus sonhos e conheci meu herói. Dois homens velhos numa praia". 

Anthony Bourdain

Trecho extraído do programa Anthony Bourdain: Parts Unknown (5a temporada, episódio 3 - Miami)  

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Isso é Cidade Baixa

 


Acho que pensaram se tratar de um morador de rua. Mas não era. O homem estava deitado na calçada porque estava morto, na rua Lima e Silva, próximo à avenida Ipiranga. 

Uma mulher curiosa. Quatro guardas municipais. Um rapaz, que esperava para acessar o prédio e fazer seu serviço de mudança. 

- Ele tá sem pulso - disse a senhora. 

- Já acionamos a Brigada e a Samu, mas essa hora é difícil - respondeu um dos guardas. 

 O homem do frete parecia impaciente, escorava um armário sem necessidade, como se o móvel fosse cair do pequeno caminhão parado. 

- Isso é Cidade Baixa, minha senhora - comentou de enxerido. 

Duas quadras a frente, do lado de fora do cartório, na esquina com a avenida Venâncio Aires, um casal de noivos esperava para legalizar sua união. Ele de terno. Ela de vestido. As testemunhas bem trajadas. Todos em volta de uma pequena lanchonete improvisada, nos fundos do estabelecimento.  

- Ó, o pastel da noiva frito na hora! 

E a comemoração foi geral. Os taxistas do ponto aplaudiram. As pessoas que estavam na fila do cartório, que dava a volta na rua, também. Uma ambulância passou pela festa, sirene ligada, cruzando o sinal vermelho. Ninguém deu a mínima.